'Falei com nossa amiga', disse Cipriano a Ronnie Lessa antes de reunião com Adriana Belém

Presos na Operação Calígula, desencadeada nesta terça-feira pelo Ministério Público do Rio, os delegados Marcos Cipriano e Adriana Belém confirmaram, em depoimento à Corregedoria Geral da Polícia Civil(CGPOL), terem se encontrado, juntos, com o ex-PM Ronnie Lessa, réu pelas mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A reunião foi intermediada por Cipriano, amigo de infância de Lessa, com quem o delegado manteve diversas conversas sobre a colega de profissão.

Para os promotores do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o encontro entre os três, ocorrido no dia 21 de agosto de 2018, teve o objetivo de negociar a liberação de 78 máquinas de caça-níquel apreendidas em um bingo do bicheiro Rogério de Andrade na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. O equipamento havia sido levado para a 16ª DP (Barra da Tijuca), então chefiada por Adriana Belém. Os dois policiais civis negam a acusação e alegam que a conversa travada na ocasião não teve relação com a apreensão, mas sim com uma tentativa de latrocínio — o roubo com resultado morte — sofrida pelo ex-PM no bairro.

A denúncia do MP-RJ traz diálogos que reforçam a proximidade entre Cipriano e Lessa. "Guerreiro, falei com nossa amiga agora, ela mais tarde confirma", disse o delegado para o ex-PM, numa referência, segundo os investigadores, à tentativa de marcar o encontro com Adriana Belém. No áudio enviado para Lessa, Cipriano pontua que "mataram duas pessoas na Barra" e que, por isso, estaria "uma loucura" na delegacia. "Mas bom, enfim, mais tarde ela nos confirma se é almoço ou café. Valeu?", concluiu o delegado. "Ok, fico no aguardo", respondeu o ex-PM.

Cipriano, porém, acaba retomando o contato ainda sem que a reunião tivesse sido viabilizada. "Fala meu irmão, tudo beleza? Eu estive com nossa amiga hoje... Teve um almoço da Associação dos Delegados, e aí ela se desculpou porque ficou enrolada ontem, né. Ontem e hoje", lamenta. O delegado, então, cogita que a conversa ocorra na residência de Belém. "Combinei com ela para amanhã a gente falar com ela. Aí eu te dou um toque aí, e a gente vai até lá no condomínio dela, ou em algum lugar, beleza? Amanhã durante o dia a gente faz isso", assegura Cipriano.

Mais uma vez, contudo, a intenção não chegou a ser concretizada, gerando um terceiro momento em que o delegado volta a falar sobre a colega em áudios remetidos a Lessa. Cipriano explica que naquela data teria que buscar a filha na escola, mas que, em seguida, estaria liberado. Vou chamar ela (Belém). Ligar pra ela. E vamos lá direto, vou ver se ela nos atende lá ou no condomínio dela, ou ali na frente, entendeu? Vamos resolver logo isso. Vamos ver se mais tarde faz isso", falou.

Este último áudio foi compartilhado por Lessa com dois comparsas, um deles responsável por coordenar o bingo que havia sido estourado pela Polícia Militar. "Cipri me mandou ainda agora", disse o ex-PM. O aliado devolveu a mensagem com um "vai dar tudo certo", o que, no entender do Gaeco, reforça a convicção de que o tema a ser tratado no encontro seria do interesse da quadrilha como um todo, e não apenas uma questão pessoal relativa a Lessa.

Na denúncia, os promotores frisam que o interlocutor do ex-PM chega a comemorar "o fato de Adriana Belém aceitar conversar". Eles acrescentam, então, que o "contexto" do encontro "certamente está relacionado com a esperança de que 'tudo dê certo' com a retirada das máquinas caça-níqueis da sede policial".

A partir daí, de acordo com o MP-RJ, as tratativas para a devolução do maquinário apreendido aos criminosos passaram a ser conduzidas pelo policial Jorge Luíz Camilo Alves, o Camilo, então chefe de investigações da 16ª DP e espécie de braço direito de Belém. Ele foi preso no início de 2020, em uma operação contra uma milícia que atua em Rio das Pedras e na Muzema, ambas na Zona Oeste da cidade. Na ocasião, os agentes já haviam localizados diálogos nos quais Ronnie Lessa se referia a Camilo como "amigo da 16".

Embora não tenha sido formalmente investigada à época, Adriana Belém deixou o comando da 16ª DP dias depois da prisão do chefe da unidade. Desde então, passados mais de dois anos, a delegada não voltou a atuar em nenhuma unidade operacional, como frisou, por nota, a própria Polícia Civil. Ela estava cedida à Secretaria municipal de Esportes, onde ocupava o cargo de assessora, mas foi exonerada pela prefeitura nesta terça-feira.

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