Falta de banheiros em milhares de casas mobiliza conselhos de arquitetura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A falta de banheiro em 1,6 milhão de lares brasileiros, segundo dados do IBGE, está mobilizando conselhos de arquitetura, como os do Rio Grande do Sul e do Distrito Federal, a buscarem soluções que levem vaso sanitário, chuveiro e pia a moradores de habitações com estruturas precárias.

O investimento dos conselhos estaduais no programa "Nenhuma casa sem banheiro", juntos, ultrapassam R$ 500 mil. Foram arrecadados R$ 68,7 mil do CAU/DF (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal) e R$ 522 mil do CAU/RS (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul).

Para auxiliar nos projetos, os conselhos conseguiram apoio da CODHAB (Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal), que disponibilizou R$ 500 mil, e mais R$ 1,7 milhão do governo do Rio Grande do Sul, que beneficiará famílias gaúchas.

Moradora de Santa Cruz do Sul (RS), Dienifer Benettiele da Rosa, 27, foi uma das atendidas pelo programa. Safrista em uma empresa de tabaco, ela mora há 20 anos no mesmo lugar, que até maio deste ano não tinha banheiro próprio.

"Agora eu posso ter um banheiro meu e de fácil acesso, antes precisava sair de casa para ir até lá, agora ele tá dentro da minha casa, é bonito e grande. Nossa vida mudou bastante depois disso", diz.

Dienifer mora com dois filhos. Ela afirma que o frio da região atrapalhava muito quando era preciso utilizar o sanitário. A safrista chegou ao programa pela prefeitura do município após a indicação de uma amiga.

Segundo o ranking do saneamento deste ano do Instituto Trata, o Rio Grande do Sul possuí dois municípios entre os piores. Na lista ainda estão Rio de Janeiro, com quatro cidades, e Pará, com três.

De acordo com Datafolha encomendado pelo CAU nacional, 82% das moradias brasileiras são irregulares por falta da contratação de serviços de profissionais habilitados como arquitetos e engenheiros.

Em pesquisa da Fundação João Pinheiro, cerca de 25 milhões de moradias brasileiras são precárias e, no Rio Grande do Sul, 11 mil casas não possuem banheiros exclusivos.

Arquiteta e assessora técnica do gabinete de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (Athis) do conselho gaúcho, Sandra Becker afirma que a falta de banheiro é um problema recorrente para parte da população e que isso impacta na dignidade social.

"Achamos que está distante, mas na verdade é um problema bem próximo. A partir do momento em que conhecemos casas assim, ficamos surpresos e até tristes. O banheiro também tem esse significado de dignidade, porque quando não é bem construído, acaba gerando outros problemas como mau cheiro por conta do saneamento", diz.

A profissional também explicou que existe uma certa resistência dos moradores para acreditar que programas como esse se tornem reais.

"Muitas vezes essas famílias ficam feliz por um lado, mas algumas ficam até ressabiadas porque acham só vai ficar na promessa. Então isso só se concretiza a partir do momento em que o banheiro estiver construído nas casas delas".

Segundo o presidente do Conselho de Arquitetura do Rio Grande do Sul, Tiago Holzmann da Silva, até o momento cerca de 20 banheiros foram construídos no estado. A expectativa é de que 378 famílias das cidades de Canoas, Caxias do Sul, Charqueadas, Lageado e Santa Cruz do Sul sejam beneficiadas com o programa até o fim de 2023. A seleção dos participantes é feita pelos municípios a partir do cadastro no SUS.

Presidente do CAU nacional, Nadia Somekh diz que o programa do RS serviu de exemplo para o Distrito Federal e promove a lei, que assegura a famílias de baixa renda assistência técnica e gratuita para construção de habitação.

"Temos muita gente morando mal no nosso país, e desde 2015 incorporamos nos conselhos que pelo menos 2% [da arrecadação] seja destinada para a melhoria das habitações precárias".

Josélia Araujo Pereira da Silva, 50, foi uma das primeiras contempladas com o programa "Nenhuma casa sem banheiro" no Distrito Federal. Moradora do bairro Cidade Estrutural, região que era conhecida como "lixão de Brasília", há 20 anos vive sem banheiro de concreto.

"Temos banheiro de madeirite, então quando chove ele estraga, às vezes apodrece, e tem que trocar. Quando temos dinheiro, trocamos, quando não tem ai fica sem trocar, mas não tá fácil não", diz.

De acordo com o Instituto Trata, a cidade de Brasília esta entre as 15 melhores cidades em termos de saneamento, mas o bairro Cidade Estrutural, segundo a conselheira do CAU/DF Sandra Marinho, ainda possui um alto índice de moradias inadequadas. "Dentre esses componentes de inadequação, a questão do banheiro é presente", diz.

A expectativa é que o banheiro de Josélia comece a ser construído em agosto, segundo Sandra. "No total serão entregues 35 banheiros. Como são obras rápidas, a gente acredita que até setembro muitos já estejam prontos".

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