Exposição reúne mais de 400 peças de Zuzu Angel

Durante o trabalho de pesquisa da Ocupação Zuzu Angel, que toma de assalto o Itaú Cultural em 1º de abril - data em que, ironicamente, o golpe militar de 1964 completa 50 anos -, uma das pesquisadoras encontrou uma latinha nos arquivos da TV Cultura. Sem etiqueta ou qualquer outra identificação, continha apenas os dizeres: Nova York, 1971. A pesquisadora, então, pediu para ver o material e o que ela suspeitava se confirmou.

Tratava-se do lendário desfile-protesto que Zuzu Angel realizou na embaixada brasileira dos EUA em setembro daquele mesmo ano, auge da ditadura militar no País. “São quatro minutos de registros que a CBS americana fez na época, quando as matrizes mandavam para rádios e TVs do mundo todo, junto com LPs e programas de rádio prontos, reportagens... Era uma espécie de Canal 100 deles. A própria TV Cultura nunca usou o material. E agora vamos mostrar o vídeo pela primeira vez”, conta Claudiney Ferreira, gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura sobre o desfile que simboliza a luta que Zuzu travou ao exigir seu direito de enterrar o filho Stuart Angel Jones, militante do grupo revolucionário MR-8,1, morto em junho do mesmo ano, sob tortura, no CISA (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica.

Stuart foi dado como desaparecido político, mas Zuzu nunca aceitou esta versão e lutou contra a ditadura até sua morte, em 14 de abril de 1976, em um acidente de carro suspeito, cujas condições até hoje não foram totalmente esclarecidas. “O vídeo é mudo, filmado com um estilo quase expressionista”, conta Valdy Lopes Jn, que assina a direção de arte da mostra e dividiu a curadoria da exposição com Ferreira, além da jornalista Hildegard Angel e de Valéria Toloi, gerente do Núcleo de Educação do Itaú Cultural. São preciosidades como esta que virão a público na primeira Ocupação dedicada a um ícone da moda.

Ação multimeios e multimídia, a Ocupação é uma espécie de exposição que se move e reúne mostra, performances, ciclo de cinema e encontros com especialistas e estilistas, entre outras atividades, como performance de atrizes que, caracterizadas como Zuzu Angel, vão encenar trechos do livro Minha Maneira de Morrer e encená-los para o público que visitar um dos quatro andares do Itaú Cultural. Ao todo, em mais de 400 peças, o público vai poder percorrer os caminhos que transformaram a mineira de Corvelo em uma das maiores estilistas, e ativistas, que o Brasil já teve.

Em tempos em que a moda era considerada ‘arte de butique’, Zuzu realizou um dos primeiros desfile-protesto da história, ousou pensar sua moda como produto para o grande público e pensava em identidade de marca muito antes de as roupas começarem a receber etiquetas. Ela, aliás, foi a primeira a costurar etiquetas de sua marca em uma das tantas peças icônicas que criou tanto para mulheres da alta sociedade quanto para os jovens que adoravam suas camisetas estampadas com o anjo, sua marca registrada. “Foi revolucionária, pensou o prêt-à-porter como poucos, costurou para a mulher que trabalhava, colocou as filhas para trabalhar com ela, criou os filhos praticamente sozinha, pois o ex-marido voltou para os EUA depois da separação”, explica Lopes Jn.

Na Ocupação, cerca de 40 looks da estilistas estarão expostos. Há quatro vestidos de noiva, nove trajes que ela usava como símbolo do luto pela perda do filho, três vestidos que as modelos americanas usaram no desfile de Nova York e dois exemplares da série pastoral. Há também mais de 30 itens como camisetas, bolsas, porta-óculos, fivelas. Em cada um, o singelo anjo faz contraponto com a violência que tomava conta de sua vida. Tal violência que estampa uma das peças mais interessantes da exposição.

