Fósseis dos dinossauros mais antigos da África são encontrados

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - O álbum de família dos dinossauros mais antigos do mundo, no qual, até hoje, predominam espécies do Brasil e da Argentina, acaba de ganhar novos integrantes: primos de primeiro grau africanos.

Com 230 milhões de anos, a mesma idade de seus parentes da América do Sul, os fósseis do Zimbábue são uma peça importante para entender como os dinos iniciaram sua jornada evolutiva.

Segundo o novo estudo sobre o tema, que está na edição desta semana da revista científica Nature, a gênese dos dinos foi marcada pela disposição muito diferente dos continentes naquela época.

Aliás, é mais adequado usar o singular: só havia então um único supercontinente, conhecido como Pangeia, o que significa que a África e a América do Sul formavam uma massa de terra contínua de oeste a leste, sem o oceano Atlântico no meio.

Além disso, e mais importante ainda, as áreas habitadas pelos primeiros dinossauros não eram tropicais e subtropicais, como acontece com o Zimbábue e o Rio Grande do Sul de hoje, onde os fósseis deles foram achados.

A disposição do supercontinente fazia com que, naquela época, essas regiões estivessem numa latitude de cerca de 50 graus no hemisfério Sul --ou seja, numa zona temperada, equivalente à posição de Londres ou Paris no hemisfério Norte do mundo moderno.

Na prática, tudo indica que os mais antigos dinossauros passaram vários milhões de anos confinados a essa faixa temperada de Pangeia, que se estendia também para o leste até a Índia.

E isso por um bom motivo: o clima do período Triássico, quando o grupo surgiu, havia transformado as regiões tropicais, mais próximas do Equador, em imensos desertos. Por isso, os dinos teriam ficado restritos a seu berço temperado no hemisfério Sul, bem mais úmido e aprazível.

O trabalho que está saindo na Nature é assinado por uma equipe internacional que inclui Christopher Griffin, da Universidade Virginia Tech (EUA), Darlington Munyikwa, do Museu de História Natural do Zimbábue, e o brasileiro Max Cardoso Langer, da USP de Ribeirão Preto, entre outros pesquisadores.

A equipe descreveu o mais antigo dos dinossauros africanos, que recebeu o nome científico Mbiresaurus raathi. O animal é um membro primitivo do grupo dos sauropodomorfos --o mesmo que acabaria abrigando, dezenas de milhões de anos mais tarde, os maiores animais terrestres de todos os tempos, como os célebres brontossauros.

O M. raathi, no entanto, media apenas dois metros de comprimento, pesando no máximo 30 kg. Com cerca de 90% de seu esqueleto preservado, o bicho era bípede e tinha dentes pequenos e serrilhados, com formato triangular, provavelmente apropriados para uma dieta herbívora.

Aliás, todas essas características lembram bastante os sauropodomorfos da velha guarda que rondavam o que um dia seria o interior gaúcho na mesma época, como o Saturnalia e o Pampadromaeus, ambos descritos por Langer e posicionados perto da nova espécie africana na árvore genealógica dos dinossauros.

A equipe também identificou fósseis fragmentários de um dinossauro carnívoro do grupo dos herrerassaurídeos, de porte bem maior, que poderia chegar a seis metros de comprimento.

"É mais um sinal de que é uma fauna de dinossauros muito parecida com a da América do Sul na mesma época, com um herbívoro de tamanho entre pequeno e médio e um carnívoro grande. É algo interessante de se constatar do ponto de vista ecológico", disse Langer à reportagem.

Segundo ele, não está claro se a diversificação inicial dos dinossauros nas regiões temperadas e úmidas do hemisfério Sul foi diretamente desencadeada por essas condições climáticas ou se, de início, foi apenas um acidente histórico da evolução do grupo.

Seja como for, tudo indica que os bichos só conseguiram atravessar os trópicos e chegar ao hemisfério Norte milhões de anos mais tarde, graças ao chamado "Evento Pluvial do Carniano", quando a umidade aumentou de forma global (o Carniano é o período em que o grupo aparece e se diversifica, entre 237 milhões de anos e 227 milhões de anos atrás).

"Depois esse evento cessa, acontece uma separação [entre as linhagens do hemisfério Norte e do hemisfério Sul], mas aí os bichos já estavam por lá", conclui o paleontólogo brasileiro.

A partir daí, o reinado dos dinossauros passa a se tornar cada vez mais globalizado.