FACTCHECK: Quem já teve covid-19 pode se beneficiar da vacina, ao contrário do que afirmou Bolsonaro

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Em evento em Porto Seguro (BA) nesta quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro chamou de "imbecil" e "idiota" quem afirma que ele está dando um mau exemplo ao dizer que não pretende tomar a vacina contra a covid-19.

"Eu já tive o vírus, eu já tenho anticorpos, para que tomar vacina de novo?", questionou o presidente. No entanto, especialistas indicaram ao AFP Checamos que mesmo quem já contraiu o novo coronavírus pode se beneficiar da vacina. Além disso, casos de reinfecção estão sendo registrados em todo o mundo.

O presidente testou positivo para a doença em 7 de julho deste ano. Na época, afirmou se sentir "perfeitamente bem" e estar apenas com sintomas leves, e testou negativo no dia 25.

Desde o início da pandemia, o Brasil registrou mais de 184 mil mortes pelo novo coronavírus e, agora, dá os primeiros passos para iniciar a vacinação. Em comentários sobre o imunizante no evento em Porto Seguro, Bolsonaro deu declarações enganosas.

"Alguns falam que estou dando péssimo exemplo. O imbecil, o idiota que está dizendo que eu dou péssimo exemplo, eu já tive o vírus, eu já tenho anticorpos, para que tomar vacina de novo?", disse o presidente.

Mas não é verdade que pessoas que já tiveram o novo coronavírus não precisam se vacinar, explicaram especialistas ao AFP Checamos.

Quando uma pessoa contrai a covid-19, ela costuma desenvolver a chamada imunidade natural, afirmou Flávio da Fonseca, virologista do Centro de Tecnologia em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). No entanto, "ainda não há uma precisão relacionada ao tempo de duração dessa imunidade".

Há, ainda, casos de pessoas que contraem o novo coronavírus e não desenvolvem proteção contra a doença, indicou Fonseca.

"Isso varia muito de pessoa para pessoa. [...] Eu posso ter condições clínicas que você não tem, ou vice-versa", afirmou o especialista.

Em dezembro, foram confirmados os dois primeiros casos de reinfecção de covid-19 no país. Outros já foram registrados ao menos na Bélgica, Holanda, Equador, Hong Kong e Estados Unidos.

"A reinfecção é uma prova cabal de que a gente precisa vacinar mesmo quem teve covid-19. Não bastasse isso, a resposta imune ainda é grandemente desconhecida. A gente não sabe se ela vai durar, quanto tempo dura, nem se é uma resposta completamente protetora", indicou ao AFP Checamos Evaldo Stanislau, médico infectologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Fonseca citou um dos motivos que podem comprometer essa imunidade natural:

"O coronavírus é um vírus agressivo e que tem vários genes, e dentre esses genes, vários que ajudam o vírus a se esconder do nosso sistema imunológico. [...] Então a resposta imune gerada pela infecção é afetada pelas estratégias do vírus", explicou.

Isso não ocorre com a imunidade gerada pela vacinação. "Quando você é imunizado com uma vacina, você não tem no corpo o componente vírus. O que você tem são outras moléculas que mimetizam uma infecção viral. [...] Então não existem esses componentes que interferem na nossa resposta imune", afirmou Fonseca.

"É absolutamente esperado que a resposta vacinal seja diferente da resposta à infecção natural, ela pode ser, inclusive, mais longeva do que a imunidade gerada pela infecção natural", apontou o virologista.

De maneira semelhante, Stanislau explicou que, por contar com uma preparação diferenciada, a imunidade gerada pela vacina é muito mais específica. "Pelo menos nos dados in vitro que a gente tem visto, ela assegura uma produção de anticorpos, e uma produção de resposta imune muito rigorosa, provavelmente mais rigorosa do que a infecção natural no caso da covid-19", disse.

Questionado se pessoas que já contraíram a covid-19 também se beneficiariam da imunidade gerada pela vacinação, Stanislau foi contundente: "Sem dúvida nenhuma. Isso é uma verdade absoluta".

- Vacina e quimioterapia -

"Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina. [...] Se o cara não quiser ser tratado, que não seja. Não quero fazer quimioterapia e vou morrer, problema é meu", disse Bolsonaro.

A comparação feita pelo presidente entre o tratamento de câncer e a vacinação contra covid-19 também foi considerada enganosa por especialistas.

"É ridícula. É absolutamente irresponsável", opinou Flávio da Fonseca. As pessoas que não se vacinam "continuam sendo reservatórios de vírus, porque elas permanecem susceptíveis, e com isso você não consegue alcançar as taxas de cobertura vacinal necessárias para que se elimine completamente a circulação viral", disse o virologista.

Stanislau concordou: "Quando a gente faz uma campanha de vacinação na comunidade, a gente tem como meta o indivíduo e o todo. O indivíduo, ok, tomou a vacina ele está protegido. Mas quanto mais indivíduos [...] se vacinam, mais a gente protege o todo”. “Quando o presidente diz uma coisa como essas, ele negligencia esse conceito que é primário em imunização", concluiu.

O câncer e a covid-19 são, ainda, doenças muito distintas, sendo a primeira causada por "células do próprio corpo que se tornaram rebeldes", explicam especialistas, e a última por um vírus. Em checagem sobre comparação entre a vacina contra o novo coronavírus e os estudos em busca de uma vacina contra o câncer, o professor Jean-Daniel Lelièvre, chefe do departamento de Imunologia Clínica do Hospital Universitário Henri Mondor, considerou "estúpido" comparar "doenças tão diferentes".

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