Fábio Porchat homenageia 'Central do Brasil', que completa 25 anos de filmagens, ouvindo histórias dos passantes na estação

Um menino de 12 anos, morador de Bonsucesso, na Zona Norte do Rio, trabalha como engraxate no Aeroporto Santos Dummont. Ele vai oferecer seus serviços para um homem e, quando chega mais perto, percebe que não pode ser útil, porque o sujeito está calçando um par de tênis. Já se preparando para bater em retirada, a criança resolve pedir um sanduíche para matar a fome àquele desconhecido que seria o responsável por mudar completamente sua vida. Ele consegue o lanche e é convidado por seu benfeitor a participar de um teste para um filme. Os personagens desse enredo da vida real são o ator Vinícius de Oliveira e o diretor Walter Salles, protagonista e diretor de “Central do Brasil”, que completa 25 anos das filmagens.

O causo dos bastidores do longa-metragem que concorreu ao Oscar com duas indicações — Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz (Fernanda Montenegro) — já é conhecido de muitos, mas é daqueles que poderiam ser exibidos no programa “Que história é essa, Porchat?”, comandado por Fábio Porchat. O ator, roteirista e apresentador passou a ser referência quando o assunto é história curiosa. Uma espécie de Dora dos tempos modernos (no filme, a protagonista de Fernanda escreve cartas para analfabetos que precisam mandar notícias para as famílias distantes), ele ouve muito o que as pessoas têm a dizer em busca dos melhores relatos para o seu público. E foi por isso que Porchat aceitou de cara o convite da Canal Extra para passar algumas horas na Central do Brasil, maior estação e ponto de chegada e partida de todos os ramais de trem da Região Metropolitana do Rio. A proposta era fazer o que ele adora: vasculhar o que de interessante o outro tem para contar.

— Meu programa mostra, e a experiência na Central comprova, que todo mundo tem algo surpreendente pra revelar. A gente precisa ouvir mais as pessoas — afirma o artista, que se sentou atrás de uma mesinha como a de Dora no filme e recebeu vários passantes para jogar conversa “fora” no dia 16 de junho, em pleno feriado de Corpus Christi: — É impressionante como eles imediatamente se abrem, sem filtros. Às vezes, falam detalhes barra pesada até, porque no fim das contas o que querem é bater papo. Todos chegaram de boa e foram me contando de onde eram, pra onde iam... Teve uma menina que estava atrasada para o jogo do Botafogo (veja abaixo nos depoimentos de quem conversou com Porchat).

Stefany Leal, a torcedora do Alvinegro, jamais deixaria a oportunidade passar:

— Sempre tive um crush no Fábio. Ele é lindo, inteligente, interessante. Eu estava indo para o jogo, mas parei, né? Não tem problema se atrasar numa situação dessas.

Dias após o episódio, em coversa com a Canal, o famoso vascaíno fez questão de ressaltar:

— Eu fui pé-quente, porque o Botafogo ganhou. Fala pra ela!

A reportagem, então, entrou em contato com Stefany para mandar o recado de seu ídolo, e a adolescente de 17 anos deu muita risada:

— Ele me deu sorte mesmo, porque eu estava encalhada há um tempão e, depois do encontro com o Fábio, arrumei um namorado.

Assim como a moradora de São Gonçalo, os demais que se sentaram no banquinho à frente de Porchat estavam num clima ótimo, com sorrisão estampado no rosto... Mas nem todos escolheram relatar algo engraçado.

— Ouvi umas tristezas, né? O menino que perdeu o pai de forma trágica, o outro que foi vítima de racismo obviamente. Para o programa, fico atrás de coisas estranhas, divertidas, inusitadas, mas também ouço algumas tristes. A Evelyn Castro (atriz), por exemplo, me contou da morte dos pais. O Kaysar (Dadour, ex-BBB e ator) falou sobre um grande amor que precisou deixar na Síria. Os dois ainda vão ao ar. Mas sempre procuro o viés do bom humor — explica o apresentador, que dá a receita de uma boa história: — Pra mim, é aquela tem uma virada. Em determinado momento, quem escuta fala: “Não!? Não é possível!?”.

