Em 2002, Bolsonaro diria que Tim Lopes morreu por ser 'mal visto' por traficantes

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People hold signs during a vigil following the disappearance of British journalist Dom Phillips and indigenous expert Bruno Pereira, who went missing while reporting in a remote and lawless part of the Amazon rainforest near the border with Peru, in front of the headquarters of Brazil's National Indian Foundation (FUNAI), in Brasilia, Brazil June 13, 2022. REUTERS/Adriano Machado
Manifestação em homenagem a Dom Phillips e Bruno Pereira em frente à Funai, em Brasilia. Foto: Adriano Machado/Reuters

Em julho de 2002, após o assassinato de Tim Lopes, o então presidente Fernando Henrique Cardoso garantiu a participação do governo federal em uma ação conjunta com forças estaduais e municipais do Rio de Janeiro para a revitalização do complexo do Alemão, local onde o jornalista foi assassinado por traficantes dias antes. Ele se prontificou a visitar a favela onde o repórter investigativo da TV Globo foi capturado depois de se reunir com representantes da Comissão Tim Lopes, da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio.

O crime, disse FHC com todas as letras, causava "indignação a todos os brasileiros”.

Duas décadas se passaram desde então. Tim Lopes não era o primeiro nem foi o último jornalista morto em pleno exercício da profissão. O local onde ele desapareceu está longe de ser um oásis de segurança –como prova uma incursão recente da polícia que deixou 26 mortos na Vila Cruzeiro.

Mas há 20 anos era simplesmente impossível imaginar que uma autoridade dissesse que Tim Lopes morreu porque era “mal visto” na região. Afinal de contas, pegava mal escrever matéria contra traficantes, não é mesmo?

Ou que ele não deveria entrar “numa área completamente inóspita” sozinho, sem segurança. Foi aí que aconteceu o problema. Era ou não pedir para morrer?

Naquela região ninguém gostava dele e era preciso ter atenção mais que redobrada para consigo próprio antes de fazer uma “excursão” pela favela, onde “tem tudo que se possa imaginar”.

Ninguém ouviu na época nem presidente nem governador nem prefeito dizer que era temerário andar naquela região sem estar devidamente preparado fisicamente ou com armamento devidamente autorizado pelo Estado. E que, se tivesse tudo isso, talvez Tim Lopes não teria morrido em uma “aventura não recomendável” pelas ruas de um país onde o governo terceiriza a segurança para a própria vítima.

Já pensou alguém dizer isso em voz alta?

Pois foi exatamente o que fez Jair Bolsonaro ao comentar novamente o desaparecimento do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira na região do Vale do Javari, no Amazonas.

Bolsonaro insiste em culpar as vítimas pelo provável destino trágico em uma região onde “tem tudo que possa imaginar” justamente em razão do desmonte dos órgãos de fiscalização e do apoio oficial e reiterado a atividades como garimpo em terras protegidas.

O mínimo que se poderia esperar de um chefe de Estado à altura do cargo diante do provável assassinato de um indigenista e um cidadão britânico em seu país era uma resposta firme contra quem praticou o ato – para ao menos seus eleitores sentissem que ele fala sério quando defende que a liberdade tem mais valor que a própria vida.

Ninguém dá razão ao assassino quando um cidadão "mal visto" é assassinado por andar em área “inóspita” das grandes cidades. Ninguém chama a vítima de “aventureiro”. Nem diz que sua segurança é por sua conta e risco.

Mas Bolsonaro não só diz como repete.

Diz e repete porque não quer comprar briga com quem ameaça e mata ativistas e jornalistas profissionais. Não quer porque assumiu um lado – e ele não é nem o da verdade revelada pelos fatos nem da defesa do meio ambiente.

Não faz muito, seria completamente inverossímil ouvir de um chefe de Estado o que Bolsonaro tem dito a respeito de Dom Phillips e Bruno Pereira desde eles desapareceram.

A fala mais recente acontece no mesmo dia em que o premier britânico Boris Johson declarou estar “profundamente preocupado” com o desaparecimento de seu conterrâneo em terras brasileiras.

A resposta de Bolsonaro à preocupação de Johnson e dos familiares de Phillips e Pereira talvez nem choque pelo absurdo. Quem o acompanha minimamente sabe que esta é só uma entre tantas que já declarou e ainda vai declarar enquanto tiver palanque.

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