Fabio Porchat revela que não consegue chorar: ‘Topei a hipnose com Pyong para tentar desatar isso’

Naiara Andrade
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Era uma vez, um estudante de Administração na plateia do “Programa do Jô” que arriscou escrever um bilhete para o apresentador, pedindo a chance de mostrar um número cômico e autoral na frente das câmeras. Era 2002, e, na ocasião, o carioca de 18 anos, que havia passado toda a infância e a adolescência em São Paulo, finalmente decidiu o que queria da vida. Voltou à sua terra natal, fez curso de Teatro, faculdade de Cinema, começou a atuar e foi convidado a integrar a turma de redatores do “Zorra, o total, aquele de que a gente tem mais vergonha, mas que foi fundamental no meu aprendizado”, como ele mesmo lembra. Sagrou-se humorista badalado, produtor e diretor respeitado, dublador querido pelas crianças... Talvez por ironia do destino e certamente por mérito próprio, 18 anos depois de sua primeira aparição na TV como anônimo, é a hora de Fabio Porchat expandir sua fama à frente de uma atração batizada com o seu nome, dando voz e vez a desconhecidos (e também a famosos) e suas boas histórias.

 

 

— Criei o formato a meu serviço. O que sei fazer de melhor? Improvisar, contar histórias e conversar com as pessoas. Isso é o programa — explica o apresentador, de 36 anos, satisfeitíssimo com o sucesso da primeira temporada do “Que história é essa, Porchat?”, no GNT: — Todo mundo que me encontra diz: “Ah, você precisa conhecer fulano!”. Sempre tem alguém com um bom relato para me indicar, o que eu acho maravilhoso! Nosso programa começou despretensioso, mas agora eu tenho um objetivo: virar referência no segmento. Quero que as pessoas insistam: “Você tem que contar essa história no Porchat!”.

 

Premiado como Melhor Programa de TV pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), no último 17 de fevereiro, “Que história é essa, Porchat?” reestreou na noite de terça-feira passada, disputando atenção com o paredão do “Big Brother Brasil 20”, na Globo. Horas antes de ir ao ar, o louro convocou a audiência pelo Twitter: “XENTÊ!!! Como todo mundo já sabe quem vai ser o eliminado do ‘BBB’ hoje (o Victor Hugo, claro), liga no @canalgnt 22h30 que voltaaaamos com um ‘Que história é essa, Porchat?’ inédito pra vocês!!!”. Para a aposta, certeira, Porchat provavelmente ouviu palpites alheios. É que quando o reality começou, em 21 de janeiro, ele estava morando em Los Angeles, nos EUA, para cursos de roteiro, improviso e inglês. Desde o seu retorno ao Brasil, no início deste mês, não parou para se inteirar da atração. Mas sabe que um dos concorrentes ao prêmio de R$ 1,5 milhão é velho conhecido seu:

— A cada dia, “cancelam” um no “Big Brother”, não dá para defender ninguém. Mas eu adoro Pyong. Ele já me hipnotizou de verdade, só que não conseguiu me fazer chorar, como eu o desafiei.

 

Se existe uma história curiosa que o próprio Porchat tem a compartilhar é essa: bem-humorado de carteirinha, ele tem uma enorme dificuldade para se emocionar.

— Eu não choro nunca! Não consigo, nem sei qual é a sensação. Travo a cara toda, mas não saem lágrimas. É algo racional. Topei a hipnose para tentar desatar isso. Pyong me fez esquecer meu nome, falar cantando, gargalhar à toa. Mas, quando tentava me induzir ao choro, o nó parava na garganta. No fim, falou: “Fabio, você criou algum bloqueio para impedir coisas tristes de virem à tona” — lembra, sobre o encontro com o descendente de coreanos em 2017: — Deve ser por isso que eu desenvolvi psoríase (doença de pele desencadeada por fator emocional).

Com os parentes todos vivos — à exceção de uma avó, que morreu aos 98 anos, “e, por isso, não foi um acontecimento tão inesperado assim, a ponto de eu me desesperar”—, Porchat conta que precisou se concentrar numa ocasião especial.

— No meu casamento (em novembro de 2017), minha mulher (a produtora Nataly Mega, de 32 anos) praticamente me obrigou a chorar. Disse que ficaria chateadíssima se não acontecesse. Aí, escorreu uma lágrima aqui, fiz uma caretinha e convenci — confessa ele, que renovou os votos matrimoniais de maneira divertida, no mês passado, em passagem por Las Vegas: — Nós nos casamos de novo, com cerimônia celebrada pelo sósia do Elvis Presley. Não sou religioso, não faria sentido ter um padre ou pastor celebrando meu casamento. Foi uma farra, tudo a ver com a gente! Esse Elvis era simpático, gordinho.

 

Declaradamente ateu, Porchat não se furta de pontuar frases com interjeições do tipo “Ai, meu Deus!”, “Minha Nossa Senhora!”, “Graças a Deus!”.

— O que é que tem? Quando solto um “caral**!”, não é porque estou pensando num pênis enorme. Se xingo com “por**!”, não evoco sêmen — rebate, fazendo graça.

Da mesma forma que não crê num Deus superior, Porchat responde “sou do signo ‘não acredito’” a quem jura estar diante de um típico virginiano quando o artista descreve sua fixação por organização.

— Se vejo uma bagunça, não consigo dormir em paz — garante ele, que ficou esfregando a tinta preta dos azulejos do banheiro enquanto tomava banho após a sessão de fotos para esta entrevista.

 

Depois de desafiar os curiosos a acertarem sua “condição astrológica”, ele revela:

— Sou Câncer, com ascendente em Escorpião e Lua em Peixes. Não acredito em nada disso, só sei para poder confrontar os outros. É assim também quando insistem que sou gay. Se eu for, jamais serei. Só pra não dar o gostinho de falarem “eu sabia!”. Vou fazer escondido a vida toda (risos).

