Expoente da fotografia contemporânea, Eustáquio Neves inaugura exposição no Rio

Autodidata, o fotógrafo mineiro Eustáquio Neves recorreu às telas renascentistas ao fazer os primeiros estudos sobre luz. Essa mesma imersão ressoaria, anos mais tarde, nas poses das mulheres que aparecem na série “Objetilização do corpo”, produzida entre 1999 e 2000, e que ele exibe uma parte na galeria Cavalo, em Botafogo, a partir desta quinta-feira, na individual “Corpo e alma”.

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Trata-se, porém, de apenas uma das camadas desses trabalhos que falam sobre a maneira como o corpo feminino é usado para vender “toda a sorte de produtos pela mídia”. Também estão lá detalhes como pichações urbanas utilizadas como imagens e não como palavras e texturas em forma de cruz. “A minha obra tem essas sutilezas que convidam a uma observação por um tempo mais longo”, diz Eustáquio, que vive em Diamantina.

A mostra reúne 12 fotos do artista conhecido internacionalmente (ele acaba de ganhar o Premio Mediterraneum 2022, na Itália) pelas obras marcadas por sobreposições de imagens e procedimentos químicos, estes feitos com a destreza de quem se formou técnico de química industrial. Além dos trabalhos já citados, haverá obras das séries “Arturos” (1992-1993), com registros de uma comunidade quilombola, e “Máscaras de punição” (2004), no qual sobrepõe imagens, como a da próprio artefato usado na tortura de escravizados e uma fotografia de sua mãe, numa abordagem sobre o racismo estrutural.

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A exibição também prevê, no dia 19, o lançamento do livro de artista “Aberto pela Aduana”, cuja tiragem é de apenas 300 exemplares. “É um questionamento sobre essa imigração forçada, que foi a escravidão. Um livro autobiográfico, que fala sobre as fronteiras cotidianas, cheio de carimbos e referências alfandegárias”, descreve o fotógrafo, de 67 anos.

Após cinco anos desde sua última individual no Rio, ele volta à cidade enquanto uma grande retrospectiva sobre a sua obra está em cartaz no Sesc Ipiranga, em São Paulo. Embora em menor escala, a mostra carioca também propõe uma vista panorâmica sobre a produção do mineiro. “Ele é uma referência para muitos artistas jovens e pioneiro na manipulação da fotografia”, destaca Ana Elisa Cohen, responsável pela Cavalo, ao lado do sócio Felipe R Pena, que completa: “Há algo altivo na obra dele. Ele é muito preciso e nobre na maneira como aborda os temas”.