Em um vestido longo de algodão, formas amplas e mangas volumosas, ao lado do anjo, de delicadas flores, árvores, casinhas bucólicas, sol e passarinhos, estão estampados soldados, tanques de guerra, quepes militares e canhões. “É incrível o trabalho dela, de bordar símbolos militares com uma delicadeza incrível. Os soldados são palhaços, o sol nasce quadrado, o tanque militar parece um desenho infantil. Era uma das formas de protestar e questionar o regime”, comenta Valéria. “Ao mesmo tempo, gostava de ser chamada de costureira e pensava a moda em 360º, criava desde vestidos de gala para estrelas como Joan Crawford e Liza Minnelli, até cintos, bolsas e objetos para casa, como porta-copos e lençóis. Ela foi pioneira”, contam os curadores.

Desfile-protesto

Esse vestido branco é uma das tantas peças que Zuzu desfilou em Nova York e até hoje não tinham sido vistos na passarela. Por isso que o vídeo do desfile-protesto acrescenta um capítulo na compreensão da vida de Zuzu. Engenhosa, ela, que sabia ser proibido por lei criticar o País no exterior, organizou seu desfile em um território tecnicamente brasileiro, a casa do embaixador brasileiro em Nova York. Assim, ao desfilar sua revolta, ela não seria acusada de tecer críticas negativas ao Brasil fora dele. A estratégia surtiu efeito, seu protesto e sua luta por justiça e pelo corpo de Stuart ganharam as páginas dos jornais internacionais, que propagaram ao mundo o protesto estampado em seus vestidos.

Suas peças delicadas, e até mesmo lúdicas, contrastavam com a aridez dos temas bélicos. Uma atitude que impressiona e emociona.

Nem mesmo a filha de Zuzu, a jornalista Hildegard, tinha visto o vídeo do desfile, que marca a fase mais dramática da vida da estilista mineira. Zuzu, que fora casada com o americano Norman Jones, pai de seus filhos (Hildegard, Stuart e Ana Cristina), ousou divulgar internacionalmente o que se passava no Brasil, atraiu atenção dos militares e entrou para a lista de ‘personas non gratas’ do regime. Poucos anos depois, em 1976, ela morreu em um acidente de carro suspeito.

Foi Lopes Jn quem mostrou o desfile para Hilde, criadora do Instituto Zuzu Angel e do Museu da Moda. A jornalista pode não ter visto o desfile-protesto de sua mãe, mas acompanhou toda sua carreira e, mesmo 38 anos após a morte da estilista, ainda descobre novos capítulos da vida e do trabalho de uma das maiores profissionais da moda que o Brasil já teve. “O acervo da Zuzu é dinâmico. A cada dia, recebemos novas doações, descobrimos novos fatos, revelações, documentos. As pessoas trazem cartas, roupas, fotos, vídeos. E essa é a exposição mais completa da Zuzu Angel já realizada”, comenta a jornalista. “Para o Museu da Moda, recebo doações de peças de outras grifes. Para o Instituto Zuzu, há três semanas recebi peças de Belo Horizonte”, conta Hilde.

“As pessoas se sentem participantes. E são, porque é a história do Brasil. Elas viveram a tragédia. E as que não viveram querem reparar esta injustiça, apaziguar a dor. É um carinho. Outro dia, uma jornalista trouxe três roupas lindas que comprou na loja de Ipanema. Uma delas está na exposição”, relata a curadora, que mantém o acervo Zuzu Angel em um apartamento anexo ao seu, no Rio. “Olho os vestidos de mamãe nas araras, já são quase sexagenários, bem cuidados, prontos para viverem um grande momento na Ocupação. Fico emocionada. Como consegui guardar, preservar, reunir tudo isso até hoje?”, questiona Hilde. “Via mamãe guardar recortes, tecidos, fazendo anotações sobre estampas, tecidos, vestidos para que as costureiras trabalhassem; fazendo álbuns. Ela passou isso para mim e minha irmã. Foi Ana quem levou para a Europa, onde morava quando mamãe morreu e guardou muita coisa.”

São tais relíquias, mais de 400 itens ao todo, que revelam as cores, estampas, bordados e a brasilidade que a estilista louvava sem medo de ser criticada pelos então defensores da moda estrangeira. “Mamãe misturava chita com seda, renda, com motivos do folclore. Queria que a moda dela ganhasse as ruas, fosse símbolo de liberdade, de tema e movimento. E conseguiu.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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