Falta de grana matou cultura da ostentação e levou jovens ao pancadão na rua, diz documentarista

ARTUR RODRIGUES
**ARQUIVO** SÃO PAULO, SP, 01.12.2019: BAILE FUNK-PARAISÓPOLIS - Pichação em local onde acontecia o baile funk que terminou com nove mortos, em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O documentarista Renato Barreiros, 41, acompanhou de perto a cena do funk em São Paulo nas últimas duas décadas. Nesse período, fez dois documentários sobre o assunto, Funk Ostentação e No Fluxo. 

Como subprefeito de Cidade Tiradentes, no extremo leste da cidade, entre 2008 e 2010 (gestão Gilberto Kassab), tentou concorrer com a cultura da época dos chamados proibidões, de apologia ao crime. Criou o Festival de Funk de Cidade Tiradentes, os chamados "permitidões". 

Desde então, viu nascer e morrer a cultura do funk ostentação, com a ascensão e queda da nova classe média, e proliferação dos pancadões de rua. 

"O jovem está sem grana. Onde ele vai se divertir? Na rua. A rua é o pancadão, é o fluxo. Na época do funk ostentação, os bailes de salão, as casas noturnas atraíam muito mais esses jovens. Você ouvia muito falar do camarote, hoje você ouve falar do baile de favela", disse. 


PERGUNTA: Como surgiu seu envolvimento com o funk?

RENATO BARREIROS: Depois dos ataques do PCC, o PCC tinha virado um mito na periferia. Tinha uma música do MC Keké, que era: 'Cinco dias de terror, o Brasil parou pra ver, quem manda, quem manda, quem manda é o PCC'. Aí a gente queria de alguma maneira fazer o funk, mas que não tivesse apologia ao crime. A gente criou o festival de funk de Cidade Tiradentes. Tiveram três edições, de lá saíram alguns MCs de funk que fizeram sucesso, meio que lá começou a surgir o funk ostentação. Era aquela época de governo Lula, nova classe média. E comecei a me envolver com o funk. 


P: Mesmo com repressão policial, os bailes funks são onipresentes na periferia de São Paulo. A que atribui a força desse fenômeno?

RB: Hoje a taxa de desempregados entre 18 e 24 anos é de mais ou menos 25%, é o dobro da média nacional. O jovem está sem grana. Onde ele vai se divertir? Na rua. A rua é o pancadão, é o fluxo. Na época do funk ostentação, os bailes de salão, as casas noturnas, atraíam muito mais esses jovens. Você ouvia muito falar do camarote, hoje você ouve falar do baile de favela. Está retratando a realidade atual do jovem. O jovem não tem dinheiro, vai para onde? Vai para a rua. 


P: Então, a falta de dinheiro matou o funk ostentação? 

RB: Sim. O funk ostentação morreu na nossa crise econômica. Não só ostentar, mas é questão de perspectiva, 25% de desemprego entre os jovens, o cara não acha que vai ter muito dinheiro um dia. Sobra o quê? Dez, quinze reais para os meninos gastarem no final de semana. Vai na rua comprar um corote [bebida destilada popular entre jovens] e gasta lá. 


P: Que tipo de funk substituiu?

RB: Hoje em dia há uma questão sexual bem maior.  


P: Incidentes envolvendo a polícia e pessoas feridas são comuns na cena do funk de SP. Como vê essa relação?

RB: Em 2008, quando comecei como subprefeito a propor uma solução, e a gente chegou a fazer os bailes funks permitidão em Cidade Tiradentes, os policiais falavam para gente assim: 'estou cansado de enxugar gelo. Vou lá, disperso, daqui uma hora está de volta'. Então, pelos policiais que eu conversava na época, já mostrava que não dava resultado. O que vai dar resultado aos pancadões é uma política cultural que você tenha concorrentes pro baile funk. Então, se você fizer uma grande ocupação cultural em Paraisópolis, com atividades gratuitas para os jovens, isso minimiza muito o baile. 


P: Há uma questão dúbia envolvendo os bailes nas ruas. Por um lado, suprem lazer em áreas carentes; por outro, causam transtornos e têm ilegalidades como venda de drogas. Como lidar essa questão?

RB: Eu não defendo os bailes funk do jeito como são hoje. Tem sérios problemas, menor de idade, ouvindo música que não é própria, super sexualizada, tem consumo de droga, consumo de bebida alcoólica num lugar onde tem menor de idade. Eu não defendo de maneira alguma o que existe hoje. O poder público ainda não tomou com seriedade devida a cultura e lazer para os jovens. Nessas áreas de alta vulnerabilidade têm que ser oferecidas alternativas para os jovens. Se tiver festa legal, de graça e organizada pelo poder público, o jovem vai.


P: Como lidar com a questão do tráfico, que, em alguns casos, atua na organização de bailes?

RB: Eu acho que não é foco do crime organizado. Se existe uma aglomeração de pessoas, lógico que vão tentar vender bebida e drogas. A polícia tem que estar lá para coibir esse tipo de atitude, mas não acho que seja o grande negócio lucrativo nem que todos os fluxos sejam organizados pelo crime organizado. Acho que existe uma mística por trás disso. O que existe muito mais é um monte de gente numa festa e alguém vai aparecer para vender droga. Acho que poder público organizando as festas de uma maneira legal você coíbe isso, e envolvendo a Polícia Militar e a GCM. 


P: Qual é o papel da polícia em relação aos bailes?

RB: O que eu acho é que não dá pra colocar a discussão como tem que atuar ou não. Se chegou na hora de ter o baile, já está errado. A coisa tem que ser antes. Por que a Secretaria de Cultura Municipal não organiza uma festa todo sábado à noite, cede palco, som, coisa e tal e chama a polícia para organizar? Foi o que a gente fez nesses bailes funks permitidão em Cidade Tiradentes. Então, a polícia estava ali para organizar e, obviamente, coibia o que fosse crime. Agora, na hora que você tem 5.000 pessoas com não sei quantos carros parados, já é caos. Não pode ser uma questão de polícia, tem que ser uma questão de cultura. 


P: Como funcionavam os permitidões?

RB: A prefeitura tinha uma estrutura de palco, luz e som e a gente pegava os MCs de funk locais. Aí a gente convidava ele e os DJs, tinha cuidado com as músicas, porque tinha menor de idade, então não podia ser apologia a crime e a drogas, e rolava a tarde inteira. Evitava que na área cercada pudesse entrar ambulante com bebida alcoólica. Tinha polícia presente, bem como a GCM ali. Com isso a gente conseguiu zerar o número de pancadões em Cidade Tiradentes na época. Começava a partir das 17h, com artistas locais, e chegava 22h, 22h30, acabava. Havia algumas vezes que a polícia tinha que dispersar, mas era outro clima, porque a polícia já estava organizando desde lá de trás, já se proibia bebida alcoólica para menor de idade. 


P: Mesmo com proibições, houve bom público?

RB: Com certeza. A maioria dos jovens não vai nisso por causa da droga. Tem gente usando droga... A maioria dos jovens está na escola, quer encontrar a menininha da classe dele que gosta, os amigos. A resposta é essa: onde é esse local de sociabilidade? A resposta é essa. 


P: Que tipo de iniciativa falta hoje?

RB: Faltam políticas públicas levando em conta que a juventude vai sair para se divertir no sábado, no final de semana.