Fábrica de paranoia bolsonarista ataca urnas e números da covid

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BRASILIA, BRAZIL - JUNE 08: President of Brazil Jair Bolsonaro returns to his car after speaking with supporters at Alvorada Palace on June 8, 2021 in Brasília, Brazil. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Foto: Andressa Anholete (Getty Images)

Toda vez que entro em um aeroporto me vem à cabeça um velho refrão: “Só acredito no semáforo, só acredito no avião”.

A música fala de confiança em um tempo de descrença. Repete o descrédito do elemento humano (“eu não creio em vocês”) enquanto se agarra na vigilância precisa da máquina.

Antes de decolar ou atravessar o sinal, é preciso acreditar na boa fé de quem programou a parafernália até atingir a sincronia.

Não posso embarcar se imaginar que alguém deixou de conferir a validade dos pneus ou o nível do combustível porque acordou com azia e foi embora mais cedo pra casa jogar videogame.

Ou que, numa central de controle, longe da minha vista, algum engenheiro de tráfego bancou o Homer Simpsons e dormiu com o café sobre o teclado enquanto uma cidade se arrebentava na pororoca cromática dos cruzamentos.

A confiança de que alguém que não vejo está a postos para orientar minhas incursões por ruas ou espaços aéreos me impulsiona a sair de casa e não passar a vida debaixo da cama à espera do fim do mundo. Foi mais ou menos isso o que diferenciou a espécie humana de seus contemporâneos na caverna.

A capacidade de contar história, forjar símbolos, deuses em comum e, assim, criar alianças fez com que pequenos grupos de homo sapiens fechassem acordos e se tornassem multidões. Essas multidões não só sobreviveram à extinção como promoveram os maiores empreendimentos dessa Terra. Do cerco aos mastodontes aos castelos e palácios, passando por pontes, automóveis, computadores, microprocessadores, aviões. Acreditar na capacidade humana de botar um avião de pé é colocar de pé a nossa crença na humanidade. 

Não é exagero dizer que só chegamos até onde chegamos porque a confiança se tornou a nossa moeda de troca.

É nesse elemento fundador que baseamos nossas trocas. Do comércio às relações afetivas, familiares e políticas.

Se há uma contradição exposta nesses tempos em que forjamos carros voadores é que nunca tivemos tanto acesso a tanta ciência e tecnologia, mas também nunca fomos tão desconfiados em relação a quem produz e manuseia tantas máquinas.

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Uma conhecida influencer resumiu o impasse certa vez: “Hoje tudo é editável. Se você é influenciador ou não, é a sua narrativa, e você faz à sua maneira. O mundo da internet gerou um mundo de desconfiança.”

Uma sociedade desconfiada é uma sociedade amedrontada. Amedrontada e presa na caverna, como os neanderthalensis, que preferiram morrer isolados a expandir o mundo desenhado pelos primos sapiens.

No Mito da Caverna, Sócrates pede para Glauco imaginar como os prisioneiros que jamais saíram de lá veriam o mundo se vivessem de mãos amarradas na parede. A realidade seria sempre deformada entre sombras e luzes. Ninguém jamais sairia de lá. Se saísse, em vez de maconha plantada por adversários em palácios, como afirma o presidente, eles veriam o quanto cabe de cocaína em um avião oficial.

Conheço muitos apoiadores de Jair Bolsonaro, o maior influencer em atividade do país. Cada um tem seu motivo para manter o apoio ao seu desastroso governo. Todos que ainda confiam nele ainda o chamam de mito. Faz sentido. O apoio a Bolsonaro é uma profissão de fé.

A ironia é que, para além daquele mito em sua caverna, tudo o que move aquelas pessoas é a desconfiança.

Eles desconfiam da vacina, mas não só. Desconfiam dos interesses econômicos por trás da vacina. Juram que existe um plano diabólico sino-comunista para nos trancar em casa para vender imunizante, dominar o mundo e de quebra implantar chips em nossas cabeças maltratadas pela lógica.

Desconfiam do real formato da terra, das intenções escusas do jornalismo profissional (minha lenda favorita é que só criticamos o que temos de criticar porque perdemos a boquinha com palácios, piscina e mordomia oferecidos por governos anteriores), do sistema de voto eletrônico, dos resultados da rodada do Campeonato Brasileiro, da contagem de mortos por covid e, claro, do sistema político da nova República.

Bolsonaro, que se vende como homem de fé, não só se beneficia desse estado permanente de descrença como o alimenta com o botijão da paranoia. Sabe que, se saírem das cavernas e das redes, seus habitantes verão as silhuetas reais dos conceitos fantasmagóricos pintados à luz e sombra.

Em dias de sol, é preciso anunciar a todo instante o fim do mundo, com raios e trovoadas, para convencer alguém a permanecer nas sombras.

Foi o que fez Bolsonaro, na quarta-feira 9, ao discursar em Goiás contra “fraudes” do sistema eleitoral, mentir sobre uma suposta fase experimental das vacinas e insistir na lenda de que o tratamento precoce evitaria as milhares de mortes por covid-19.

O presidente disse tudo isso após inventar que o Tribunal de Contas da União tinha um relatório afirmando que 50% das mortes por covid não foi por covid. A suposta “farsa” tinha como objetivo apenas conseguir dinheiro, já que o critério para envio de recursos federais às localidades eram as notificações de covid. A conversa lembrou a lenda, compartilhada até por deputada da tropa de choque, do primo morto ao trocar um pneu que explodiu e cujo óbito foi registrado como covid.

Nessa o gabinete do ódio se superou.

No caso das mortes supostamente inflacionadas, Bolsonaro foi solenemente desmentido pelo TCU, e um auditor que estranhamente havia injetado informações distorcidas em um documento do tribunal pouco antes da fala foi afastado. Filho de um amigo militar do presidente, Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques será agora investigado pela Polícia Federal.

Se o mundo editável da tecnologia virou o paraíso da paranóia (alimentada por quem fatura com a insegurança para vender a salvação fajuta), ele também permite reconhecer os metadados que levam às pegadas dos fraudadores reais.

Em tempo. De Belo Horizonte, o amigo Pedro Munhoz conta que a deputada estadual Andréia de Jesus foi atacada por colegas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais ao pedir um minuto de silêncio pela morte de Kehtlen Romeu, mulher negra que morreu grávida em meio ao tiroteio de mais uma operação desastrosa da polícia no Rio. Difícil não se indignar com a história e não se doer pelos familiares e amigos de mais uma vítima da estupidez, certo? Errado. Pois um deputado, falando em nome dos “cidadãos de bem”, os que supostamente apoiam a violência do Estado que mata inocentes e não garante segurança a ninguém, disse que a colega precisava estudar e que os jovens mortos nessa guerra, quase todos negros, eram o futuro apenas de uma “pátria criminosa”.

Na ânsia dos “homens de bem” em estimular a paranoia e criar esse país paralelo, editado e forjado na desonestidade intelectual e moral, o destino da bala, que nunca é perdida, confere a mais triste materialidade aos corpos do mundo real.

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