Falta carne na mesa: comer é cada dia mais um desafio no Brasil

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Na semana que marca o Dia Mundial da Alimentação — celebrado dia 16 de outubro —, o Yahoo Finanças inicia uma série de vídeos de receitas que trazem muito mais do que apenas um prato: trazem todo o ato político que há em comê-lo. "Comer: Ato Político" é apresentada pelo chef e gastrólogo Zeh Barreto, que comanda a cozinha com receitas prática e dicas preciosas para você economizar e melhorar a qualidade da sua alimentação e bem-estar. Até sábado (23), O Yahoo publicará seis episódios diários com os temas: Inflação dos alimentos; Vegetarianismo; Alimentos ultraprocessados; Dicas para evitar o desperdício; Como reduzir o delivery; e Como fazer o descarte correto.

Acompanhem!

Ethieny Karen e Thalya Godoy

Muito mais do que apenas parar de se alimentar com carne de origem animal, pessoas vegetarianas e veganas procuram uma vida com menor impacto ambiental e o respeito aos animais. 

A busca por essa filosofia de vida tem aumentado, é o que aponta uma pesquisa realizada pelo MindMiners, em que 30% dos entrevistados que pensam em mudar sua forma de alimentação pretendem adotar o vegetarianismo.

Uma pesquisa realizada pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), em parceria com a Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria), indica que 46% dos brasileiros já deixam de comer carne, por vontade própria, pelo menos uma vez na semana.

Na contramão de quem não tem escolha, o consumo de carne em 2021 também caiu devido à alta nos preços dos alimentos. Pesquisa do Datafolha, realizada entre 13 a 15 de setembro, aponta que 67% da população brasileira reduziu o consumo de carne vermelha. Foi a maior diminuição entre os itens pesquisados. Proteína de frango, porco e outros tipos tiveram queda de 39% no consumo.

A triste consequência disso tem sido as cenas cada vez mais comuns de filas para doação de ossos e restos bovinos, carcaças de peixes voltando à mesa dos brasileiros e a alta na procura e nos preços do pés de frango.

46% dos brasileiros já deixam de comer carne por vontade própria pelo menos uma vez na semana, de acordo com pesquisa realizada pela SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira). (Foto: Arte / Ethieny Karen / Yahoo Finanças)
46% dos brasileiros já deixam de comer carne por vontade própria pelo menos uma vez na semana, de acordo com pesquisa realizada pela SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira). (Foto: Arte / Ethieny Karen / Yahoo Finanças)

O que defende os movimentos vegetarianos e veganos?

Dentre as bandeiras levantadas pelo movimento vegetariano está a proteção e defesa aos animais. Não se trata apenas de não se alimentar, mas compreender a luta política atrás dessa filosofia. 

Os veganos, além de não ingerirem nenhum derivado animal, também não consomem roupas, sapatos e cosméticos que tenham algum tipo de maus-tratos aos animais em sua composição.

Os vegetarianos podem ser ovolactovegetarianos, lactovegetarianos e vegetarianos restritos. 

  • Ovolacto: Pessoas que não comem carne, mas se alimentam de leite e ovos; 

  • Lactovegetarianos: Não se alimentam de ovos e nem carnes, mas tomam leite e seus derivados; e 

  • Vegetarianos: Não comem carne, ovos e leites, contudo consomem produtos que podem conter maus-tratos a animais no processo de fabricação (como roupas, sapatos, cosméticos e etc).

O vegetarianismo no Brasil

Dados do levantamento feito pelo IBOPE Inteligência, realizado em abril de 2018, a SVB estima que haja 7 milhões de adeptos do veganismo no país e 14% da população se declara vegetariana. 

Carolina Galvani, presidente da Sinergia Animal, vê esses dados como um grande avanço na luta pelos animais e na preservação do meio ambiente.

“A mesma pesquisa revelou que mais de 50% de nossa população, ou seja, mais de 100 milhões de pessoas, dariam preferência para produtos veganos se houvessem indicações nas embalagens ou se custasse o mesmo valor dos produtos convencionais”, ela pontua .

