Fã mais antigo de Gal Costa, cearense quer criar exposição com artigos raros e inusitados

Frankley Tavares, um dos fãs mais antigos de Gal Costa — título que a própria artista reconhecia —, conta que jamais mediu esforços para estar perto da cantora. Os dois se conheceram em 1986, quando o cearense, então com 21 anos, acompanhou a chegada da baiana ao aeroporto de Fortaleza, onde ela fez um show naquele ano. Desde então, o fato se tornou um hábito: nas apresentações de Gal em estados nordestinos, lá estava Frankley esperando a intérprete no saguão do aeroporto.

Gal por Gal: Veja frases com que Gal Costa se definia

Maternidade: Gal deixa um filho: 'Uma luz na minha vida'

Presença na área restrita para amigos e familiares no velório da artista — que morreu, aos 77 anos, em decorrência de um infarto, em casa —, Frankley diz que vendeu itens pessoais importantes ("prefiro não entrar em detalhes", ele pondera) para conseguir tomar um voo de Fortaleza para São Paulo e se despedir da figura por quem nutria profunda admiração desde os 7 anos de idade.

Gal Costa retribuía o carinho, sempre que o via na plateia. Em agosto deste ano, a cantora o chamou ao palco, num show em Natal, no Rio Grande do Norte, e o apresentou como seu fã mais antigo. Na ocasião, Frankley vestia um paletó e uma calça com imagens de todos os discos de Gal, a mesma peça que ele agora utiliza no velório da artista.

— Em todos os shows dela, eu sempre fazia uma roupa especial inspirada nas capas de seus discos — conta ele. — Essa era uma maneira de homenageá-la. A roupa que estou usando agora (no velório) fiz para mim, no dia do meu aniversário. E aí decidi utilizar nesse show que fui em Natal, neste ano, alguns dias após meu aniversário. Foi um presente para mim e para ela. Mas não sabia que a peça ia causar tanto.

Exposição com raridades

O produtor de moda conheceu Gal por acaso, enquanto ouvia rádio em casa, na infância. Desde que escutou "Teco Teco" pela primeira vez, apaixonou-se pela voz cristalina da artista. E foi tratando, então, de dar um jeito de segui-la, numa época em que não havia internet, plataformas de áudio ou redes sociais, como ele frisa.

Bruce Willis: Após afasia, cuidados com jardim e distância de barulhos fazem parte da rotina

Comprou o primeiro disco ("Gal tropical") aos 14 anos. À época, o então adolescente morava muito longe do Centro de Fortaleza, e implorou para o vendedor da loja de artigos musicais lhe dar um desconto no vinil. Como a barganha não foi aceita, precisou voltar a pé para casa, já que não tinha dinheiro suficiente para o disco e a passagem de ônibus.

— Lembro bem disso, mas eu queria demais escutar o disco. São coisas que faço por amor, sabe? Quando o vendedor me disse que não daria o desconto, pensei: "Ah, vou para casa a pé, e aí ouço as músicas enquanto descanso as pernas". E assim fiz. Caminhei por mais de duas horas até chegar em casa — ele rememora.

Hoje, Frankley cultiva o sonho de criar uma exposição reunindo todos os itens e artigos sobre a cantora que ele guarda em casa, há mais de quatro décadas. O acervo é extenso. A própria Gal costumava dizer que o fã possuía raridades que nem ela tinha.

A coleção inclui números de revistas publicadas entre a década de 1960 e hoje, livros, repertórios de shows, da década de 1980 para cá (ele pegava os papéis do chão do palco, após as apresentações). Estão lá também artigos inusitados, como uma taça de água utilizada pela cantora nos anos 1990 (o restinho de água deixado por ela na louça também está guardado); uma colher suja de café que ele deu um jeito de surrupiar de uma xícara; uma cópia autografada da certidão de nascimento; um guardanapo usado pela artista num almoço, em 1988, e ainda com a marca de sua boca...

— Realmente, nunca medi esforços para conseguir o que eu queria. Tenho uma história com a Gal. Guardar cada coisinha significa muito. São objetos com valor sentimental e afetivo — conta ele, que há dois anos, ao ver parte de sua casa ser consumida por um incêndio, arriscou-se no fogo para salvar os objetos relacionados à cantora. — Estive com Gal várias e várias vezes. Há pouco tempo, neste ano, ela enviou para minha casa, por correio, o livro com sua fotobiografia. A gente se conhecia há muitíssimos anos, e ela sempre me recebia muito bem. Às vezes, me dizia: "Ih, hoje não vou conseguir autografar seus discos". E estava tudo bem, pois a gente tem que entender que nem sempre ela podia me atender, né!? Mas uma coisa é certa: Gal sempre ficou encantada com as coisas que eu tinha sobre ela. Lembro que me dizia assim: "Rapaz, você tem um acervo que eu não tenho".