Falta de consenso no fundo de perdas e danos pelo clima e COP27 pode prolongar-se

Falta de consenso no fundo de perdas e danos pelo clima e COP27 pode prolongar-se

À entrada para o último dia oficial da Conferência do Clima das Nações Unidas, no Egito, falta ainda um acordo unânime para a ajuda aos países mais pobres e vulneráveis no combate às alterações climáticas. A perspetiva de um prolongamento das negociações para sábado ganha força.

As divergências mantêm-se entre os hemisférios sul e norte, entre os países ricos e pobres, entre as economias desenvolvidas e as emergentes.

O secretário-geral da ONU pediu esta quinta-feira um "acordo ambicioso e credível" de apoio aos mais vulneráveis, mas António Guterres sentiu a quebra de confiança entre os participantes nesta COP27. Expressa, por exemplo, no representante de Vanuatu, um arquipélago com cerca de 80 ilhas no Pacífico ameaçado pela subida do nível do mar e pelos fenómenos climáticos extremos como secas e tempestades.

"Precisamos de estabelecer, nesta COP27, um mecanismo financeiro de perdas e danos. Com esse fundo de perdas e danos poderemos determinar o sucesso ou o falhanço desta nossa liderança coletiva", avisou Ralph Regenvanu, o ministro de Vanuatu para as Alterações Climáticas.

Estamos sem tempo, sem dinheiro e sem paciência.

A falta de progresso preocupa. A União Europeia avançou na quarta-feira com um pacote de mais de mil milhões de euros de ajuda para a adaptação de África, incluindo 60 milhões para perdas e danos, e pede celeridade numa decisão coletiva.

"Os países mais vulneráveis precisam urgentemente deste dinheiro e, se nos deixamos atolar em discussões intermináveis acerca da forma em que isto deve ser feito, acredito que não lhes estamos a fazer nenhum favor", alertou o vice-presidente da Comissão Europeia, Franz Timmermans, o responsável pelo chamado Pacto Ecológico Europeu (o European Green Deal).

Enquanto os países mais vulneráveis desesperam pelo aval dos mais ricos para o desejado fundo de perdas e danos, é muito provável que a conferência seja prolongada para um último esforço no sábado, mas mesmo assim a meta dos 100 mil milhões de dólares anuais já abordada em 2020 para ajudar os países mais pobres deverá continuar no papel.

Lula pede mudanças na ONU

Uma das estrelas desta COP27 tem sido Lula da Silva. O recém-eleito Presidente do Brasil apenas toma posse em janeiro, mas aproveitou o palco internacional no Egito, além da promoção das suas futuras políticas para a Amazónia, para pedir também mudanças no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

"A ONU precisa de mudar. A ONU não pode ficar apenas com os países que ganharam a II Guerra Mundial. Precisa de ter países africanos, países latino-americanos, países asiáticos", afirmou o Presidente-eleito do Brasil, recebendo uma salva de palmas.

Lula da Silva defendeu ainda o fim do privilégio de veto no Conselho de Segurança, lembrando que "o mundo de hoje não é o mesmo de 1945", o ano em que foi fundada a Organização das Nações Unidas, em consequência das conferências de Paz após o final da II Guerra Mundial.

Sobre o foco desta conferência, o sucessor de Jair Bolsonaro colocou-se ao lado de outros países mais vulneráveis perante o impacto das alterações climáticas e defendeu ser igualmente "urgente" a criação de "mecanismos financeiros para remediar perdas e danos causados" pelos fenómenos extremos provocados pelo aquecimento do planeta.