Wesdrey Matheus, de 21 anos, morador de Niterói: preso no elevador e recebido pela polícia

“Eu estava na casa do meu irmão, que mora com a irmã dele. Essa menina tem um namorado, que nos chamou para um churrasco em Icaraí, um bairro de luxo em Niterói. A gente a deixou lá e, por volta das 3h da manhã, fomos embora. Só que o elevador é daqueles que funciona por digital, e você não consegue apertar o andar, a menos que tenha a sua digital registrada. (O dono do apartamento) foi com a gente até o corredor, colocou a digital e apertou o andar. Só que, quando chegamos, estávamos no estacionamento, abaixo do térreo. A gente saiu. Vimos que paramos no lugar errado e voltamos. Mas, quando entramos, a porta fechou e não tinha como abrir de volta. Ficamos trancados e o celular estava descarregado, não tinha como pedir ajuda. Teríamos que esperar alguém entrar de carro no estacionamento do prédio para sairmos. Só que de madrugada não tinha ninguém. Então começamos a gritar e pedir socorro, até que apareceu uma velhinha em uma janelinha que dividia o térreo do estacionamento, não sei explicar bem. Ela disse que chamaria o porteiro, que veio e falou que ia resolver, mas não abriu a porta na hora, então estranhamos. Começou a amanhecer e estávamos mais calmos, até que abriram a porta do estacionamento. Ficamos aliviados e já estávamos prontos para agradecer. Mas, quando saímos, tinham três viaturas da polícia e uma da guarda civil. Eles saíram fazendo perguntas, levaram a gente para a parede, mas resolvemos. O namorado da menina desceu e explicou a situação. Foi um sufoco”.

Stefany Leal, de 17 anos, moradora de São Gonçalo: assinatura falsificada fez com que a mãe acabasse com a excursão da escola

“Eu estudava num colégio público e ia ter uma excursão para Petrópolis. Minha mãe (Jenifer) me proibiu de ir porque eu estava de castigo. Era uma criança muito atentada. Tinha 13 anos e estava no sétimo ano. No dia do passeio, eu falei em casa que estava indo para o meu curso de informática de manhã, mas fui para a excursão da escola. Para isso, tive que falsificar a assinatura da minha avó na autorização. A da minha mãe era difícil demais. À tarde, na hora do colégio, ela resolveu ligar para lá pra saber de mim. Intuição de mãe nunca falha. Aí contaram que eu estava em Petrópolis. Nossa, ela ficou enlouquecida. Falou pra diretoria que exigia que eu voltasse imediatamente, senão ela ia chamar a polícia. Acabou com o passeio de todos os alunos, que precisaram voltar por minha causa. Eles quiseram me bater e minha mãe ficou um mês me levando e buscando da aula pra que ninguém me atacasse. Ainda bem que no ano seguinte fui para uma escola particular. Eu virei uma espécie de celebridade cancelada no antigo colégio. Todos sabiam quem eu era e me odiavam (risos). E o pior é que as turmas do sétimo ano ficaram proibidas de viajar para Petrópolis por três anos. Fiz história, porque os professores precisavam explicar aos estudantes o motivo do fim da excursão. Por causa da assinatura falsificada, minha mãe me deixou um mês sem ver TV, sem falar no celular, não podia fazer nada. Só ir à escola e aos cultos da igreja. Mas adoro contar isso. Eu aprontava, foi muito bom (risos)”.

Ryan Marques, de 18 anos, morador de Nova Iguaçu: drama que daria um filme

“Meus pais se separaram quando eu era muito pequeno e eu fui morar com meu pai (Leandro), éramos colados. Ele não tinha uma situação finaceira boa. Vendia desinfetantes de porta em porta, e eu ia junto porque não tinha com quem ficar. Passei anos sem ver minha mãe (Patrícia). Num carnaval, fui catar latinha com meu pai e peguei uma de cerveja que uma mulher tinha acabado de jogar fora. Eu tinha uns 5 anos. Quando nos afastamos, meu pai me contou que aquela pessoa era a minha mãe e as outras que estavam com ela, minhas tias. Peguei a sucata do ladinho delas, mas ninguém veio falar comigo. Fomos embora. Como éramos muito pobres, tínhamos o hábito de caçar bichos pra comer. Um dia, no meio do mato, um cachorro me mordeu nas costas e eu fiquei doente. Aí eu já tinha uns 8 anos. Minha mãe ficou sabendo do meu estado de saúde e quis me pegar de volta. Meu pai só me falou que me levaria para um ponto de encontro para eu conversar com ela. Quando chegamos lá, ele disse: ‘Vou ali comprar seu biscoito preferido, enquanto vocês dois conversam’. Ele nunca mais voltou. Fui morar com a minha mãe e aí fiquei íntimo dela, conheci meus cinco irmãos... Passei a ter uma vida melhor, minha mãe trabalhava como empregada doméstica em casa de família. Um dia, quando eu tinha uns 12 anos, ela me contou que meu pai tinha sido assassinado, mas não me deixou ir ao enterro. Ele estava vendendo desinfetantes numa favela, quando aconteceu uma operação policial. Sei que ele me abandonou para o meu bem. Hoje, eu estou terminando o ensino médio e trabalho como ajudante de pedreiro. Sonho servir o Exército. Quero comprar uma casa para formar uma família com a minha namorada. Já estou juntando o dinheiro. Por mais que minha vida tenha sido essa confusão toda, nunca entrei para o crime, porque tanto meu pai quanto minha mãe me ensinaram a ser honesto. Então não sou triste. Minha história daria um filme, né?”.

