Falta d’água expõe várias comunidades do Rio e da Baixada Fluminense a riscos

Célia Costa e Geraldo Ribeiro
Anecy sobe escadaria: água, só em bica no alto do Morro dos Cabritos

RIO - Para muitos moradores do estado é difícil atender às recomendações das autoridades sanitárias de redobrar os cuidados com a higiene em tempos de coronavírus. Parte da população não tem água sequer para beber, quanto mais para lavar as mãos. A Ouvidoria Geral da Defensoria Pública do Rio de Janeiro lançou um apelo por informações sobre desabastecimento e, esta semana, recebeu cerca de 350 denúncias de moradores de dez municípios. Só na capital, o problema atinge mais de 30 bairros. Os dados vão ajudar o órgão a analisar possíveis medidas judiciais de emergência.

Há relatos de falta d’água em Santa Teresa, na Ladeira dos Tabajaras, na Rocinha e no Morro da Providência, entre outras localidades. A situação atinge ainda municípios da Baixada Fluminense, como Nilópolis, Mesquita e Nova Iguaçu. Na parte mais alta do Morro dos Cabritos, entre Copacabana e Lagoa, o desabastecimento é um drama que já dura 20 dias. Para ajudar o irmão, Michel Araújo da Silva subiu 250 degraus de uma escadaria da favela com baldes cheios, no começo da tarde de ontem:

— É difícil manter a higiene das mãos sem água em casa.

Vânia Ribeiro, vice-presidente da Associação de Moradores dos Tabajaras e do Cabritos, afirmou que o problema é recorrente, mas se agrava nesta época do ano. Uma equipe da Cedae esteve ontem na Rua Siqueira Campos, em Copacabana, para tentar consertar uma das bombas que abastecem as comunidades. O alívio durou poucas horas. No fim do dia, o equipamento parou de funcionar novamente.

— A bomba parada por 24 horas significa que vamos ter de esperar pelo menos cinco dias para o abastecimento ser normalizado — disse Vânia.

Outra moradora, a cozinheira Anecy Mariano da Silva, está com a caixa d’água vazia. Ela, que vem enchendo baldes e garrafas numa bica atrás da UPP dos Cabritos, mora com o marido, duas filhas e um neto, e já teve tuberculose.

As duas filhas de Anecy têm talassemia (distúrbio sanguíneo), o que as coloca em um grupo de risco. A situação leva a cozinheira às lágrimas.

—Aqui, se a gente não morrer de coronavírus, vai ser de fome ou sede — lamentou.

Em Santa Teresa, moradores enfrentam problemas de abastecimento desde o carnaval, disse Paulo Saad, presidente da associação de moradores do bairro.

— Tem gente que está lavando as mãos com água sanitária — afirmou o líder comunitário.

Em Édson Passos, na Baixada, a dona de casa Marilena Queiroz depende de um filho caminhoneiro que, diariamente, percorre dez quilômetros para levar 60 litros de água à sua casa.

— Só assim consigo fazer comida e tomar banho — contou Marilena.

A Cedae informou que o abastecimento está em processo de normalização nas comunidades dos Tabajaras e Cabritos. Técnicos já fizeram reparos na Rocinha e vêm realizando manobras para melhorar a distribuição na Providência. O mesmo é feito em Santa Teresa. A empresa nega que haja 30 bairros sem água no Rio, e lembra que disponibiliza o número 0800-282-1195 para solicitações.