Falta de combustível agrava descida ao inferno de haitianos, 1 ano após assassinato de presidente

AP - Odelyn Joseph

Na noite de 6 para 7 de julho de 2021, o presidente haitiano Jovenel Moïse foi assassinado no quarto de sua residência por um grupo armado. Um ano se passou e ainda não está claro quem esteve por trás deste ataque, em um país acostumado à impunidade há décadas. Mas no período as quadrilhas aumentaram drasticamente seu domínio sobre o país, a ponto de transformar a vida cotidiana em um inferno especialmente na capital Porto Príncipe, onde vivem cerca de três milhões de pessoas.

Amélie Baron, correspondente da RFI em Porto Príncipe

Um presidente assassinado, um parlamento inexistente, um sistema de justiça paralisado, repetidas faltas de combustível: cuidar da vida cotidiana é um desafio permanente em Porto Príncipe. Diante dos sequestros diários executados por membros de gangues que não se preocupam mais em esconder seus rostos, a situação se tornou insuportável no Haiti.

"Você tem absolutamente que limitar os deslocamentos se não houver nenhuma emergência, é assim que eu coloco a questão. Se não for urgente, prefiro ficar em casa e falar por telefone", diz Etzer Emile, um economista haitiano. Nos últimos meses, a lista de áreas para onde ele ousa ir foi drasticamente reduzida: "É muito difícil. Há áreas onde eu quase nunca vou, e menos ainda à noite. Ao mesmo tempo, não há nenhuma atividade à noite. É realmente excepcional. Pessoalmente, eu viajo muito pelas províncias", explica.

"Eu uso o avião muito mais do que antes. Mas em Porto Príncipe, meus deslocamentos são muito limitados. Não vou a Tabarre, ou para Croix-des-Bouquets, e não vou ao centro da cidade. Portanto, não saio à noite, exceto em casos de emergência. Eu acho que é a mesma coisa para todo mundo", diz Emile.

Hospitais e médicos são alvos de gangues

Por medo de serem sequestradas, muitas pessoas só saem em casos de extrema necessidade, ou seja, em caso de emergências médicas. Mas com as quadrilhas tomando conta do país, os já raros hospitais estão lutando para funcionar.

Rishkard Juin acaba de terminar um estágio em ortopedia: "Imagine, às vezes os hospitais não conseguem nem mesmo obter tanques de oxigênio porque as estradas estão bloqueadas, ou por causa da falta de combustível, e assim por diante. E os profissionais de saúde são muito frequentemente o alvo preferencial das gangues: os médicos são sequestrados de suas clínicas. Em resposta, muitos foram para o exílio", conta.

"Durante este último ano, muitos de meus colegas tiveram que deixar o país para ir para os Estados Unidos, Canadá ou França. E eles estão trabalhando em outra coisa que não a medicina. Eles estão com medo. Há menos de um ano, eu tenho um amigo que é casado com outra colega, eles tiveram que se mudar e tiveram que deixar o país porque sua esposa foi sequestrada", lembra Juin.

"Ele é alguém que nunca havia considerado deixar o país, mas, por causa do sequestro de sua esposa, ele teve que sair. Eu gostaria de viver em meu país. Eu gostaria de exercer minha profissão em meu país com meus compatriotas. Mas este clima só nos destrói", diz o médico residente.

Grande êxodo populacional

Nas províncias, Etzer Emile notou que as cidades secundárias atraem cada vez mais pessoas que queriam fugir da capital, especialmente aqueles que viviam na cidade suburbana de Croix-des-Bouquets e na planície, onde, entre o final de abril e o início de maio, algumas gangues mataram mais de 190 pessoas.

"Fiquei surpreso ao ver que muitas pessoas que conhecia haviam se mudado para Cap, Les Cayes, Jérémie", afirmou. "Se você deixar o Croix-des-Bouquets, local que tem fama de ser barato, e se mudar para outra área mais segura, o aluguel será mais caro. Por isso, algumas pessoas estão optando por se mudar para áreas rurais e isso está se tornando cada vez mais comum", explica Emile.

"Isso não significa que tudo esteja bem. Há restrições e falta de combustível, e também a miséria, a inflação e tudo isso, com as mesmas limitações de infraestrutura básica. Os problemas estão [também nas províncias, para onde as pessoas se mudam]. Mas ao menos as pessoas se sentem mais seguras", diz o economista.

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