Entrevista de Wajngarten lembra que não se deixa aliado ferido na estrada

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Brazil's Chief of the Secretariat of Social Communication (SECOM) Fabio Wajngarten looks on during a ceremony with country singers at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil January 29, 2020. REUTERS/Adriano Machado
O ex-chefe da Secom Fabio Wajngarten. Foto: Adriano Machado/Reuters

A incompetência e ineficiência do governo travaram um acordo para a aquisição de vacinas que poderiam dar início, já no fim de 2020, a um amplo programa de imunização do país.

Quem faz a acusação não é nenhum líder da oposição, mas um até outro dia fiel aliado de Jair Bolsonaro instalado em um posto-chave de sua administração.

A entrevista publicada na quinta-feira 22 pela revista Veja com o publicitário Fabio Wajngarten, ex-secretário da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência), tem potencial para levar um rastilho de pólvora até o Planalto às vésperas da CPI da Pandemia.

Na entrevista, os leitores ficam sabendo que coube ao responsável pela comunicação do presidente negociar com a farmacêutica Pfizer a compra de 70 milhões de doses de vacina. Uma compra frustrada pela inapetência, segundo o ex-secretário, de quem comandava o Ministério da Saúde, hoje alvo principal da comissão parlamentar.

“Milhares de mortes poderiam ter sido evitadas”, diz o ex-chefe da Secom, que poderá explicar melhor a história em seu depoimento aos senadores.

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Como quem alerta que não se deixa um ex-aliado ferido na estrada, Wajngarten conta na entrevista que guarda e-mails, registros telefônicos, cópias de minutas de contrato e testemunhas que podem referendar o seu relato. Segundo o publicitário, Bolsonaro está cercado de pessoas que o municiam com informações erradas e distorcidas. E isso explica o caos sanitário do país.

Wajngarten foi demitido do cargo há pouco mais de um mês. Na época, auxiliares do presidente chegaram a divulgar a versão de que ele se movimentava no Planalto por “interesses pessoais”. Isso, segundo ele, foi a gota d’água para deixar o governo.

O ex-secretário parece hoje em busca de outra vacina: a que funcione contra um possível indiciamento pela ausência de campanhas em massa a respeito da vacinação. Ele antecipa sua defesa: “como eu ia fazer campanha se não tinha vacina? Se fizesse, seria propaganda enganosa”.

A culpa pelo lapso tem endereço, segundo ele.

Wajngarten diz ter lutado muito para que a melhor vacina chegasse aos brasileiros no menor tempo possível. O governo, como se sabe, desdenhou os riscos de uma segunda onda, manteve, até meados de janeiro, um discurso que colocava em dúvida a eficácia da vacina desenvolvida em São Paulo (hoje responsável por 80% das imunizações do país) e apostou na imunidade de rebanho, estimulando as pessoas a saírem às ruas e evitarem medidas de isolamento social e o uso de máscaras. A tese da imunidade de rebanho, juntamente com a ideia de que a pandemia estava no finalzinho e os riscos de uma segunda onda de contaminações eram “conversinha”, caiu por terra com a nova variante, sintoma antes do descontrole do que da “vacina natural” vendida pelo presidente.

Só então, com a pressão da sociedade, em particular de empresários graúdos, e com o risco de investigação sobre os responsáveis por ações e omissões (como a relacionada à compra de respiradores em Manaus quando o sistema estava prestes a colapsar), Bolsonaro vestiu o figurino de defensor da vacina.

A entrevista de Wajngarten antecipa o que vem por aí na CPI. Ao eximir o presidente da culpa, mas mostrar que tem registros e testemunhas de sua passagem no governo, o ex-aliado mostra que essa marca de giz no chão pode ser alterada quando os depoimentos ganharem visibilidade nas transmissões e noticiários da TV. De TV ele entende.

Mesmo sem citar nomes, o ex-secretário deixa claro que a culpa, se há, é de Eduardo Pazuello e sua equipe durante o pior momento da pandemia.

Pazuello pode não entender nada de Saúde, mas certamente não vai deixar barato. Em sua despedida do ministério, sem que nada lhe fosse perguntado, ele disse que no governo acontece uma certa “operação de grana para fins políticos” e admitiu não ter conseguido manter uma gestão 100% técnica.

Ele descreveu uma rotina marcada pela pressão de lobistas, operadores, representantes de empresas e de partidos políticos. E uma romaria ao seu gabinete em busca de “pixulé”.

Citou também uma certa nota técnica para beneficiar a distribuição de um certo medicamento com base em uma fake news fabricada sob medida para aprovação do presidente —aqui também descrito como uma figura manipulada, enganada e eximida de culpa.

Um dos primeiros trabalhos dos senadores da comissão é juntar as duas falas e entender quem é quem. Se elas se chocarem, não deve ser descartada a possibilidade de haver uma acareação.

É mais um incêndio que promete fazer estrago a um governo engajado em esconder a fumaça das queimadas nada alegóricas que tentou minimizar em sua participação na Cúpula sobre o Clima.

Sabendo do risco, bolsonaristas já correm para as redes para as redes na tentativa de desacreditar o ex-aliado. Foi o que fez o ex-marqueteiro de Pazuello, Markinho Show, ao acusar Wajngarten no Twitter de emitir ordens para diminuir os valores de mídia para a Rede Globo e proibir o ministro da Saúde de falar com eles. É o que acontece quando incendiários atuam para apagar, em público, os focos de tensão.

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