Falta de apoio do governo eleito à candidatura de Ilan é 'perda de oportunidade', diz Canuto, ex-BID

O economista Otaviano Canuto, que já foi vice-presidente do Banco Mundial e do Banco Interamericano Internacional (BID), avalia que a falta de apoio do governo eleito à candidatura de Ilan Goldfajn é uma 'perda de oportunidade para o Brasil'. Ilan foi indicado para concorrer à presidência do BID pelo governo de Jair Bolsonaro a poucos dias das eleições.

O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega escreveu carta aos EUA e a outros países-membros do BID pedindo o adiamento da eleição. Na carta, Mantega diz falar em nome do novo governo e que Lula gostaria de indicar outro candidato, segundo pessoas que tiveram acesso ao documento.

O BID manteve a eleição para o dia 20 deste mês, mas a carta de Mantega fragiliza a candidatura de Ilan. Para Canuto, que ocupou a secretaria de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda no primeiro governo Lula e hoje é membro-sênior do Policy Center for the New South, Ilan "não é visto como alguém associado a qualquer vertente política".

A falta de apoio formal por parte do governo eleito enfraquece a candidatura de Ilan Goldfajn ?

O governo ainda é o do presidente Jair Bolsonaro e não do Lula. A iniciativa do Guido Mantega, que não foi nomeado ministro para futuro governo, não tem efeito algum. Para ter um adiantamento desse (da eleição do BID) teria que ser alguma iniciativa formal de alguns dos governadores e teria que ser aprovada pelo conjunto. A carta não tem significado algum.

Mas não é um bom sinal do país não cerrar fileiras em torno do nome que foi colocado. Eu conheço o Ilan e sei que ele não é visto como alguém associado a qualquer vertente política em jogo. Ele é visto como alguém muito qualificado e com uma experiência e com um currículo que justificam a candidatura.

Seria uma perda de oportunidade?

Definitivamente, se o Ilan não ganhar é uma perda de oportunidade para o Brasil.

O novo governo pretende retomar uma política de investimentos em obras públicas. Como o BID pode nos ajudar?

O BID pode fazer o que sempre fez e o que está estabelecido nas suas diretrizes. Ele tem um braço no setor privado, tem um braço no setor público. Ele pode continuar operando com o Brasil, como está na missão dele, de dar suporte a projetos tanto na área pública quanto no setor privado dentro das áreas que forem estabelecidas entre o país e a instituição.

E isso independentemente da nacionalidade do presidente. Tudo depende do que bilateralmente o governo do país e a instituição defendem como áreas e tipos de projetos a serem apoiados.

Diante do cenário internacional de disputas comerciais e com empresas repensando suas cadeias de produção, o BID pode ajudar não só o Brasil, mas a América Latina, a se posicionar de outra forma diante da cadeia global?

Caso o BID, particularmente por parte do setor privado, quiser acompanhar programas de investimentos de empresas para fazer substituição de cadeias de valor, vai ter que provar que isso gera valor e tem impacto no desenvolvimento. E tem que mostrar que não existem alternativas disponíveis para assim mobilizar os recursos do BID para tanto. Isso não depende da nacionalidade de quem estiver ocupando a presidência do BID.

As cadeias de valor existem por razões de eficiência, que levaram os agentes privados as construírem como elas são. Não é uma vontade política. Para alterar essas cadeias de valor, tem que ter uma perspectiva de interesse de agentes privados e, eventualmente, de subsídios para tornar isso possível.

E tem um dever de casa que o país que queira ter um tipo de integração desse tipo em termos de ambientes de negócio, de infraestrutura para que seja viável. Vai ter oportunidades em alguns segmentos, mas a lição de casa não pode ser esquecida para que isso seja viável.