Impacto do consumo de carne e a agropecuária

Dados de uma pesquisa a respeito da biomassa na Terra realizada pela Weizmann Institute of Science, de Israel, que foi publicada pelo Proceedings of the National Academy of Sciences, dos Estados Unidos, demonstra que entre os mamíferos, 60% são animais de pecuária, como porcos e vacas destinados à alimentação, 36% são humanos e os 4% restantes são animais selvagens.

Entre as aves, cerca de 70% são domésticas e somente 30% são selvagens.

A devastação ambiental também é alta. No Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento da Amazônia nos últimos 12 meses é o mais intenso dos últimos dez anos. Entre essas áreas, estão zonas desmatadas que são utilizadas para dar lugar à indústria agropecuária, entre cultivo e pastagens de animais ruminantes.

Criação de gado no Brasil.
Criação de gado no Brasil.

A utilização de recursos hídricos também é alarmante. Análise de imagens de satélite de todo território nacional realizada entre 1985 e 2020, realizada pela equipe da MapBiomas, aponta uma perda de 15% da superfície de água desde o começo dos anos 1990.

Dentre os maiores fatores para essa perda estão relacionados a agricultura, pecuária, pesca, aquicultura, produção florestal, como responsáveis por 97,4% do consumo total de água no Brasil em 2017, apontam dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Taylison Santos, gerente de Campanhas do Fórum Animal, pontua a importância da alimentação vegetal, mas também do cuidado com esse alimento e o solo onde ele é plantado. 

“Se existe uma rotação de cultura, um acompanhamento das necessidades daquele solo, se tem rios, mata e tudo que é feito na agrofloresta é pensado, esse tipo de plantação é muito benéfica”, ele explica.

É possível ser vegano de forma acessível e popular?

Diferente do veganismo caro em restaurantes chiques de grandes cidades, David Souza, 25, que mora em Vitória (ES), levanta a bandeira de uma alimentação barata e saborosa. 

Ele é vegano há sete anos e decidiu compartilhar um pouco do seu dia-a-dia na rede social, que já conta com 23 mil seguidores, com receitas de bolos, doces, cachorro quente e outros pratos.

“Eu mostro um veganismo que eu vivo, popular, acessível e consciente. Eu sou pobre e consigo ser vegano e compartilho isso com as pessoas, e é muito importante democratizar essas informações e faço isso através de receitas, vídeos, depoimentos, memes e etc”, ele conta.

Diferente dos produtos industrializados, cheios de conservantes e de empresas que fazem opções sem carne, mas que não são veganas e sim vegetarianas, David aposta em pratos que são feitos com vegetais e frutas comprados em feiras orgânicas ou na horta de seus avós.

“É possível fazer um um litro de leite vegetal de aveia por dois reais, ao invés de comprar um litro pagando dez. Até com o feijão que sobrou na panela você cria um hambúrguer saboroso e nutritivo, o que se for comprar um de alta tecnologia no mercado pagaria R$ 15”, diz.

David compreende que a luta vegana é uma luta contra o especismo. O especismo é uma discriminação contra quem não pertence a certa espécie. Esse preconceito faz com que os humanos tenham comportamentos violentos, como causar a morte de animais para consumo alimentar, de vestimenta e de transporte.

“Ser vegano é se importar com os animais, as pessoas e o planeta. É um ativismo não só no prato, mas na vida em geral. É uma luta ética, política, por direitos e contra o especismo. Uma forma de viver que passa por diversas áreas e precisa se conectar e dialogar com outros movimentos sociais importantes. A partir do momento que decidi me tornar vegano, comecei a mudar hábitos, repensar questões e me adaptar a essa nova realidade de consciência”, pontua ele.

Alimentação afro-diaspórica a base vegetais

Neta de Dona Sônia, filha de Cristiane e seu Luís, Caroline Costa tem 29 anos, é da Baixada Fluminense e é turismóloga. Como ela mesmo se define, é uma pessoa que se alimenta à base de vegetais.

“Eu tenho uma questão com o veganismo. Quando comecei a escutar sobre vegetarianismo e tudo mais, eu compreendi que a palavra ‘veganismo’, de fato, não compreendia o meu universo enquanto mulher negra.”

