Falta de estatísticas e campanhas de informação dificultam prevenção de acidentes com ciclistas

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RIO — Os números são desconhecidos. Não há estatísticas de órgãos oficiais que retratem a realidade dos ciclistas e o número de acidentes que eles sofrem no Rio de Janeiro. O atropelamento e morte do taxista aposentado Cláudio Leite da Silva, de 57 anos, no Recreio, na última segunda-feira, expõe, mais uma vez, os riscos enfrentados pelos praticantes do esporte: eles estão sujeitos a quedas, atropelamentos, má conservação de estradas, falta de sinalização e imprudência de motoristas, entre outros fatores. Enquanto acidentes se tornam cada vez mais frequentes, entidades representativas cobram mais políticas de apoio e segurança para os ciclistas e promoção do uso da bicicleta.

— A falta de estatísticas de acidentes de trânsito, principalmente com ciclistas, prejudica a implementação de políticas públicas e impede a identificação dos locais críticos. Os dados facilitariam a correção do problema, resultando na diminuição dos acidentes, que podem ocorrer por uma falha na sinalização ou uma irregularidade na pista — exemplifica o advogado Marcio Dias, especialista em trânsito e presidente da Comissão de Direito de Trânsito da OAB/Barra.

Esta é também uma crítica do triatleta e fundador da Comissão de Segurança no Ciclismo da Cidade do Rio de Janeiro (CSCRJ), Raphael Pazos. Ele ressalta que não há uma padronização dos dados das entidades socorristas, como Corpo de Bombeiros, Samu e Polícia Militar.

— Como promover políticas públicas se não existem dados estatísticos que comprovem onde há o maior número de acidentes? — questiona. — Quem acaba sabendo dos riscos e divulgando isso somos nós, os próprios ciclistas.

Procurado, o Corpo de Bombeiros confirmou que o sistema para levantamento de dados da corporação não tem o filtro “acidentes com ciclistas”, pois o registro é feito pelo tipo de ocorrência, como colisão ou atropelamento. A PM também respondeu que não tem dados específicos sobre atropelamentos de ciclistas. E a prefeitura disse que o número de atropelamentos e mortes deveria ser solicitado ao governo do estado, “provavelmente ao Corpo de Bombeiros”.

— É necessário um trabalho conjunto entre os órgãos de trânsito e de saúde do município e do estado para fazer um mapeamento dos acidentes, identificar o motivo da ocorrência e diminuir o número de vítimas, assim como os gastos do SUS com atendimentos — observa Marcio Dias.

Mais segurança beneficiaria economia

Como diz Raphael Pazos, se os órgãos públicos não mapeiam os pontos críticos de acidentes para ciclistas, são eles, as vítimas potenciais, que aprendem a conhecer os perigos e tomam providências para evitá-los. Quem pedala pela região de Barra, Recreio, Vargem Grande e Vargem Pequena, seja por lazer, a trabalho ou como exercício, aponta que os problemas de conservação e manutenção das pistas são muitos, o que eleva os riscos de queda. Porém, a maior dificuldade é mesmo a conscientização dos motoristas.

— A população desconhece que a bicicleta é um veículo de condução humana. Ouvimos sempre que devemos pedalar na ciclovia, mas o ciclista é autorizado a trafegar pelas ruas das cidades. Inclusive, quando estão treinando, esportistas não podem usar a ciclovia, por causa da sua velocidade — enfatiza Pazos.

De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, a velocidade máxima em ciclovias e ciclofaixas deve ser de 20 Km/h, o que impede os atletas de pedalarem nestes espaços. Quando estão treinando, eles podem atingir a velocidade de 40 Km/h.

Para tentar driblar a falta de consciência dos motoristas, assessorias de treinamento para ciclistas em competição contratam carros e motos como batedores para segui-los e acompanhar os treinos, realizados por grupos grandes. A engenheira Carolina Aguiar, de 37 anos, começou no esporte há cinco anos e enfrenta problemas diariamente:

— Entendo que os motoristas possam ficar impacientes e não querem esperar todos passarem. Mas eles não entendem a sensação de quem está na bicicleta, que há um deslocamento de ar que nos empurra quando eles passam grudados em nós, e que por isso podemos cair — lamenta, lembrando que a distância entre um carro e uma bicicleta deve ser de um metro e meio.

