Fabrício Queiroz fala em tom de ameaça ao cobrar apoio de Bolsonaro para sua campanha

Fabricio Queiroz, former advisor and former driver of Senator Flavio Bolsonaro, is seen next to a police officer as he leaves the Homicide and Personnel Protection Department of the Civil Police after arrasting him in Sao Paulo, Brazil June 18, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
Fabricio Queiroz é preso e levado para prestar depoimento em 2020. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Fabrício Queiroz quer ser deputado e quer o apoio da família presidencial.

Pivô no escândalo das rachadinhas, o ex-assessor do hoje senador Flávio Bolsonaro disse em uma entrevista ao podcast Mais ou Menos que é “absurda” a hipótese de não contar com o esforço dos antigos empregadores em elegê-lo.

“Eles não são meus inimigos e eu acredito que eles também não me tem como inimigos. Eu não sou bandido, entendeu?”, disse o ex-PM acusado de envolvimento com a milícia.

Um dos seus parceiros era Adriano da Nóbrega, suposto chefe do Escritório do Crime morto em uma ação policial na Bahia. Nóbrega empregava a mãe e a companheira no gabinete do primogênito do atual presidente quando ele era deputado estadual no Rio.

Queiroz, como se sabe, é suspeito de coordenar um esquema de contratação de funcionários fantasmas e recolher parte dos salários.

No início do governo do ex-capitão, quando havia sido mandado para o ostracismo diante dos saques suspeitos, Queiroz já havia alertado em uma mensagem que o Ministério Público tinha uma “pica” do tamanho de um cometa para enterrar no grupo. Depois disso passou a receber apoio em público de Bolsonaro e sua família, a ponto de dar o ar da graça em manifestações de rua em apoio ao presidente. Ali distribuía autógrafos, posava de subcelebridade e dava início à pré-campanha.

Queiroz chegou a desaparecer do radar da polícia nos primeiros meses de governo. Estava abrigado, por coincidência, na casa do advogado da família presidencial, em Atibaia (SP). Preso na ocasião, ele ainda hoje garante que não conhece o dono da casa, que diz ter sido oferecida a ele por um amigo em comum. Ganha um estágio na empresa responsável por instalar Gatonet em Rio das Pedras quem descobrir quem é o amigo.

Bolsonaro pode até acreditar em cloroquina, mas não nasceu ontem e sabe que não é o ex-faz-tudo quem não tem chance de se eleger caso ele apareça em seus santinhos durante a campanha; é ele quem corre o risco de afundar a sua própria candidatura à reeleição.

Queiroz pode fazer sucesso em motociatas e cercadinho, mas Bolsonaro precisa agora da boa vontade dos eleitores moderados para conseguir um novo mandato. O currículo do ex-PM, digamos, não é exatamente apresentável à mesa de jantar.

Queiroz sabe que corre o risco de ser ignorado e já mostrou seu ciúme com o lançamento de pré-candidaturas endossadas pelo ex-chefe, como a do PM Max Guilherme Machado de Moura, segurança e assessor do presidente.

Na entrevista, Queiroz não só mostrou incômodo pela preferência como aproveitou para contar causos relacionados a amigos e vizinhos de Bolsonaro em um condomínio na Barra da Tijuca, como o policial militar reformado Ronie Lessa, acusado de matar Marielle Franco e de envolvimento com o contraventores.

O ex-assessor disse que, se visse Lessa na rua, correria para tirar uma foto dele ao lado do presidente.

As mensagens contidas na entrevista têm cheiro, cor e jeito de um grande recado. Daqueles que vem com o asterisco “não vou avisar de novo”. Faltou dizer que não quer ver amanhã nenhum integrante do clã acordar com uma cabeça de cavalo na cama.

Bolsonaro precisa encontrar um modo diplomático, que não é a sua, para acalmar os instintos mais primitivos do amigo fustigado sem prejudicar a própria campanha. Vai ser como consertar relógio com luva de boxe. Boa sorte aos envolvidos.

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