Caroline vê sua alimentação como uma questão política dentro do ambientalismo e não apenas pela causa animal. Dentro das pautas que ela defende estão os conflitos socioambientais, moradia, justiça, saúde e a forma que pensamos o meio-ambiente e os animais.

Essa inquietação fez com que buscasse mais pessoas na região onde morava que tinham a mesma forma de se alimentar que ela.

“Eu encontrei um canal dentro do Facebook, uma galera que era da Baixada Fluminense e tivemos um evento como se fosse um piquenique. Depois disso, tivemos encontros de forma recorrente e foi assim que eu comecei a compartilhar conteúdo na internet”, Caroline relembra.

Em sua página do Instagram compartilha receitas acessíveis e que fazem parte da história da família. “Eu fiz o meu próprio livro de receitas da minha família. Perguntei para minha mãe e avó quais as comidas mais gostavam de fazer e que elas aprenderam e eu fiz um livro das receitas que me trouxeram”, relata.

Depois de ler e se aprofundar nas questões afro-diaspóricas, Carol decidiu compartilhar com mais afinco receitas advindas de países africanos e resgatar a memória de chefes, ativistas, celebrações e curiosidades de pessoas negras que levantam a bandeira da alimentação sustentável e sem maus-tratos.

“Depois que eu li o livro ‘O caminho de Casa’, da Yaa Giasi, foi o momento de ´sankofa´ - um momento de retorno, fazer essa pesquisa e esse estudo, de uma alimentação da nossa família, de pensar como organizações pretas e referências pretas fazem essa alimentação e a importância dela para todos.”

Quem é o 'vegano periférico'?

Eduardo dos Santos e Leonardo dos Santos, 25, são irmãos gêmeos veganos que estão por trás da criação da página “Vegano periférico”. Eles nasceram na periferia de Campinas (SP). Ambos se consideram “mídia ativista”.

Cada um se tornou vegano em momentos diferentes. Eduardo foi o primeiro, depois de ver um caminhão de porcos tombado e toda a crueldade das pessoas com o trato com aqueles animais.

Depois de dois anos, Leonardo aderiu ao mesmo propósito, a luta contra os maus-tratos aos animais. “Eu vou olhar essa carnificina que existe com os animais e vou ignorar? Durante os dois anos sem ver e ignorar tudo isso foi fácil, mas quando você vê é difícil” conta Leonardo.

Os irmãos mudaram a forma que se alimentavam. Acostumados a comidas ultraprocessadas e com uma alimentação sem muita variedade, com a mudança na forma de entender o alimento e os animais vieram o conhecimento e o aprofundamento nas pautas e na forma de se alimentar.

“Eu preciso ir às feiras, experimentar todos os alimentos que eu poderia me alimentar, sabe? E isso sozinho, sem ajudas de profissionais. Eu não tinha hábito de ir em feiras e trouxe um monte de coisa para casa e comecei a preparar esses alimentos. É muito diferente da minha outra alimentação que era muito no automático”, relata Leonardo.

A maior dificuldade que Eduardo sentiu quando se tornou vegano foi no meio em que estava inserido, como fazer os outros compreenderem sua alimentação, enquanto Leonardo em lidar com o machismo que sofreu por parte dos seus colegas e amigos.

“O machismo é muito forte, o consumo de carne está relacionado com a masculinidade. É um bagulho louco. Os caras não querem conversar com você por isso”, relembra Leonardo.

Eduardo aponta que quando trabalhou em um restaurante que tinha opções vegetarianas, os homens nunca as escolhiam. “Eles chegavam no estabelecimento e se fechavam. As meninas escolhiam os pratos e eu perguntava e eles diziam: ‘eu não obrigado’. Com medo. Muitos caras tinham medo de pedir comida”, relembra Eduardo.

Esse relato vai de encontro com uma pesquisa publicada pela Universidade do Havaí que revelou que os homens incorporam mais carne vermelha em sua dieta quando sentem que sua masculinidade está ameaçada. Segundo o estudo, homens reagem às “ameaças a sua identidade de gênero” com compensação masculina e exibem extremos comportamentos masculinos para restaurar sua masculinidade, sendo o consumo de carne um das maiores representações.