Ela conta ter percebido uma diminuição das operações Lei Seca no município durante o ano passado, o que aumentou a audácia de motoristas imprudentes rodando de madrugada, quando o treino de esportistas é mais comum. O jeito foi passar a sair de casa mais tarde e evitar o horário de volta de bares e festas:

— Dividir as ruas com os carros é muito complicado, porque nós e os pedestres somos os elos mais fracos.

A discussão sobre os riscos enfrentados pelos ciclistas é reacesa cada vez que ocorre uma tragédia como a da última segunda-feira no Recreio. Como de hábito, o aposentado Cláudio Leite da Silva pedalava, pouco antes das 6h, na Avenida Lucio Costa quando foi atingido por um carro em alta velocidade.

Outros acidentes fatais têm sido registrados na região. Em 2019, o empresário Artur Vinícius Sales morreu após ser atropelado por um ônibus durante um treino em grupo na Avenida Embaixador Abelardo Bueno, na Barra. Em 2017, o empresário Hélio Crespo não resistiu aos ferimentos após ser atropelado próximo à Praia da Reserva.

Sustos, então, são muitos. Em 2016, em plena Olimpíada do Rio, um atleta de Kosovo foi atropelado na Avenida das Américas, na altura do Recreio, dias depois de competir na prova de ciclismo de estrada.

Pelo fato de o Rio ser uma cidade olímpica, aliás, apontam ciclistas, turistas de outros estados chegam à cidade com o desejo de refazer o circuito da prova pela orla, entre os bairros de Copacabana e Grumari.

— A cidade tem um legado olímpico que incentiva o cicloturismo. É preciso instalar radares de velocidade e sinalização vertical e horizontal para alertar que há ciclistas na pista. A prefeitura perde ao não investir no esporte turístico, na cultura esportiva, no respeito ao próximo, em ciclorrotas e na divulgação de informação — afirma o aposentado Marcos Antonio Jacques Castello.

Ele voltou a pedalar há quatro anos e reclama que o sufoco é diário:

— As pessoas não têm consideração, amor ao próximo, educação de trânsito e direção defensiva. Eles nos dão susto, freiam bruscamente, passam rente a nós.

Na semana passada, associações lançaram uma petição on-line, no site Avaaz, solicitando sinalização prioritária para ciclistas no circuito olímpico. No texto de apresentação, elas lembram que “a Barra se transformou no point dos ciclistas cariocas” depois da Olimpíada do Rio.

— Falta diálogo entre os órgãos municipais e estaduais e ações integradas, já que as secretarias alegam escassez de verbas. Campanhas de educação e conscientização no trânsito são fundamentais e reduzem o custo do SUS. Vale a pena salvar vidas — afirma Pazos.

O Rio é a única cidade do Brasil a ter três Áreas de Proteção ao Ciclismo de Competição (APPC): uma no Porto, a mais recente; outra no Aterro do Flamengo; e uma terceira na Praia da Reserva, que funciona às terças e quartas, das 4h30m às 5h30m. Os espaços também são fechados em dias específicos durante a madrugada e a manhã para o treino de ciclistas esportivos. Mas quando estão fora da APPC, os atletas da Barra e do Recreio acumulam reclamações. Entre os pontos mais críticos para pedalar, seja por falta de respeito aos ciclistas ou por má conservação da pista, ausência de sinalização ou iluminação precária, estão a própria Praia da Reserva (fora do horário da APPC) e as avenidas Lucio Costa, das Américas e Salvador Allende.

Procurada, a Secretaria de Conservação afirmou que faz vistorias constantes e realiza manutenção periódica nas ruas da cidade. Já a Secretaria de Educação ressaltou que projetos de educação no trânsito serão desenvolvidos pela nova gestão e divulgados quando estiverem para ser implementados.

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