Fãs de K-pop criam suas próprias lojas devido à falta de produtos oficiais no Brasil

Louise Queiroga
Gráfico mostra impacto do BTS no PIB da Coreia do Sul

A demanda por produtos da indústria musical sul-coreana — como álbuns, lightsticks (bastões de luz), agendas, canetas, roupas, bichinhos e bonecos de pelúcia — existe no Brasil entre os K-poppers, como são chamados os fãs do gênero, o sétimo mais popular do mundo. Mas como não há importação das grandes lojas de departamento por aqui, muitos fãs observaram uma oportunidade para criarem um negócio próprio.

Embora a cultura coreana tenha ganhado cada vez mais espaço em países ocidentais, ainda é raro encontrar em lojas brasileiras produtos oficiais de K-pop, sejam álbuns ou bichinhos de pelúcia. A exceção para isso ocorre nos Estados Unidos, onde varejistas disponibilizam tais itens com facilidade.

Um exemplo disso é a unidade da linha Line Friends, da qual faz parte o BT21, localizada na Times Square, na ilha de Manhattan, em Nova York, com uma extensa variedade de produtos baseados nos oito personagens criados pelo BTS, o primeiro grupo coreano a participar de uma performance no Grammy, a principal premiação de música nos EUA.

Este foi o caso da jovem Amanda Vasconcelos Santos, de 20 anos. Ela disse que já tinha o sonho de ser empreendedora, mas não esperava jamais que fosse seguir por esse caminho do K-pop, até que, em 2017, conheceu o BTS no Billboard Music Awards — o grupo formado por RM, Jin, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jungkook foi o primeiro da Coreia a ser premiado no evento americano.

 

— Estava passando por um momento difícil e eles (idols do BTS) me ajudaram a sair desta situação. Assim como criei a loja por conta do grupo BTS, sempre foi um sonho meu ter meu próprio empreendimento, mas não sabia que chegaria até onde estou neste momento — disse a idealizadora da loja @mamakstore, que conta com nove funcionários e 17,8 mil seguidores no Twitter.

O mesmo ocorreu com Rayssa, da @CriativStore. A jovem, formada em Administração disse que empreendedorismo foi sua paixão desde que começou a trabalhar e, por causa da falta de opções para comprar produtos de K-pop, abriu a loja em 2016.

— A Criativ Store surgiu a partir da minha dificuldade em conseguir comprar produtos dos meus artistas favoritos — explicou ela. — Basicamente, a Criativ surgiu da minha necessidade como fã, de ter sentido isso na pele e de querer ajudar outras pessoas que sentiam da mesma forma, com a junção de amor pele empreendedorismo.

Hoje, ela conta com cinco pessoas na equipe e 11,2 mil seguidores no Twitter. De acordo com Rayssa, os grupos mais procurados são BTS, Ateez, Stray Kids, TXT, Twice, LOONA, Red Velvet e IZ*ONE, e os principais itens são álbuns e lightsticks.

— Acho que com a proporção que o K-pop tem tomado no mundo inteiro, certamente já deveria ter espaço suficiente para um investimento de lojas maiores investindo nisso — afirmou.

 

Essa influência dos fãs na propagação da hallyu (onda sul-coreana) ganhou destaque no livro "The Korean Wave: Evolution, Fandom e Transnationality" (A onda coreana: evolução, fãs e transnacionalidade, em tradução livre), publicado em 2017 pelos professores Tae-Jin Yoon, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de Yonsei, na Coreia, e Dal Yong Jin, da Escola de Comunicação da Universidade de Simon Fraser, no Canadá.

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De acordo com eles, os fãs contribuem "significativamente para o sucesso global e sustentado dos grupos de K-pop" por meio de duas maneiras: capitalização nas redes sociais, promovendo uma "economia criativa", e atividades que geram um "cosmopolitismo pop" através da translacionalidade, ou seja, afeição por uma cultura que ultrapassa fronteiras.

