Cinco marcas famosas envolvidas em casos de racismo

Cinco marcas famosas envolvidas em casos de racismo

Texto / Lucas Veloso e Nataly Simões | Edição / Pedro Borges | Imagem / Luis Rocha - Mídia Ninja

O Brasil é considerado, por organizações dos Direitos Humanos, como um país racista devido ao tratamento que dispensa aos negros.

Por exemplo, a pesquisa Viver em São Paulo: relações raciais na cidade, divulgada pela Rede Nossa São Paulo, em novembro de 2018, mostra que seis em cada dez paulistanos notam diferença no tratamento de brancos e negros.

As situações são comuns em estabelecimentos comerciais como lojas, cinemas, restaurantes, bares, supermercados e farmácias.

O Alma Preta relembra cinco marcas famosas que já se envolveram em casos de racismo no país:

1. Extra

Em fevereiro deste ano, Pedro Gonzaga, de 19 anos, foi sufocado e morto por um segurança da rede de supermercados Extra, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Nas imagens das câmeras de segurança, um segurança aparece deitado sobre o jovem, que não reage, e ignora pedidos de outras pessoas para que o solte. Uma mulher que viu o ocorrido diz: “Está desmaiado, não está não?”. Outra fala: “Ele tá com a mão roxa”. Mas o segurança se nega a sair e responde: “Quem sabe sou eu”.

O caso foi denunciado pelo Ministério Público ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Os seguranças Davi Ricardo Moreira Amancio e Edmilson Feliz Pereira respondem o processo em liberdade.

O Alma Preta procurou o Extra para perguntar se a rede adota alguma política para evitar casos de discriminação racial. Em nota, a rede informou que disponibiliza um canal para o recebimento e apuração de denúncias que infrinjam a ética da empresa.

Confira a resposta completa:

“O Extra tem a inclusão e a diversidade como valores e compromissos. A rede conta com mais de 32 mil colaboradores(as), mais 10 mil (34,4%) que se autodeclaram negro(a) e desses mais 3.500 em posições de liderança (gerente e acima).

O Extra disponibiliza um canal para recebimento e apuração de denúncias que infrinjam o Código de Ética da Companhia e também participa da Coalizão Empresarial pela Equidade Racial e de Gênero, que estimula a implementação de políticas e práticas empresariais no campo da diversidade.

Além disso, acredita no seu papel de agente de transformação e na corresponsabilidade das empresas na eliminação do preconceito e discriminação racial. Desde 2017 tem uma agenda formativa sobre o tema.

Em 2018 implantou um grupo interno de Afinidade de Equidade Racial, formado por colaboradores(as) negros(as) e não negros(as) comprometidos em construir com a empresa um ambiente de trabalho cada vez mais inclusivo e de promoção da equidade racial.

Este ano expandiu suas ações formativas para prestadores de serviços especializados e implementou embaixadores do tema por loja (multiplicadores locais) além de nova agenda educacional presencial e online como, por exemplo, vieses inconsciente para todos os diretores companhia.”

2. BMW

Em janeiro de 2013, o casal Ronald Munk e Priscilla Celeste foi à concessionária da BMW Autokraft, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Na ocasião, eles estavam acompanhados do filho adotivo, de sete anos, que é negro.

Enquanto conversavam com o gerente de vendas sobre os automóveis, relataram ter sido surpreendidos foram surpreendidos por uma atitude preconceituosa quando a criança se aproximou deles.

O casal lembrou da conversa. "Ele disse: ‘Você não pode ficar aqui dentro. Aqui não é lugar para você. Saia da loja. Eles pedem dinheiro e incomodam os clientes’.”. O gerente não havia entendido que o menino era filho do casal.

Quase dois anos após o ocorrido, em novembro de 2014, a justiça condenou a concessionária por danos morais.

O Alma Preta procurou a BMW Brasil para perguntar se a empresa adota alguma política para evitar casos de discriminação racial. Em nota, a marca informou que repudia qualquer comportamento discriminatório e incentiva a diversidade e a pluralidade cultural. Em relação à condenação, a empresa de origem alemã optou por não se manifestar.

