Explosão em clube de tiro deixa 5 mortos, incluindo os donos: local havia voltado a funcionar na véspera da tragédia, após 21 dias de recesso

Chega a cinco o número de mortos após uma explosão de grandes proporções, ocorrida na manhã deste domingo (15), no Clube de Tiro Ponta Negra, em Manaus (AM). Quatro pessoas haviam sido encontradas já sem vida no local e a última vítima foi confirmada nesta segunda-feira. O homem, identificado como Maikson Alves, de 29 anos, era funcionário do stand, teve 90% do corpo queimado, chegou a ser socorrido com vida pelos bombeiros, mas não resistiu aos ferimentos na manhã seguinte. As causas da tragédia ainda são investigadas.

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Além de Maikson, também perderam a vida no incêndio outros dois homens, funcionários do clube, que ainda não tiveram os nomes confirmados, e o casal dono do negócio: Nardier Pinheiro de Araújo, de 74 anos, que foi secretário pessoal do ex-governador do Amazonas Amazonino Mendes, e Ursula Rodrigues Macedo de Araújo, sua esposa. Eles ainda abriam o clube na manhã de domingo quando tudo aconteceu.

Nardier trabalhou no passado como uma espécie de "faz tudo" de Amazonino e era tido por ele como um de seus braços direitos. Eles, no entanto, teriam se afastado por desavenças já quando ele havia se tornado empresário no ramo das armas de fogo.

As autoridades já sabem que o incêndio teve início no subsolo do prédio. A princípio, chegou a ser levantada a hipótese de pane elétrica em um gerador da loja, o que já foi descartado. A principal suspeita, neste momento, é de que possa ter havido algum tipo de incidente no armazenamento das armas ou munições. O clube de tiro estava fechado, de recesso, desde a véspera de Natal e havia voltado a funcionar no dia anterior, sábado, 14 de janeiro. Em sua fachada e nas redes sociais, o Clube de Tiro Ponta Negra ostentava ser "o maior clube de tiro indoor do Brasil".

As imagens divulgadas pelo Corpo de Bombeiros e pela Secretaria de Segurança Pública do Amazonas impressionam. Com a explosão, o clube, que fica na Avenida Liberalina Loureiro, no bairro Ponta Negra, e funciona no subsolo, ficou completamente destruído e a fumaça dificultou o trabalho dos socorristas. Em vídeo publicado pelos militares, ainda no domingo, era possível observar as chamas ainda altas no interior do clube e todos os objetos e paredes queimados. O trabalho dos bombeiros contou com 30 militares e apoio de 6 viaturas.

O governador Wilson Lima ainda não se manifestou sobre a tragédia nas redes sociais. Seu secretário de Segurança Pública do Amazonas, general Carlos Alberto Mansur, que tem especialização em Manutenção de Material Bélico pelo Exército no currículo, acompanhou o trabalho de rescaldo dos bombeiros no local e apresentou condolências aos familiares e amigas das vítimas "neste momento de profunda dor".

Vistoria não apontava irregularidades

Questionado pelo GLOBO, o governo do Amazonas afirmou que o clube estava com a documentação em dia. Além do stand de tiro, funcionava no local, também, uma loja de armas, a CTPN, do mesmo dono, morto na tragédia, que armazenava armamento e munição. A Secretaria de Comunicação (Secom) disse que, no que diz respeito a autorização do Corpo dos Bombeiros, o Clube de Tiro tinha o Auto de Vistoria (AVCB) para funcionar. A vistoria é realizada pelos Bombeiros de dois em dois anos, ou caso haja necessidade antes desse período. O ofício, segundo a pasta, foi emitido no dia 23 de julho de 2021, com vencimento para 23 de julho de 2023. "O Estado ressalta, ainda, que para o funcionamento de clubes desse tipo, são necessárias também autorizações de órgãos municipais e federais", acrescentou.

'Risco é maximizado com armazenamento', diz especialista

O especialista em gerenciamento de riscos, Gerardo Portela ressalta o quanto o armazenamento de materiais inflamáveis e explosivos necessita de atenção, porque pode acabar maximizando os riscos em caso de incêndios motivados, por exemplo, por centelhas ou vazamento de gás. Ele chama atenção, também, para o fato de que muitos stands deste tipo armazenam pólvora para reaproveitamento da munição usada, o que diminui os custos do negócio.

– Alguns clubes de tiro podem eventualmente fazer recarga de munição, que é uma forma de não ter que comprar munições novas, mais caras. Para isso, precisa ter pólvora para armazenar. A partir do momento que há armazenagem de produto perigoso, há uma série de requisitos a serem cumpridos para que você tenha segurança no local, que envolvem desde a parte elétrica, de ventilação, de armazenagem e disposição física desse material – analisa Portela.

O especialista afirma que, em materiais químicos e explosivos deve-se atentar às normas contidas na chamada Ficha de Segurança de Produtos Químicos (FISPQ), que acompanha cada tipo de material.

– Depende muito do tipo, se é pólvora ou outros materiais explosivos ou inflamáveis, mas sempre possuem uma ficha de informação de segurança, a FISPQ, que identifica o produto e indica todos os cuidados que se deve ter. É preciso verificar se essa FISPQ estava sendo seguida por aqueles que utilizavam esse tipo de material. É importante notar que muitas vezes você até segue alguns requisitos e acaba esquecendo alguns mais banais, como o de energia elétrica ou saída de gás. Os riscos se maximizam com a armazenagem de produto perigoso – acrescenta.