Explosão de casos de covid sobrecarregam sistema de saúde de Cuba

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Idoso tem sua pressão arterial verificada antes de ser inoculado com a vacina cubana Abdala em Havana, em 2 de agosto de 2021 (AFP/YAMIL LAGE)

Um médico cubano desarma impacientemente seu estetoscópio para poder adaptar seu tubo tipo Y a um tanque de oxigênio e assim salvar dois pacientes graves de covid-19, em um momento em que uma explosão de infecções sobrecarrega os serviços de saúde da ilha, orgulho e coluna do seu sistema social.

No dia 26 de julho, Pedro Julio Miranda, médico de 26 anos, enfrentou um dilema no Hospital del Sur, na província central de Villa Clara: tinha quatro pacientes em estado grave e apenas três cilindros de oxigênio.

"Imagine brincar de Deus, decidindo quem vive e quem morre. Pensei que se não fizesse algo, um dos quatro morreria com certeza", disse Miranda à AFP via WhatsApp. Ele procurou "algo que fosse oco e bifurcado em uma de suas extremidades, até que Deus me iluminou, tinha a solução por perto e não conseguia enxergar porque estava em volta do meu pescoço", relatou. Era seu estetoscópio.

Semanas depois, o ministério da Saúde reconheceu "limitações" no fornecimento de oxigênio medicinal. E na província de Holguín, dezenas de médicos denunciaram em dois vídeos coletivos o colapso hospitalar de sua região, algo incomum no país socialista caribenho.

O presidente Miguel Díaz-Canel disse no dia 12 de agosto que a situação "havia ultrapassado as capacidades do sistema de saúde, estressando o trabalho de todo o seu pessoal".

- "Transmissão descontrolada" -

Cuba conseguiu administrar a crise de saúde até julho passado, quando a variante Delta provocou a disparada das infecções.

O número médio de casos diários até 22 de agosto foi "39,2% superior ao do final de julho", informou José Ángel Portal, ministro da Saúde.

Até esta segunda-feira, a ilha, de 11,2 milhões de habitantes, acumulava 646.513 casos e 5.219 mortes.

Para Amilcar Pérez-Riverol, pesquisador cubano da Fundação Fapesp da Universidade Estadual Paulista (Unesp), há "uma situação grave e uma explosão de transmissão descontrolada do vírus".

"Cuba ficou por muitas semanas com uma taxa de positivo em torno de 20%", quatro vezes a taxa indicada pela OMS "como um alarme para alta circulação viral", apontou.

Com uma extensa rede de clínicas de bairro, o país tem 82 médicos por 10.000 habitantes, em comparação com 32 na França e 26 nos Estados Unidos, segundo a OMS.

Havana até enviou cerca de 4.000 profissionais de saúde para cerca de quarenta países para ajudar no combate à covid-19.

O principal trunfo do sistema de saúde cubano é a prevenção, mas no "segundo nível não é uma potência", disse Pérez-Riverol.

"Quando ocorre uma explosão dessa magnitude, se a primeira barreira de contenção for superada, no segundo nível a situação piora muito rapidamente", acrescentou.

Sob o embargo comercial dos Estados Unidos desde 1962, o sistema hospitalar do país sofre há anos com deficiências de infraestrutura, falta de medicamentos, suprimentos de diagnóstico e equipamentos.

"Meu pai está em terapia com ambos os pulmões comprometidos", disse em sua conta no Twitter Mag Jorge Castro, enquanto pedia medicamentos como nimotuzumab, jusvinza e cefepime.

Outras mensagens nas redes sociais falavam de pacientes que teriam sido intubados sem sedativos.

Reportagens da televisão estatal revelaram que as pessoas esperam até 24 horas para serem transferidas para um hospital e a AFP foi capaz de verificar a falta de testes de antígeno, PCR e medicamentos nas clínicas locais.

- "Vacinação deve aumentar" -

Com uma indústria biométrica que produz a maior parte das vacinas para sua população, Cuba desenvolveu seus próprios imunizantes contra o coronavírus: Abdala, Soberana 02 e Soberana Plus, embora ainda não reconhecidas pela OMS.

Além disso, começou a usar a vacina chinesa Sinopharm neste domingo na província central de Cienfuegos.

Quando a vacinação começou, em maio, o governo propôs fornecer o antiviral a 70% da população até agosto e completar 100% em dezembro, mas atualmente apenas 3,5 milhões de cubanos estão imunizados (31,3%).

No final de maio, Yuri Valdés, vice-diretor do Instituto Finlay, que produz a Soberana, denunciou que, por conta do embargo americano, não haviam conseguido insumos para fazer mais vacinas.

"A produção de Soberana se estabilizou, agora a vacinação deve aumentar", disse Pérez-Riverol e destacou que há indícios preliminares da eficácia da vacina cubana porque em Havana, onde toda a população vacinada está imunizada, não há notícias de colapso do hospital ou aumento dos serviços funerários.

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