Falsos vendedores já chegaram a ofertar 400 milhões de doses de vacinas ao governo federal com 'script padrão'

Renata Mariz
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BRASÍLIA — Evidenciada por uma operação da Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira, a atuação de alguns grupos oferecendo milhões de doses de vacina contra a Covid-19 ao governo federal já tinha levantado suspeitas no Executivo. O Ministério da Saúde tem sido alvo de tentativas semelhantes. Fontes da pasta relataram ao GLOBO ao menos três outras investidas, além da investigada pela PF.

A história costuma ser a mesma: um fundo investiu na pesquisa da vacina e agora tem direito a uma cota, que é ofertada à pasta por pessoas que se dizem representantes do laboratório ou de distribuidores. Já houve uma oferta de 400 milhões de doses. Em todas os relatos colhidos pela reportagem, os grupos agiram usando o nome da AstraZeneca.

O volume exagerado das ofertas em momento de escassez de vacina no mundo, bem como o "script" que se repete, acende o alerta nos funcionários da pasta. Eles explicam que não podem se negar a receber "representantes" de empresas para tratar de vacinas. Mas, para testá-los, questionam se têm carta de representação da organização à qual se dizem ligados e a documentação dos lotes da vacina.

Em geral, eles ficam de enviar a papelada exigida ou agendar uma segunda reunião, o que não ocorre. É nesse momento, segundo servidores ouvidos, que fica constatada a falsidade da negociação.

Outro sinal de alerta é quando os supostos representantes de distribuidores frisam que não precisariam de pagamento adiantado para mandar as primeiras remessas de vacina. Um servidor, já tarimbado nesse tipo de negociação, diz que tal vantagem nunca aconteceria numa tratativa real com intermediador.

No caso da oferta de 400 milhões de doses, os supostos representantes disseram que os lotes estavam em Londres, prontos para serem embarcados, caso a contratação se efetivasse. O encaminhamento de suspeitas é tratado com reserva pelas fontes que trabalham nessas negociações. Eles ressalvam que nem sempre é possível ter certeza de que se trata de uma negociação falsa.

A impressão que dá, segundo uma fonte, é que as pessoas recebem um comando para vender o produto e saem em disparada em busca de mercado, talvez sem saber que se trata de uma fraude. Em comum, demonstram desconhecimento da legislação brasileira e demais regras sobre importação e regulação desses produtos.

Preocupação com negociações com outras esferas

Há uma preocupação na pasta em relação a outras esferas de governo que podem vir a ser alvos desse tipo de ação, como as prefeituras. Pior do que pagar e não receber, é receber um frasco de soro como se fosse vacina, afirma um servidor do Ministério da Saúde, ao comentar riscos desse tipo de fraude.

Segundo os ouvidos, até agora, nenhuma das negociações suspeitas de serem fraudulentas entraram nos cronogramas oficiais de vacinação divulgados pelo Ministério da Saúde.

O GLOBO questionou oficialmente, via assessoria de imprensa da pasta, se a negociação de 200 milhões de doses que foi alvo da PF nesta quinta-feira, a partir de denúncia do próprio ministério, estava de alguma forma considerada nas previsões de aquisição de vacina já divulgadas, mas não houve resposta até a publicação deste texto.