 

"Os organizadores de fã-clubes assumiram o papel de intermediários culturais, capitalizando nos algoritmos das mídias sociais para se apropriar, copiar e colar, bem como circular imagens de ídolos nas plataformas de mídia social", diz trecho do livro.

 

De fato, a presença do K-pop nas redes sociais entre internautas brasileiros é perceptível. O Brasil foi o sexto país que mais falou sobre o gênero musical no Twitter ao longo de 2019, segundo um levantamento do próprio microblog. Dos grupos, o mais comentado é o BTS, que inclusive ocupa o topo do ranking de popularidade da Billboard há 167 semanas, tendo ultrapassado o record que era de Justin Bieber (163 semanas seguidas em primeiro lugar). Além disso, cinco dos 10 artistas mais comentados no Twitter no Brasil são do K-pop.

 

As ações dos fãs na web também atraem grupos de K-pop para realizarem shows no Brasil. KARD, por exemplo, já tem o costume de vir uma vez por ano. O idol BM anunciou recentemente que ele, J-Seph, Somin e Jiwoo voltarão pela quarta vez em maio de 2020.

 

E é no Twitter onde as chamadas "lojinhas" viraram febre entre os fãs, vendendo produtos que vão dos oficiais até os ditos fanmades, itens produzidos pelos próprios empreendedores.

Segundo Amanda, a demanda cresceu significativamente a partir de 2018, em especial com relação a produtos de papelaria (cadernos e bloquinhos) e oficiais (álbuns, principalmente do BTS), além dos fanmades, como fotos no estilo polaroid e cards.

Inclusive, foi em 2018 quando surgiu a loja @StrayLoja, com 30,3 mil seguidores no Twitter, que é gerenciada por apenas duas pessoas, ambas K-poppers. Os grupos mais buscados, segundo elas, são BTS, Stray Kids, Ateez, Twice e Monsta X.

 

— Quando eu comecei a comprar meus álbuns sozinha, por sempre achar um absurdo os valores que algumas lojas cobravam, eu comecei a pesquisar e entrar em contato. Acabou que quando eu vi, estava comprando álbuns para amigos, amigos de amigos e assim vai. Foi aí que me veio em mente abrir uma loja disso — contou a vendedora Giovanna Cici, de 21 anos.

Apesar do avanço desse tipo de comércio na internet, existe ainda um movimento nas redes de fãs que pedem mais atenção das grandes empresas para este mercado, incluindo as gravadoras coreanas. A ausência do Brasil na turnê do BTS neste ano gerou uma enxurrada de publicações com a hashtag #ComeToBrazilBTS, pedindo que o país seja incluído na segunda leva de datas e locais ainda a serem divulgados. O grupo, porém, marcou presença no Allianz Parque, em São Paulo, por dois dias em maio do ano passado. A gravação do show resultou inclusive em um DVD, lançado em 31 de dezembro.

 

De fato, o BTS é um fenômeno do K-pop, que movimenta consideravelmente a economia coreana. No entanto, a gravadora BigHit, responsável pelo grupo, assim como outras empresas de entretenimento, não se encontra entre os principais responsáveis pelo PIB. De acordo com dados econômicos do país, componentes eletrônicos e carros foram os principais geradores de superávits comerciais em 2019.

Enquanto a Samsung ficou em primeiro lugar, responsável por 13,1% do PIB, o BTS movimentou apenas 0,3%. Apesar da discrepância, o sucesso do grupo influencia outros fatores, como turismo e educação. A própria empresa de tecnologia inclusive fechou uma parceria com os artistas, ao apoiarem o projeto de arte deles, chamado Connect BTS. Além disso, o Banco de Desenvolvimento da Coreia viu seu investimento na BigHit crescer para R$ 777 milhões desde 2011, quando entrou em quatro fundos que valiam juntos R$ 97,9 milhões.