Facção fundada por Celsinho da Vila Vintém perde integrantes e se isola no Rio

Carolina Heringer
Celsinho durante audiência na Justiça

A perda do domínio da Favela da Rocinha, em setembro de 2017, foi crucial para o esfacelamento de uma das três facções criminosas do estado, a Amigos dos Amigos (ADA), criada há 25 anos. Desde o episódio, a quadrilha vem perdendo integrantes e comunidades, ficando cada vez mais isolada no mapa da criminalidade do estado. No município do Rio, a Vila Vintém, em Padre Miguel, é a única favela de maior expressão na qual a facção continua dando as cartas.

Chefe do tráfico no local, Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém, preso desde 2002, é um dos fundadores da quadrilha. No ano passado, ele chegou a receber propostas para passar a integrar as outras duas facções criminosas atuantes no Rio, mas decidiu se manter no grupo que ajudou a criar.

Os traficantes da maior parte das favelas que a quadrilha dominava — como São Carlos, no Estácio, Morro dos Macacos, em Vila Isabel e Complexo da Pedreira, em Costa Barros — passaram a integrar a segunda facção criminosa surgida no Rio. Em um primeiro momento, houve uma aproximação entre os dois grupos, que ensaiaram uma união, mas o movimento não vingou. Pivô da guerra, Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, perdeu a Rocinha e migrou para a outra quadrilha.

Em alguns casos, no entanto, os traficantes de comunidades que eram aliadas a Celsinho passaram a ser comandados pela maior facção do estado. É o caso do Morro do Sabão, em São Gonçalo. As favelas do município foram as últimas a deixarem a quadrilha de Celso Luís, há dois meses. Na ocasião, cerca de 80 presos pediram para serem transferidos de cadeia.

De acordo com fontes ouvidas pelo EXTRA, o enfraquecimento da facção que Celsinho ajudou a fundar, com a perda do domínio da Rocinha, foi determinante para a debandada de seus integrantes, que temeram ficar sem apoio em confrontos com outras quadrilhas. Com isso, buscaram grupos mais bem estruturados.

Em setembro de 2017, a Rocinha, em São Conrado, passou a ser comandada por Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, ex-aliado de Nem, que migrou para a maior facção criminosa do Rio.

Chefe tomou um golpe

A debandada de traficantes da quadrilha de Celsinho fez a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) reorganizar a divisão de presos no Complexo de Gericinó, que são separados por facções. A cadeia que atualmente abriga o maior número de comparsas do traficante no estado é a Lemos de Brito (Bangu 6), que tem cerca de mil presos. É lá que está o chefe da Vila Vintém. Antes das mudanças, o presídio Jonas Lopes de Carvalho (Bangu 4) concentrava os detentos da facção.

Hoje, em Bangu 4, estão presos da facção para a qual a maioria dos integrantes da quadrilha de Celso migraram. Há mais de 3,3 mil presos na unidade. Além da Vila Vintém, o grupo de Celsinho ainda conta com uma importante base em Macaé, na Região dos Lagos, onde domina quase a totalidade das favelas do município. Lá, no entanto, o chefe do tráfico, Sandro Luiz de Paula Amorim, o Lindinho ou Peixe, tomou um “golpe de estado”. O criminoso, que fazia parte da quadrilha de Celso, decidiu migrar para a segunda facção criada no Rio. Peixe está preso em unidade federal fora do estado. Seus comparsas que estão soltos decidiram não acompanhá-lo: não mudaram de facção e assumiram o controle da favela.

Situação semelhante ocorreu no Complexo da Pedreira, que tem como dono Edmílson Ferreira dos Santos, o Sassá. O criminoso, que também está preso, migrou para a maior facção criminosa do Rio, mas não foi acompanhado pelos comparsas e acabou perdendo a comunidade.

A história da facção de Celsinho

A facção de Celsinho foi criada em 1994, após a morte do traficante Orlando da Conceição, o Orlando Jogador. Ele foi assassinado em uma emboscada por Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê.  Todos faziam parte da maior quadrilha de tráfico de drogas do Rio, fundada dentro do presídio de Ilha Grande. Uê se uniu a traficantes como Celsinho e a Paulo César Silva dos Santos, o Linho, para criar o novo grupo. 

Uê foi morto durante uma rebelião em 2002 no presídio Laércio da Costa Pellegrino, conhecido como Bangu 1.  Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, foi condenado por ter comandando o assassinato de Uê em represália à morte de Orlando Jogador.  Na rebelião, Celsinho estava em Bangu 1, mas foi poupado após prometer que trocaria de facção. O chefe da Vila Vintém afirmou que voltaria a fazer parte da quadrilha de Beira-Mar, mas não cumpriu com a promessa. 

Celsinho já foi condenado a 24 anos de prisão. De acordo com dados do site da Vara de Execuções Penais do Rio, o traficante já cumpriu um total de 21 anos e 10 meses da pena, somando todos os períodos em que já ficou preso. De acordo com esses cálculos, sua pena termina em 2021.  Apesar de já possui tempo suficiente para conseguir progressão de regime - ele atualmente está no fechado -, Celsinho responde a um processo por envolvimento com a guerra na favela da Rocinha em setembro de 2017.  Ele é acusado de ter enviado comparsas para reforçar o bando de Nem, que disputava o controle da favela com Rogério 157. 

O chefe da Vila Vintém teve a prisão preventiva decretada nesse processo. O advogado dele, Max Araújo Marques, nega participação do cliente no episódio. Segundo ele, as provas produzidas no processo deixaram evidente que não há nenhum indício de que Celsinho tenha participado da invasão. Segundo Max, ficou claro na ação que Celso não possui mais ingerência na comunidade, tendo sido denunciado pela última vez como integrante do tráfico na favela em 2012. De acordo com o advogado, Celsinho foi absolvido no processo. Na nota, o advogado ressalta, ainda, que a Vila Vintém foi a única entre as comunidades investigadas no processo que não mudou de facção.