'Falta reforma sistêmica no ensino', diz especialista sobre estagnação do Brasil no Pisa

Bruno Alfano

RIO — A solução para voltar a crescer no é uma reforma "sistêmica" do ensino brasileiro. Essa é a avaliação de André Vieira, analista de pesquisa e avaliação na Fundação Roberto Marinho e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

— De certa forma, era esperada pelo país não ter conseguido fazer reformas mais estáveis — afirma André, que também é pesquisador associado ao Laboratório de Pesquisa em Ensino Superior (Lapes) da UFRJ.

O Brasil está estagnado entre os piores níveis de aprendizado avaliados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).

A média brasileira ficou em 413 no quesito Leitura (57º do mundo), 384 em Matemática (70º) e 404 em Ciências (64º). As notas são levemente mais altas do que o último resultado, de 2015, mas insuficientes para serem consideradas um avanço, segundo o relatório da OCDE.

Por que 43% dos brasileiros que fizeram a prova não conseguiram o mínimo nas três avaliações?

A série histórica mostrou estagnação nas três áreas do conhecimento, e o desempenho em Matemática continua muito ruim. Como a OCDE enfatiza, a solução passa por uma reforma sistêmica. A gente tem uma formação de professor deficitária e precisa que ela seja mais atrelada à prática pedagógica. Ao mesmo tempo, também tem que melhorar as condições do ensino dado, como a infraestrutura da escola. Atualmente, o aluno acumula um baixo desempenho desde o início da educação básica até chegar aos alunos de 15 anos (que fazem a prova). Por isso uma política de educação infantil é importante, além de outras medidas suplementares, como a política de alfabetização e mecanismo de financiamento, como o Fundeb.

A estagnação surpreende?

De certa forma, era esperada pelo país não ter conseguido fazer reformas mais estáveis. Isso é consistente com a série histórica. Olhando o Pisa como um filme, analisando desde o começo das avaliações, em 2000, a gente vê que o desempenho de 2018 em Leitura nem sequer é diferente de 2003. Ou seja, oscilamos e voltamos ao patamar de mais de uma década atrás. Sem as políticas sistêmicas, continuaremos oscilando na margem.

A diferença dos alunos mais pobres em relação aos mais ricos é de 97 pontos. Isso é muito?

Na escala do Pisa, 35 pontos equivale a um ano letivo de aprendizagem. Então, a diferença entre os mais ricos e os mais pobres são dois anos e meio letivos de aprendizagem. É uma disparidade bastante considerável que indica a desigualdade do país. Essa disparidade de aprendizagem vai se acumulando e gerando consequências nas etapas seguintes de ensino até chegar a afetar a expectativa de cada grupo para cursar uma universidade.