O fato de não ter uma religião, Porchat garante, em nada influenciou na elaboração do mais recente e polêmico especial de Natal do Porta dos Fundos, em que o grupo de humoristas retrata Jesus Cristo como homossexual.

— Eu sou ateu, Gregório (Duvivier) também, Kibe (Antonio Tabet) e Evelyn (Castro) são católicos, Rafael Portugal é evangélico... E tem gente espírita na turma também. Não houve divergências nem debates entre a gente, porque o vídeo não incita a violência, não desrespeita a fé em si. Partimos de uma parábola e a humanizamos. Não passou pela cabeça de ninguém que seria um problema. Até porque fazemos especiais de Natal desde 2013 e nunca deu polêmica. Só agora, por que será? Por que desta vez se sentiram à vontade para jogar bombas lá na sede do Porta? O especial com que a gente ganhou o Emmy (“Se beber, não ceie”) mostrava um Jesus bêbado, mau-caráter, que torturava pessoas... Com isso aí está tudo bem? — questiona Porchat, afirmando que o atentado só fez fortalecer o grupo: — Dois dias depois das bombas, lançamos o vídeo “Amigo secreto de Jesus”. Continuamos fazendo do mesmo jeito. E lançaremos, em breve, um que mostra Jesus voltando com arminha na mão. Vamos ver se o pessoal vai gostar!

 

As provocações de cunho político são um prato cheio para o humorista. Ele se autodefine “de esquerda, mas isso não significa ser a favor de Lula ou do PT, ao contrário”. Ao mesmo tempo, afirma que “Bolsonaro não governa, ele se vinga. É nocivo, ruim, despreparado”.

— O que eu queria para 2022 é que as pessoas parassem com esses extremismos. Precisamos de um meio termo. Eu não aguento mais falar de Lula e ser atacado por bolsonaristas, e de Bolsonaro e ser atacado por lulistas. É um inferno! Não quero mais saber dos dois, não gosto deles por motivos diferentes. Um é corrupto; o outro, fascista. É muito triste a gente ficar relegado a essas duas escolhas terríveis — opina o fiel eleitor de Marina Silva (“Meu voto é sempre nela. Acho ótima, com percepção do social e do meio ambiente, coisas fundamentais para o Brasil”, argumenta), que daria um voto de confiança ao amigo Luciano Huck caso ele se candidatasse: — É um cara inteligente, superpreparado, com boa vontade. Mas ainda é cedo, estamos em 2020, precisamos primeiro tirar o Crivella (prefeito do Rio) do cargo nas urnas, depois a gente pensa quem entra na presidência.

Por conta do posicionamento assertivo, não é de se admirar que o apresentador seja alvo de constantes ataques virtuais. Com frequência, os haters se referem a ele como “Porchato” nas redes sociais.

— Olha, eu até que sou um pouco, sim... Sou o chato da organização. Lá em casa, é minha mulher quem deixa a toalha molhada em cima da cama. E eu penduro, sem reclamação. É o jeito dela, está bom... A gente não briga por nada, tenho muita sorte de ter encontrado a Nataly na vida! — comemora, rememorando outras situações em que é ou era cri-cri: — Quando criança, eu era hiperativo, não aguentava brincar sozinho. Então, infernizava a vida da minha irmã pra ela brincar comigo de Comandos em Ação. Na adolescência, eu era “nerdão” e acordava de mau humor. Não falava com minha mãe, não tomava café da manhã. Se fosse aniversário dela, eu não dava os parabéns às 7h, só ao meio-dia, quando ela ia me buscar na escola. Já ela acordava cantando, rindo... Aquilo me dava um ódio! Hoje em dia, olha só, eu me tornei essa pessoa. Dou risada lendo o jornal de manhã!

O jeitão boa-praça só o aproxima cada vez mais de seu público. Diferentemente do que acontece com muito humorista, o louro não costuma decepcionar os fãs que o conhecem pessoalmente:

— Eu sou o mesmo brincalhão da TV na rodoviária, no metrô, no aeroporto, nas ruas. João Vicente (de Castro, ator e apresentador do “Papo de segunda”, no GNT, ao lado de Porchat) implica comigo porque fico puxando papo com desconhecidos. Se não falo nada, estranham. Noutro dia, eu estava me servindo no bufê, e a pessoa já chegou assim: “Nossa, que sério!”. “É que eu vou comer brócolis”, respondi. Não uso boné, óculos escuros, nada disso para me disfarçar. Adoro me aproximar, contar e ouvir boas histórias. Agora, ainda mais!

 

 

Quem conta um conto aumenta um ponto?

“Sempre, se quiser que o conto fique melhor”.

História pra boi dormir

“Mamadeira de piro**!”

Conta outra!

“Que o Brasil foi comunista...”.

Um conto de fadas

“O meu relacionamento”.

Vou te contar...

“Das minhas viagens. Amo falar das minhas visitas à África! Fico duas horas detalhando”.

Me conte um segredo

“Eu não curto ter animal de estimação... Não tenho afinidade com eles, e eles também não gostam de mim. Bicho da África, eu amo! Girafa, zebra, leopardo, crocodilo... Já de periquito, papagaio, gato, cachorro, peixe, tartaruga... Eu não acho a menor graça. A gato, eu ainda por cima sou alérgico! Eles dão trabalho, róem suas coisas, precisam de atenção... Prefiro cinema”.

Final feliz

“O ‘Que história é essa, Porchat?’. Minha ideia funcionou na prática. As pessoas compraram, curtiram”.