Falas sobre nazismo derrubam Monark e Adrilles. E Kim Kataguiri?

Deputy Kim Kataguiri pose for a picture after an interview with AFP at the Democratic Party headquarters in Brasilia, on July 14, 2021. - Kataguiri contributed to the downfall of Dilma Rousseff in 2016 and the victory of Jair Bolsonaro in 2018. But now he assures that the far-right president
O deputado Kim Kataguiri. Foto: Sergio Lima/AFP (via Getty Images)

Em um mesmo dia, o Brasil descobriu que o Monark, apelido do apresentador de um dos mais populares podcasts do país, é a favor da institucionalização, via partido político, do nazismo em terras brasileiras. E a ideia tinha o endosso do quarto deputado mais votado de São Paulo, Kim Kataguiri (Podemos) —para quem a Alemanha errou ao criminalizar um movimento de cunho racista que perseguiu, violentou e matou milhões de pessoas antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

Quem acompanhava a repercussão ainda tentava entender em que momento passou a ser aceitável discutir a existência ou não do nazismo em 2022 quando o ex-BBB e dublê de comentarista político Adrilles Jorge achou que seria uma boa ideia, baita sacada mesmo, sair em defesa do podcaster e se despedir dos espectadores fazendo uma saudação que tem jeito, pata, chifre e rabo nazista, mas que ele jura ser só um tchauzinho inocente. Pura coincidência ter saído um gesto assim tão parecido no momento em que ele defendia, vejam só, o direito de um influencer manifestar seu desejo por um partido nazista no Brasil.

Monark foi desligado do programa que ajudou a criar.

Adrilles Jorge conseguiu a proeza de ser demitido da Jovem Pan, emissora que dá abrigo a comentaristas que já declararam que puniriam a própria filha caso fosse ela estuprada e que veem base de comparação entre índices de mortos por Covid aos de pessoas engasgadas com o próprio almoço.

Leia também:

Kim Kataguiri pode ser o próximo na lista de desempregados caso avance na Câmara um mutirão em defesa da cassação de seu mandato por conta de sua posição no programa.

Como um certo chanceler austríaco no comando da Alemanha durante a guerra, o líder do MBL (Movimento Brasil Livre) fez de seu mandato uma batalha de trincheiras que o deixou sem retaguarda. É como atacar a França e a Rússia ao mesmo tempo. E em pleno inverno.

Mal Kataguiri havia endossado a tese de Monark, o PT (alvo dos protestos que ajudou a organizar ainda sob a presidência de Dilma Rousseff), o PP, partido da base de apoio de Jair Bolsonaro, com quem o deputado e os integrantes do MBL romperam, Renan Calheiros (MDB-AL), outro alvo constante da turma, e até o neodesafeto Eduardo Bolsonaro (PL-SP) foram para cima e pediram providências ao Conselho de Ética da Câmara.

Sim, chama a atenção que o filho do presidente, com quem a turma do MBL tem trocado sopapos ao fim de uma curta e oportuna amizade, tenha movimentado os coturnos na mesma direção dos adversários políticos.

Até onde se sabe, Eduardo Bolsonaro não moveu uma sobrancelha quando o então secretário de Cultura do pai emulou Joseph Goebbels, chefe de propaganda nazista, em rede nacional; quando páginas neonazistas faziam campanha para o pai, então deputado; quando sua colega e aliada Bia Kicis (PSL-DF) se reuniu com a neta de um ministro nazista; ou quando integrantes do governo fizeram símbolos supremacistas na frente das câmeras.

É que coerência não é exatamente uma virtude quando se tem uma oportunidade de liquidar um inimigo –um inimigo com quem certamente ele disputará votos daqui a alguns meses.

Em sua defesa, o deputado encrencado correu para dizer que tudo não passou de um mal entendido.

O que ele quis dizer, durante sua participação no podcast, garante, é que “a melhor maneira de derrotar as ideias nazistas, de sufocar e garantir que a tragédia do Holocausto nunca mais aconteça novamente é expondo os horrores das obras nazistas”. “Foi isso que eu defendi. Fui infeliz ao falar da descriminalização, porque me expressei mal e pareceu que eu estava defendendo a descriminalização total do nazismo quando eu estava me referindo às obras, que as pessoas tenham acesso às obras, como a comunidade judaica alemã defende, justamente para repudiar os horrores do nazismo. É uma injustiça me colocarem a pecha de nazista quando toda a minha participação no programa foi no sentido de qual é a melhor maneira de definitivamente derrotar o nazismo”, disse ele ao jornal O Globo.

Pode até ser que a justificativa seja aceita por seus eleitores. O problema é que, se cassado, ele talvez não tenha sequer a possibilidade de pedir uma nova chance.

Nem o fato de o presidente do Conselho de Ética, Paulo Azi (DEm-BA), ser filiado ao mesmo partido pelo qual Kataguiri se elegeu serve de consolo; ele saiu brigado do DEM após a eleição e hoje se abriga entre os políticos defensores da antipolítica do Podemos, Sergio Moro à frente. Seu futuro agora depende dos políticos que sempre azucrinou.