Falta de embalagens e aumento de preços de marmitas, copo e canudo afetam delivery

Pollyanna Brêtas
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RIO — Depois de várias tentativas de comprar embalagens a vácuo com diversos fornecedores, Clarice Coutinho, dona do restaurante Poró, na Cidade Nova, ficou sem a mercadoria que utiliza para entregar encomendas aos clientes. No mês seguinte, o preço passou de R$ 0,13 para R$ 0,20, a unidade — uma alta de 53%.

O mesmo ocorreu até com as luvas para manipulação dos alimentos. Quando seu fornecedor voltou a oferecer o produto, o reajuste foi de 34%, com o valor passando de R$ 35 para R$ 47, o lote.

— O aumento foi de um mês para o outro. Até luvas de manipulação de alimentos e sacos craft nós tivemos dificuldade em encontrar. A embalagem de pote de açaí nós tivemos que parar que comprar porque o preço subiu demais e não compensava mais — avalia Clarice.

Ela acrescentou:

— Com a crise que todos enfrentam, tivemos em vários momentos que absorver os aumentos e fazer promoções no cardápio para manter os clientes e sustentar o negócio.

Outros itens essenciais ao trabalho de entrega de restaurantes, bares, cafés que tiveram que se adaptar ao delivery viraram raridade no mercado brasileiro, e isso tem prejudicado os comerciantes.

Entre os produtos em falta estão caixas de papelão, marmitas de isopor, talhares de plástico, luvas, copos e canudos. No caso das caixas de papelão, para alguns comerciantes a alta supera 150%, e a da marmitex passa de 30%.

A escassez dos produtos veio acompanhada da forte elevação nos preços. Itens como marmitex e talheres de plástico dobraram de preço, segundo os comerciantes.

Além disso, os fornecedores esticaram os prazos de entrega das encomendas e têm privilegiado compras coletivas. O cenário tem pressionado ainda mais a margem dos comerciantes e impactado também os consumidores.

Dona do Café Quatro Marias Boulangerie, em Penedo, Angélica Souza Lacerda conta que a casa não chegou a ficar sem embalagens, mas, nas linhas de isopor e de papelão, o aumento dos preços chegou a 100%. Mesmo assim, eles absorveram a alta e não repassaram o aumento aos clientes:

— Não tem como reajustar os preços toda hora, até porque os preços dos insumos estão parecendo uma montanha-russa. Estamos segurando qualquer reajuste na pandemia para continuar fidelizando a clientela, mas acho que do meio do ano não passa. Tem muita coisa aumentando — conta Angelica.

Demora na produção

Gerente executivo da Associação dos Produtores de Queijo da Canastra (Aprocan), Higor Freitas explica que, quando o estoque de embalagens acabou, e os produtores começaram a fazer novos pedidos aos fornecedores, a matéria-prima havia chegado ao fim na fábrica.

A previsão de chegada de uma nova remessa seria de três meses. O jeito foi improvisar com outros tipos de embalagem para não atrasar as entregas aos clientes:

— Nós ainda não conseguimos superar essa crise de falta de embalagem. A caixa individual, por exemplo, sofreu aumento de preço de 112%. As caixas coletivas, para 20 queijos, pela qual pagávamos R$ 3 antes da pandemia, agora custa R$ 8, R$10, e mesmo assim com um material que não tem a mesma qualidade — ressalta Higor, acrescentando que os produtores reduziram suas margens de lucro para não repassar o reajuste integralmente aos consumidores.

A prévia de fevereiro do IGM-P, da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou que os preços dispararam 27%, em 12 meses. Segundo o economista da instituição André Braz, o grupo de embalagens pesou no cálculo:

— Tem matéria-prima que subiu 65%, como os sacos têxteis. As embalagens de plásticos tiveram alta de 45%. As garrafas e os frascos de plástico subiram 34,9%, em 12 meses. Como todo mundo foi às compras ao mesmo tempo, a indústria não deu conta de tantos pedidos. A retomada das atividades pegou uma indústria com estoque baixo e desmobiilizada. E não é do dia para noite que vai se ajustar — explica Braz.

Além disso, as empresas já precisaram reduziram o ritmo de atividade por falta de matéria-prima. Quem consegue produzir não pode distribuir o produto por falta de embalagens de papelão, plástico e vidros.

— Antes da pandemia, os restaurantes se abasteciam de embalagens maiores para armazenar os produtos. Depois que os restaurantes passaram a entregar mais os alimentos, houve a necessidade de comprar pequenos potes e unidades fracionadas. Foi um desafio para a indústria e os fornecedores — enfatiza o presidente da Associação Brasileira de Embalagens, Marcos Barros.

Barros ressalta:

— A indústria começou a trabalhar forte para suprir este mercado e a cadeia de suprimentos. Mas até voltar de ponta a ponta leva de seis meses a um ano depois de uma parada na cadeia produtiva.

Normalização só no meio do ano

Vários fatores contribuíram para a falta de embalagens, desde a parada de produção no início da pandemia, a escassez de matéria-prima na indústria e até o crescimento da demanda provacada pelo delivery.

O primeiro fator que explica a falta de insumos nos últimos meses foi um desarranjo das cadeias produtivas a partir do isolamento social e do fechamento das unidades produtivas. Depois, quando a atividade começou a ser retomada, e os varejistas precisaram comprar para repor estoques, as indústrias estavam com a produção ainda reduzida e sem estoques para atender à demanda do comércio e dos fornecedores.

Além disso, a combinação de alta de preços das commodities com a escalada do dólar gerou uma pressão nos preços do mercado interno de produtos como algodão, aço, alumínio, papel e celulose.

Para o presidente da Associação Brasileira de Embalagens, Marcos Barros, outro fator que gerou descompasso foi a mudança na natureza dos pedidos. Se antes havia maior demanda por produtos e embalagens maiores, o apetite por embalagens menores para atender às entregas e delivery, especialmente de alimentos.

— A indústria prevê uma certa estabilização entre a oferta e a demanda no segundo trimestre. Na metade do ano, estamos esperando que tudo volte ao normal. O papel e papelão são os últimos a se estabilizar, porque foram os que mais sofreram pela falta de insumo na cadeia. Houve falta em alguns segmentos, especialmente o de pequenos consumidores de embalagens — observa Barros.

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas e Flexíveis (Abief), o setor de embalagens flexíveis registrou uma produção de 562 mil toneladas, uma alta de 8,8% no terceiro trimestre do ano passado em comparação ao trimestre anterior. No acumulado de janeiro a setembro de 2020, a produção chegou a 1,588 milhões de toneladas.

A justificativa é a aplicação das embalagens flexíveis em itens de primeira necessidade, como alimentos, bebidas, varejo, entre outros. A indústria de alimentos continuou sendo o principal cliente e absorvendo 203 mil toneladas.

O desempenho do setor só não foi superior porque houve redução da oferta de matérias-primas como resinas e outros insumos (aditivos e pigmentos) e embalagens de outros tipos (caixas de papelão). As indústrias do setor atuaram com estoques reduzidos, o que comprometeu a produção.