Os dois decidiram juntar os conhecimentos sobre veganismo, sociologia e periferia e criar a página “Vegano Periférico” que já tem 360 mil seguidores. A página proporcionou visibilidade, a realização de eventos, debates e até a produção de um documentário.

“O documentário aconteceu bem natural, um produtor chegou e se interessou e queria saber mais sobre a nossa vida. Eu achei bem legal, porque a gente estava esperando um convite, esse toque, mas não fomos átras”, comenta Leonardo.

O documentário que acompanha a vida dos dois irmãos veganos conta um pouco da trajetória vegana e das bandeiras levantadas por ambos.

Veganismo e maternidade

Claiti Cortes é mãe de Antonela de três anos. Ambas fazem sucesso mostrando receitas, companheirismo e alimentação afetiva à base de vegetais. Claiti se tornou vegana há 4 anos, por questões de saúde e, depois de estudo, se tornou por questões éticas envolvendo os animais, causas ambientais e o trabalho humano envolvido.

No Brasil, os dados de acidentes de trabalho, adoecimento e suicídio que compreendem o setor frigorífico, embora subnotificados, são relevantes. 

Em Mato Grosso do Sul, os maiores alvos de reclamações e processos perante a Justiça do Trabalho (TRT/24º) são as indústrias frigoríficas. Má remuneração, ambiente insalubre, estresse e outros são só alguns dos problemas envolvendo a indústria da carne.

Uma das maiores questões que Claiti enfrenta ao passar o veganismo para a sua filha é a preocupação dos outros com a nutrição de Antonela. “Uma alimentação pode ser ou não ser saudável sendo ela vegana ou não. O que vai definir são os alimentos e as porções. Quando bem equilibrada, a alimentação vegana é adequada para todas as fases da vida e tem proteína suficiente para qualquer faixa etária”, explica.

Essa nova forma de ver os alimentos e os animais mudou a maneira com que ela se relaciona com o trabalho do próximo e o consumo de outros produtos.

“De início foi a alimentação, mas o veganismo vai além disso. É todo um estilo de vida, então escolhemos roupas, calçados, cosméticos, tudo que esteja alinhado com a causa. Penso até na remuneração adequada de quem produziu, afinal, humanos também são animais e merecem qualidade de vida”, defende Claiti.

É verdade que os veganos ficam mais doentes?

Quando se pensa em alimentação vegetariana e vegana, existem diversas preocupações com a saúde e a falta de nutrientes e proteínas que uma dieta feita com base unicamente em vegetais, leguminosas e frutas podem ocasionar.

Contudo, a nutricionista Patrícia Busato, especialista em nutrição vegetariana, aponta cuidados e mitos sobre o tema. 

“Tenho a visão de que os vegetarianos, muitas vezes, pesquisam mais a respeito de nutrição para sustentar o novo estilo alimentar (perante amigos, familiares, etc). Sendo algo novo, elas têm medo de ficarem doentes. Logo, uma grande parte das pessoas vegetarianas se familiariza com hábitos mais saudáveis”.

Um prato brasileiro de arroz, feijão e salada é capaz de oferecer vinte aminoácidos que compõem a proteína, e ainda se pode completar com outros alimentos como leguminosas e tubérculos.
Um prato brasileiro de arroz, feijão e salada é capaz de oferecer vinte aminoácidos que compõem a proteína, e ainda se pode completar com outros alimentos como leguminosas e tubérculos. (Foto: Getty Images)

Um prato brasileiro de arroz, feijão e salada é capaz de oferecer vinte aminoácidos que compõem a proteína, e ainda se pode completar com outros alimentos como leguminosas e tubérculos.

A nutricionista Patricia Busato ressalta que os cuidados a mais para pessoas veganas devem se atentar às taxas de Ferro, B12 e Ômega 3. “Os principais cuidados são, na verdade, os que todo mundo deve ter: manter exames em dia, ter uma alimentação majoritariamente natural, prática de exercícios físicos e cuidar da mente”, orienta.

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