Extrema direita europeia usa críticas e conspiração para se proteger da pandemia

Por Anne RENAUT
1 / 2
(Arquivo) Beatrix von Storch, deputada do partido de extrema direita Alternativa para Alemanha (AfD), durante uma sessão do Parlamento alemão, em Berlim

Os partidos da extrema direita da Europa "fracassaram em elaborar respostas coerentes" à crise da saúde, demonizando os governos e encorajando teorias da conspiração, sem poder lançar mão da imigração, segundo um estudo da fundação francesa Jean-Jaurès.

"A rapidez com que a pandemia se espalhou, sem nenhuma relação com os fluxos migratórios limitados observados no final de fevereiro na ilha de Lesbos e, depois, em outras partes da Grécia, invalidou totalmente a exploração da questão da imigração como vetor da doença", avaliou o cientista político Jean-Yves Camus, diretor do Observatório das Radicalidades Políticas da fundação e autor do estudo.

A viagem feita no início de março à Grécia pelo vice-presidente do partido de extrema direita francês Agrupamento Nacional, Jordan Bardella, e o eurodeputado do mesmo partido Jérôme Rivière "teve um eco mínimo" enquanto os neonazistas do partido grego Aurora Dourada "desempenharam um papel insignificante" na crise, administrada pelo governo conservador, "sua polícia e seu exército".

"A ameaça da imigração como vetor da pandemia foi utilizada principalmente para denunciar o suposto desrespeito ao confinamento em alguns bairros com alta população imigrante, especialmente muçulmana", destacou o pesquisador, que lembrou que este tipo de relato, que vincula a imigração ao crime, é anterior à crise na saúde.

- "Causas escondidas" -

Os partidos de extrema direita também "exploraram mal" a crise quando alguns partidos no poder, como o Fidesz na Hungria, lhes "deixaram muito pouco espaço", por exemplo, fechando as fronteiras.

Outros governos administraram relativamente bem a crise, dificultando as críticas, como na Alemanha, onde o AfD alcançou níveis mínimos na intenção de voto desde 2017, diante do surgimento de uma nova formação (Widerstand 2020), hostil ao confinamento e com um discurso altamente conspiracionista.

Esses partidos "demonizaram" os executivos, concentrando suas críticas na origem do vírus, na globalização e na abertura das fronteiras, bem como na restrição de liberdades individuais, destacou Camus.

Alguns partidos, amantes das "causas ocultas", apontaram a influência da China dentro da Organização Mundial da Saúde, o que permitiu "reativar o tema do Ocidente na luta contra o comunismo".

Mencionaram a teoria de um vírus que teria escapado "acidentalmente" do laboratório de virologia de Wuhan, sem validá-la necessariamente, mas deixando escapar uma aura de "dúvida" a respeito.

A líder do Agrupamento Nacional, Marine Le Pen, acusou o governo francês de mentir "absolutamente sobre tudo", julgando que era "senso comum" perguntar se o vírus não havia "saído de um laboratório", enquanto 40% de seus apoiadores acreditam que o vírus foi "intencionalmente" fabricado.

- "Ditadura sanitária" -

Na França, o Agrupamento Nacional "só pode partir do preconceito segundo o qual o governo trai os interesses do povo e mente sobre a pandemia", explica Camus.

"O eleitor lepenista não acredita nas incertezas: para ele, o poder 'sabe' ou 'deve saber'. Se duvida de suas decisões é porque 'esconde' algo, além de ser incompetente".

Diante das medidas que restringem as liberdades de circulação ou das técnicas de monitoramento da população, partidos como Vox, na Espanha, acusaram as "elites" de "se aproveitar conscientemente a emergência de saúde para acelerar a imposição de uma forma autoritária de governo".

O partido nacionalista húngaro Jobbik, que tenta enfrentar o Fidesz aliando-se à centro-esquerda quando precisa, denunciou que até a liberdade de imprensa estava sendo violada.

Por outro lado, na Itália, a Liga de Matteo Salvini, aliada do Agrupamento Nacional, caiu nas pesquisas. O ex-ministro do Interior é acusado de defender um "duplo discurso": o de um confinamento total para salvar vidas e, ao mesmo tempo, o de um retorno ao trabalho para agradar os pequenos empresários de seu eleitorado, enquanto o governador da Lombardia e membro da Liga, Attilio Fontana, conseguia apenas combater a epidemia.