Extrema-direita a um passo de consumar arrancada na França

Após os resultados do primeiro turno das eleições legislativas, a extrema-direita de Marine Le Pen está a um passo de formar um grupo parlamentar pela primeira vez em 35 anos e ganhar peso no cenário político na França.

Esse marco coroaria a estratégia de mais de uma década de "limpeza" de imagem, e não de programa, do partido de Le Pen, após décadas encarnando o papel do voto de protesto.

"O Reagrupamento Nacional (RN) terá um grupo e um grupo importante", disse nesta terça-feira a líder direitista na rádio RTL, para quem sua formação "é o primeiro partido da França" e liderou em "11.300 municípios".

Com 18,68% dos votos no primeiro turno das legislativas, os candidatos do RN não conseguiram capitalizar a dinâmica positiva de Le Pen, que obteve 23% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial em abril e mais de 41% no segundo.

Numa campanha eleitoral marcada pelo duelo entre a aliança centrista Juntos do presidente Emmanuel Macron e a frente de esquerda de Jean-Luc Mélenchon (Nupes), o partido de Le Pen ficou na terceira posição no domingo.

Segundo projeções, das 577 vagas na Assembleia Nacional (câmara baixa), Juntos alcançaria de 255 a 295 e o Nupes de 150 a 210. Embora bem menor, o RN conquistaria bem mais que as oito de 2017.

As pesquisas dão-lhe entre 5 e 45 deputados. Para formar uma bancada precisa de pelo menos 15 parlamentares e, se o fizer, terá peso nos debates, já que os presidentes das bancadas têm mais tempo para intervir ou podem pedir um recesso na sessão.

Outra fonte de satisfação para o campo de Le Pen foi a eliminação no primeiro turno das legislativas do líder rival de extrema-direita Éric Zemmour, a cujos eleitores estendeu a mão no domingo antes do segundo turno.

Além disso, outro aspecto importante para um partido com mais de 20 milhões de euros em dívidas é que pode arrecadar 1,64 euros por ano por cada voto. Com os seus mais de 4 milhões de votos, isso representaria cerca de 6,9 milhões de euros de dinheiro público por ano.

- "Único vencedor" -

"Tradicionalmente" o resultado da extrema-direita, seja com Marine Le Pen ou seu pai Jean-Marie, "cai muito ou até afunda" entre uma presidencial e as legislativas, explicou à rede LCI Frédéric Dabi, do instituto Ifop.

Mas "o RN está se saindo muito bem" e registrou "um resultado muito bom", acrescentou Dabi. Em 2017, a líder da extrema-direita obteve 21,5% no primeiro turno das eleições presidenciais e, semanas depois, 13,2% no primeiro turno das legislativas.

"O único vencedor em relação a 2017 deste primeiro turno é o RN, que está avançando" e "vai aumentar seus assentos" após a votação de 19 de junho, acrescenta o diretor-geral da Ipsos France, Brice Teinturier.

A extrema-direita teria, assim, seu próprio grupo na Assembleia pela primeira vez desde 1986, quando a então Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen - rebatizada de Reagrupamento Nacional - conquistou 35 cadeiras, mas o sistema eleitoral era diferente.

Na França, os eleitores só podem escolher um único deputado para o seu círculo eleitoral, por meio de um sistema de maioria de dois turnos que impossibilita partidos como o RN de obter representação alinhada com seus votos em nível nacional.

Este sistema está em vigor desde 1958, mas o presidente socialista François Mitterrand decidiu em 1986 introduzir uma dose de proporcionalidade, de modo que o círculo eleitoral tornou-se o departamento e cada partido apresentou uma lista de candidatos.

As cadeiras de cada departamento foram atribuídas de acordo com os votos obtidos por cada lista, o que permitiu que o partido de Le Pen ganhasse em representação.

Em 1988, Mitterrand dissolveu o Parlamento após sua reeleição e retornou ao antigo sistema.

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