Falta de concentração e evasão escolar: como a pandemia afeta a saúde das crianças

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Como a pandemia tem afetado as crianças e quais serão os danos? (Ilustração: Fer Ilustra/Yahoo Brasil)
Como a pandemia tem afetado as crianças e quais serão os danos? (Ilustração: Fer Ilustra/Yahoo Brasil)

Crianças mais ansiosas, dispersas e sem motivação para brincar. Estas são algumas das queixas feitas por pais em relação ao comportamento dos filhos desde o início do isolamento social no ano passado.

Com o fechamento das escolas e a falta de interação com amigos da mesma idade, ficou mais difícil elaborar uma rotina em que as crianças pudessem se sentir no ambiente escolar. A enfermeira Bárbara Petillo, 30 anos, é mãe de Eric, e conta que percebeu mudanças no filho, que tem quatro anos. Ela e o marido fizeram diversas brincadeiras em casa, mas chegou uma hora em que as ideias se esgotaram.

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O filho também se mostrava ansioso e sempre queria chamar atenção. “Percebi que ele recorria muito ao uso de telas, mesmo tendo brinquedos à disposição. Nós tentávamos brincar juntos, mas não retinha muito a atenção dele”, afirma.

O déficit de concentração do menino também foi outro problema observado pela mãe. “Foi muito mais complicado acompanhar o online. No começo, ele ficava irritado porque a professora não o ouvia e respondia de forma imediata. E fora que tinha aulas de inglês, música, educação física e era insustentável administrar e fazer todos os vídeos.”

Interação era melhor na escola

A designer gráfico Nadji da Silva Jorge, 32 anos, também sentiu diferenças no comportamento do filho Miguel, 13 anos. A escola, segundo ela, era o ambiente ideal para o garoto seguir e continuar com as aulas.

Ela conta que sentiu bastante as mudanças da pandemia e ainda teve um agravante: ele mudou de colégio no ano passado. “Ele se distanciou muito dos amigos dele e ainda não fez amizade com os novos alunos.”

Para Nadja, o filho ficou muito introspectivo e não tem vontade de conhecer novas pessoas “Ele assiste a aula, anota as coisas e é isso. Acaba e pronto. Não quer interagir com os novos amigos. E ainda estamos aguardando um possível diagnóstico de depressão, justamente por conta desse cenário e outros problemas familiares”, ressalta.

Uma das maneiras para amenizar e melhorar a saúde mental do garoto foi recorrer a saídas seguras e que podiam deixá-lo mais tranquilo. “No final do ano passado eu fiz uma viagem com ele à praia. Essa foi uma das coisas novas que tentei fazer. Acho que só assim ele pôde fazer algo diferente. E nesse ano, a gente tenta andar nas ruas às vezes, mas ele tem preferido ficar em casa”, conta.

Absorver o aprendizado também foi prejudicado passando maior tempo em casa. “O Miguel não tem celular ainda, justamente por ter um vício de ficar muito online. Não dei o aparelho, mas ele tem outras ferramentas. Não acredito que as crianças estão aprendendo nessa fase de pandemia. É muito desgastante.”

A manicure Michele Nunis também sentiu os impactos da pandemia no filho que tem cinco anos. Ela conta que o ensino online não oferece as mesmas coisas que o presencial e acaba prejudicando o aprendizado. “Caiu muito o rendimento. E como é a primeira vez dele na escola, no online ele não consegue aproveitar 100%. É bem diferente”, reforça.

A inquietude também foi outro ponto observado por ela. 

Ele ficou mais introvertido, mais nervoso e com baixa concentração

Ela conta que, às vezes, recorria a atividades lúdicas para desenvolver habilidades cognitivas e motoras. "Fazia atividade com massinha e outras coisas. Ele não aproveitava as aulas online. Era só 30 minutos e acaba com uma distração”, conta.

Falta do ambiente escolar pode causar danos graves

E as nossas crianças como ficam pós-pandemia? (Ilustração: Fer Ilustra/Yahoo Brasil)
E as nossas crianças como ficam pós-pandemia? (Ilustração: Fer Ilustra/Yahoo Brasil)

Evelise Portilho, psicopedagoga, pós-doutora em Educação e coordenadora do curso de Psicopedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), ressalta a importância do lugar físico para crianças e adolescentes estudarem. “No presencial, a gente trabalha a relação professor, conteúdo e é muito mais potencializado. Já na maneira híbrida, você não tem essa relação”, afirma.

Ela ainda ainda reforça as dificuldades que o ensino à distância possui e o quanto é desgastante administrar uma “sala online” com muitos alunos. “Não consigo ver todos, por exemplo. Uns porque não tem câmera boa, outros porque não gostam da aula dessa forma. O intermédio da tecnologia não é uma garantia para o ensino.”

Em longo prazo, a professora ressalta que a falta de interação no ambiente escolar potencializa sintomas de ansiedade e reclusão.

Ele ficou mais introvertido, mais nervoso e com baixa concentração

De acordo com a psicopedagoga, outro problema agravado pela pandemia e isolamento é a evasão escolar, principalmente no ensino público.

Sempre houve desigualdade, mas agora se potencializou. As escolas públicas têm mais dificuldade de manter o ensino remoto e não têm nem material básico como computadores. Isso faz com que os alunos desistamlamenta a especialista

Ilana Katz, psicanalista, doutora em educação pela Faculdade de Educação da USP, reforça a importância das crianças terem convívio com pessoas da mesma idade. “Todo esse período mostrou a falta que uma criança faz para a outra. Isso também se refletiu nos adultos”, ressalta.

A falta do ambiente escolar ainda abre espaço para deixar as crianças em situação de vulnerabilidade. “A escola é o primeiro lugar que acolhe as experiências de violência. A promoção da saúde mental também faz parte desse local. Uma criança sem escola está sem tudo isso”, finaliza.

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