Férias escolares agravam fome de crianças no Rio e em MG

RIO DE JANEIRO, RJ, BELO HORIZONTE, MG, CURITIBA, PR, PORTO ALEGRE, RS, E SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Moradora no Morro da Cotia, no Complexo do Lins, na zona norte do Rio, a pedagoga Jussara Pereira da Silva, 36, sofreu nas férias escolares para suprir a alimentação dos filhos.

Sem o almoço diário no colégio, a salvação, em partes, para Wendel, 16, e Wesley, 10, que frequentam as redes estadual e municipal, veio de lanches --um na entrada, outro na saída-- oferecidos nos cursos de férias da Associação Beneficente Amar, no bairro vizinho Grajaú.

Como Jussara, outras famílias de baixa renda precisam buscar doações nas férias escolares para conseguir comida para as crianças. Algumas são obrigadas a pular refeições ou a mandar os filhos para casa de parentes para que eles se alimentem melhor.

Procuradas, as redes estaduais e municipais de Rio e Belo Horizonte argumentam que empregam os recursos com merenda apenas nos períodos letivos, em que os estudantes têm aulas presenciais.

"Hoje em dia, na mesa, é café ou [iogurte] Danone, ou [achocolatado] Nescau ou leite. Uma caixa de leite está R$ 9, em pó é R$ 15. Não tem condição", afirmou Jussara, que ainda amamenta a caçula, de dois meses.

Na última semana, Wendel e Wesley faltaram um dia ao curso de férias na ONG e ficaram sem dois lanches. "Por causa do tiroteio que teve mais cedo", conta a mãe.

A escola de Wesley não está entre as 37 escolhidas pela gestão do prefeito Eduardo Paes (PSD) para o Escola de Férias. O programa, que durou cinco dias neste mês, ofereceu dois lanches diários e cursos extracurriculares.

"Nas férias a gente não tem ajuda", reclama Elis Regina, 34, mãe de gêmeos de 15 anos. O colégio deles também não foi contemplado pelo programa.

"As escolas não dão nada pra gente quando as férias começam", diz Kelly Aline Duarte da Silva da Conceição, 33, mãe de quatro filhos matriculados em escolas públicas.

"Voltamos para os patamares dos anos 1990. É uma situação dramática. As famílias buscam algo desumano, osso e lixo, para se alimentar", disse Jucimeri Silveira, doutora em assistência social e docente da PUC do Paraná.

Além da fome, que atinge 33 milhões de brasileiros, o que sobra para a população carente são alimentos de baixíssima qualidade, disse. "Os efeitos da desigualdade, da pobreza e da insegurança alimentar são piores na população infanto-juvenil."

Em Minas, o servente de pedreiro Mauro Lúcio de Oliveira, 40, mandou a filha Anny Alice, 6, passar as férias na casa de uma tia.

Poderia ser só uma visita a parentes, mas os dias em outra casa representam uma economia para ele, que vive com a mulher e a filha no bairro Capitão Eduardo, um dos mais pobres de Belo Horizonte.

"Quando ela está na escola ficamos despreocupados com sua alimentação", disse o servente.

Em casa, porém, a variedade e qualidade caem drasticamente. "Comemos o que conseguimos comprar. Tem salsicha, ou ovo, ou linguiça duas vezes por semana no almoço. E o café da manhã é leite com biscoito", conta.

Vizinha de Oliveira, a cabeleireira Rosângela Maria Silva Costa, 26, diz que a alimentação na escola é fundamental e que o orçamento sempre aperta nas férias. A família por alguns dias tem que "pular" o café da manhã.

Paraná Já em Curitiba, Thainá Alves Vieira, 26, calcula que a merenda ofertada na escola para Valentina, 6, traz uma economia mensal de ao menos R$ 200 --para Lucca, 1, ela ainda espera uma vaga em creche.

"Ajuda porque eu sei que, ela indo pra creche come lá, pois às vezes não tem em casa", afirma ela, desempregada há um ano.

Durante as férias escolares, a situação ficou mais difícil. "Tive que pedir ajuda para a diretora da creche, pois estava sem nada dentro de casa."

O governo do Paraná e a Prefeitura de Curitiba confirmaram que fornecem merenda para os alunos só no período letivo. Na pandemia, as duas redes ofereceram alimentos, por causa do ensino remoto.

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