Gorete Moreira, de 60 anos, do Rio Grande do Sul: viagem cheia de aventuras aos 60, com direito a festa na favela

“Sou turista no Rio. Fiquei andando pela cidade de ônibus e metrô, justamente porque queria ver tudo. Não peguei nenhum carro de aplicativo. Esta é a minha primeira experiência na cidade e vim sozinha. Comprei uma passagem só de ida, porque não sabia quando queria voltar. Não planejei nada, só a hospedagem num hostel. Meu propósito era interagir com pessoas diferentes. Conheci gente que nunca imaginaria — argentinos, italianos, peruanos, colombianos... Eu só falo português, mas nossa conversa aconteceu. Aos 60 anos, depois de me dedicar só à família, coloquei a mochila nas costas. Eu era mãe, esposa, dona de casa e, por último, a Gorete, eu mesma. De uma hora para a outra, eu me coloquei em primeiro lugar, o que foi uma mudança gigante. Estou casada há mais de 30 anos. Eu me libertei da rotina, quis viver uma aventura. Fiz o básico, claro, de pesquisar a cidade, até porque falam do Rio como um lugar extremamente perigoso. Fiquei admirada com a receptividade de todos. Muitos me falaram que não podia tirar o celular de dentro da bolsa, mas fiz foto de tudo. Economizei muito ao longo da minha vida para, hoje, poder fazer essa loucura. No hostel, eu sou a avó de todo mundo. Já sabia que iam jovens para lá. Saí com um grupo de sete meninas, fomos em Ipanema e até em festa na favela. Em nenhum momento senti medo, porque acredito que as coisas acontecem quando têm que acontecer. Foi amor à primeira vista (com o Rio de Janeiro). Com essa idade, tudo o que tinha feito até agora havia sido com marido e filhos. O próximo destino será Salvador. Já idealizei tudo na minha mente: ficarei 40 dias. Espero que seja ainda este ano, por volta de outubro ou novembro”.

Bastidores da reportagem

Como não podia deixar de ser, os bastidores desta reportagem também renderam boas histórias. Com direito a viradas, do jeito que Porchat ensinou. Já que Dora, a personagem de Fernanda Montenegro, foi o ponto de partida para a ideia de levá-lo à Central do Brasil, a Canal foi atrás de um depoimento da atriz para saber o que de curioso ela contaria ao humorista, caso fosse ao seu programa. À Fernanda foi pedido que relembrasse algo do filme que rodou há 25 anos. Foi ela quem destacou aquele enredo lá do início do texto, do pequeno engraxate, e ainda lembrou que ele não pediu o sanduíche de graça:

— Ele propôs: “Quando você vier de sapato, eu faço o serviço”. Walter perguntou se ele queria participar do teste, ao que o menino respondeu que nunca tinha ido a um cinema. Depois, Vinícius telefonou, perguntou como chegar à produtora, pediu licença para levar um amigo junto, queria companhia, sabe-se lá que lugar era aquele.

Dois dias após ser procurada pelo EXTRA, Fernanda foi conferir “Histórias do Porchat”, no Teatro Casa Grande, no Leblon, Zona Sul do Rio. Coincidentemente, sentada atrás dela, estava uma repórter da revista Canal Extra, que registrou em vídeo os elogios que a veterana fez ao ator no fim do espetáculo para todos os presentes ouvirem: “É um humor sem doença. Nós estamos numa época tão pesada, que é uma alegria estar aqui com você. Esse público tão amoroso e feliz está diante de um homem sadio mentalmente. Muito obrigada!”.