Confira a resposta na íntegra:

“O BMW Group Brasil repudia qualquer comportamento discriminatório e incentiva a diversidade e a pluralidade cultural em todas as suas ações. Nos negócios, o BMW Group Brasil divulga amplamente seu Código de Conduta que preza pela diversidade e singularidade dos colaboradores para impulsionar o desempenho e capacidade de inovação do BMW Group Brasil. Sobre o caso em comento, o BMW Group Brasil não se manifestará sobre o desfecho da ação judicial.”

3. Habib's

João Victor de Carvalho tinha 13 anos quando morreu em fevereiro de 2017. Ele pedia esmola em frente ao Habib's da Avenida Itaberaba, na Vila Nova Cachoerinha, Zona Norte de São Paulo.

De acordo com os laudos da Polícia Técnico-Científica, a morte foi causada por um infarto em decorrência do uso contínuo de drogas, mas duas testemunhas afirmaram ter visto o gerente e o supervisor da rede darem socos na nuca do menino.

Algumas imagens mostram o garoto sendo arrastado por dois funcionários. Desacordado, eles largam João Victor na calçada. Um dos laudos, incluídos no inquérito, aponta que o jovem morreu em razão de agressões dos funcionários do restaurante e por asfixia.

A Polícia Civil encerrou o caso, em março deste ano, sem apontar culpados. Contudo, o Ministério Público pediu que a delegacia responsável pela investigação produza novas provas.

O Alma Preta procurou o Habib’s para perguntar se a rede adota alguma política para evitar casos de discriminação racial, mas até o fechamento desta matéria não obteve resposta.

4. Sestini

Em agosto de 2017, uma campanha da Sestini divulgada em canais infantis, na televisão e nas redes sociais, ofertava mochilas estampadas com personagens infantis acompanhadas de brinquedos colecionáveis. Em um dos comerciais, o uso do turbante – elemento de expressão da identidade negra, era indicado como algo “vergonhoso”.

A campanha foi denunciada pela Criança e Consumo, pelo Coletivo de Oyá e pela Uneafro Brasil.

Rosangela Martins, advogada da Uneafro, salienta que o racismo é extremamente danoso para o desenvolvimento psicossocial, sobretudo de crianças e adolescentes.

“A educação pelo respeito à diversidade é compromisso de todos, não resta dúvida de que a discriminação é uma violação de direitos e deve ser denunciada. Racismo é crime”, pontuou.

Em agosto, a empresa anunciou ter se comprometido a realizar cursos de formação para seus funcionários a fim de evitar conteúdos com elementos racistas.

O Alma Preta procurou a Sestini para perguntar se a rede adota mais alguma política para evitar casos de discriminação racial, mas até o fechamento desta matéria não obteve resposta.

5. Animale

Em março de 2015, o norte-americano Jonathan Duran, morador da Zona Oeste de São Paulo, relatou que seu filho de oito anos havia sido vítima de racismo por parte de uma funcionária da Animale. O caso ocorreu em uma loja na Rua Oscar Freire, no Jardins, quando o menino estava na calçada do estabelecimento esperando pelo pai. A funcionária o abordou e disse que “ele não poderia vender nada por ali”

Inicialmente, o pai do menino não pretendia entrar com algum tipo de processo contra a empresa. Ele afirmou que tentou diálogo com a Animale, mas que a empresa “ignorou seus pedidos e agiu como se nada tivesse acontecido”. Segundo Jonathan Duran, a marca deveria ter apresentado medidas para evitar que mais atos de racismo ocorram nas lojas.

Em agosto, O Tribunal de Justiça de São Paulo condenou a grife de roupas a pagar R$ 45 mil por danos morais.

O Alma Preta procurou a Animale para perguntar se a rede adota alguma política para evitar casos de discriminação racial, mas até o fechamento desta matéria não obteve resposta.