Falta de oxigênio mata ao menos 19 e provoca "cenário de terror" em Manaus, diz sindicato

João Conrado Kneipp
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View of COVID-19 victims' graves at the Nossa Senhora Aparecida cemetery in Manaus, Amazonas state, Brazil, on January 13, 2021, amid the novel coronavirus pandemic. - In Manaus there is a shortage of hospital beds as cases increased at an alarming rate. The city, with two million inhabitants, had already experienced nightmarish scenes in April and May, with mass graves and refrigerated trucks parked in front of hospitals to pile up the dead. But the situation is even worse in the beginning of 2021, since between January 1 and 11, at least 1,979 people were admitted to hospitals due to the virus, against 2,128 for the whole month of April, the worst since the start of the pandemic. (Photo by MICHAEL DANTAS / AFP) (Photo by MICHAEL DANTAS/AFP via Getty Images)
Sem oxigênio, o Ministério da Saúde anunciou que irá começar a fazer a transferência de pacientes do Amazonas para hospitais de 6 estados. (Foto: MICHAEL DANTAS / AFP)

A falta de oxigênio nos hospitais de Manaus já matou, ao menos, 19 pacientes internados por Covid-19 entre o fim da noite de quarta (13) e manhã desta quinta-feira (14). Os relatos dos profissionais de saúde recebidos pelo Simeam (Sindicato dos Médicos do Amazonas) retratam um “cenário de terror”.

“Estamos recebendo relatos que são de um cenário de terror. Vídeos e áudios de colegas que estão vendo as pessoas morrendo na frente deles e não podendo fazer nada”, afirma o presidente do sindicato, Mario Rubens Macedo Vianna.

Segundo Vianna, há um número não confirmado de 40 mortes que poderiam estar relacionadas à insuficiência do estoque de oxigênio nos hospitais e pronto-atendimentos. “Esse número de 40 ainda não foi confirmado. Mas os números que o sindicato recebeu pela manhã são de 19 óbitos diretamente relacionados”, explica.

Diante da crise no abastecimento do produto, o Ministério da Saúde anunciou que irá começar a fazer a transferência de pacientes do Amazonas para hospitais de seis estados.

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A demanda por oxigênio da rede estadual de saúde, que era de cerca de 30 mil metros cúbicos por por dia em abril de 2020, no primeiro pico da pandemia, chegou a 76 mil metros cúbicos nesta quarta-feira (13).

O cenário é ainda mais crítico porque, ainda de acordo com o governo, a capacidade da fábrica de oxigênio hospitalar instalada em Manaus é de 28 mil metros cúbicos, o que gera um déficit diário de 42 mil metros cúbicos do produto.

As unidades de saúde mais afetadas pela falta de oxigênio são o Hospital Universitário Getúlio Vargas, Hospital Platão de Araújo, Hospital 28 de Agosto, o hospital do Instituto de Medicina Tropical de Manaus e o SPA (Serviço de Pronto Atendimento) São Raimundo.

“Basicamente todas as unidades estão tendo falta de oxigênio, mas essas são as que estão em situação mais crítica”, elenca Vianna.

Um vídeo feita por uma profissional de saúde no Hospital Platão Araújo mostra cinco pacientes “revezando” um único cilindro de oxigênio na mesma sala. “Gente, pelo amor de deus, é uma calamidade. Os médicos não sabem o que fazer", diz ela. “Precisamos de socorro urgente”.

PROFISSIONAIS DE SAÚDE EXAUSTOS E SOB ESTRESSE

Sem cilindros de oxigênio, a ventilação nos pacientes de Covid-19 em Manaus é feita de forma manual pelos profissionais de saúde. Profissionais de saúde estão usando as redes sociais para pedir doações de cilindros de oxigênio para a população.

“Tem colegas meus com alas de até 50 pacientes que precisam de ventilação mecânica manual. Médicos que precisam fazer essa manobra por 2 horas, 3 horas. Os médicos estão me ligando, profissionais experientes, estão em pânico, sem forças e sem condições de reagir nessa situação”, afirma o presidente.

Nos últimos dias, o Ministério da Saúde encaminhou 386 cilindros de oxigênio para Manaus por via aérea como medida paliativa. Também estão sendo encaminhadas balsas com mais cilindros.

Ao longo da quarta-feira, vários familiares de pacientes que estão sendo tratados em casa, parte pela falta de vagas, corriam atrás de reabastecer os cilindros de oxigênio alugados sem sucesso.

Brazilian emergency doctor Marcos Fonseca Barbosa (L) helps his mother Ruth Fonesca, 56, at his home in Manaus, Amazonas state, Brazil on January 10, 2021. - Marcos was forced to treat his own mother at his home even though she has severe COVID-19 symptoms, due to a shortage of hospital beds in the city, as cases increased at an alarming rate. Manaus, with its two million inhabitants, had already experienced nightmarish scenes in April and May, with mass graves and refrigerated trucks parked in front of hospitals to pile up the dead. But the situation is even worse in the beginning of 2021, since between January 1 and 11, at least 1,979 people were admitted to hospitals due to the virus, against 2,128 for the whole month of April, the worst since the start of the pandemic. (Photo by MICHAEL DANTAS / AFP) (Photo by MICHAEL DANTAS/AFP via Getty Images)
Familiares de pacientes que estão sendo tratados com oxigênio em casa também não estão conseguindo reabastecer os cilindros. (Foto: MICHAEL DANTAS / AFP)

Na terça (12), o presidente Jair Bolsonaro já tinha responsabilizado o governo estadual do Amazonas e a prefeitura de Manaus por "deixar acabar" o oxigênio que seria destinado aos pacientes de Covid-19. Ele disse que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, teve que viajar para a cidade para "interferir" na situação local, que segundo ele estava um "caos".

Manaus foi uma das cidades mais afetadas pela Covid-19 no início da pandemia, no primeiro semestre de 2020. Nos últimos dias, porém, o número de novos casos, mortes e internações estão pressionando as autoridades locais.

De acordo com a Prefeitura de Manaus, na quarta-feira foram registrados 198 enterros em um único dia. O maior número já registrado desde o início da pandemia. Segundo a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), nesta semana, o número de internações chegou a um pico diário de 250, quase o dobro do registrado no ápice da epidemia entre abril e maio de 2020.