O ator conta que foi convidar a atriz para ir ao “Que história é essa, Porchat?”, e ela confirmou presença para o ano que vem:

— Aí eu disse: “Já que estou falando com você, vou ter a audácia de te chamar pra ver minha peça”. Ela falou que iria, mas fiquei esperando ser avisado. Fernanda foi de surpresa. Quando eu olho na plateia, vejo aquela entidade. Fiquei com o coração acelerado o tempo todo e pensando: “Meu Deus, Fernanda está aqui ouvindo todos os meus absurdos”. Depois, ela falou umas palavras lindas pra mim (aquelas registradas pelo vídeo). Como se não bastasse, mandou áudios mais tarde. Avisei pra ela que ia mostrar pras pessoas, porque não tem como, então vou enviar pra Canal (veja abaixo o que a atriz disse nas mensagens).

Porchat nem sonhava ser ator ainda quando, “viciado” na cerimônia do Oscar, ficou danado ao assistir a Fernanda perdendo a estatueta de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (de “Shakespeare apaixonado”). Nada mais justo que querer mostrar ao mundo os áudios que recebeu do ídolo.

— Eu me lembro do impacto que “Central do Brasil” causou em mim. Fui assistir no cinema ainda moleque — diz ele, que jamais imaginaria anos depois estar na mesma locação fazendo uma homenagem ao longa para uma reportagem.

Primeiro áudio de Fernanda após o espetáculo

“Porchat, querido, é Fernanda. Eu quero agradecer muito o espetáculo que eu vi hoje, o comediante que você é. É uma esperança você, sabe? Porque tudo é tão engajado, tudo é tão partidário, tudo está tão radicalizado. E a gente vai ver um espetáculo que não tem angústia nenhuma, não tem pessimismo nenhum. É a vivência feliz de um jovem que está na vida e conta suas aventuras de uma maneira tão humanizada, tão descontraída. Com tanto talento e qualidade de intérprete. Então, meu querido, muito obrigada. Eu saí muito feliz do seu espetáculo. Porque a barra aqui fora tá ruim, mas a gente vai, não é? E, como a gente vai, eu fico feliz de ver um jovem, já experimentado na vida, com uma visão madura, mas ainda plena. Graças a Deus, plena. Ainda plena porque há jovens que são velhos, entendeu? Um beijo muito grande”.

Segundo áudio de Fernanda na mesma noite

“Querido Porchat, o seu humor é politicamente sadio (risos), entendeu? É uma coisa absolutamente nova nas desgraças que estamos vivendo sem parar. Ter coragem de fazer um espetáculo a favor do riso, do sorriso. Sabe? Da alegria! Te agradeço. E, graças a Deus, casa cheia! E vá por aí afora que você vai lotar esses teatros do Brasil. Porque estamos precisando. É disso, politicamente, que estamos precisando. Um beijo, querido”.

Nas telonas

Novo filme de Porchat, “O palestrante” estreia na próxima quinta-feira, dia 4. O ator interpreta um contador. Não de histórias, mas de números. Ele trabalha na área financeira de uma empresa e é demitido, além de ser abandonado pela mulher.

— Guilherme está numa “bad vibe” e resolve viajar. Quando chega ao aeroporto, vê aquelas pessoas levantando plaquinhas com nomes de passageiros. Vai em direção a uma e resolve se passar por Marcelo. Ele descobre que o cara é um palestrante motivacional que foi contratado para dar uma palestra em Itaipava pela personagem da Dani Calabresa — resume Porchat, que assina o roteiro: — Ele tem que se virar no improviso, coisa que ele nunca fez, porque é um cara das ciências exatas.

Já seu intérprete é totalmente da área de humanas e se diz péssimo com números, mas se saiu muito bem num teste rápido (ok, foi fácil!):

— Quinze anos! — respondeu sem pestanejar à pergunta: “Você nasceu em 1983; e ‘Central do Brasil’ estreou em 1998. Qual era sua idade?”.

Resta saber que números “O palestrante” vai atingir nas bilheterias. Afinal, o ator já arrastou milhões para os cinemas. Certo é que Guilherme, o protagonista, seria um excelente convidado para o “Que história é essa, Porchat?”, né?

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