'Imploramos pela Força Nacional', diz família de jornalista desaparecido na Amazônia

A família do jornalista britânico Dom Phillips foi ao Twitter para apelar ao governo brasileiro que priorize as buscas aos desaparecidos na Amazônia. Phillips e o indigenista Bruno Pereira, servidor licenciado da Funai, estão sumidos desde ontem no rio Itaquaí. Eles navegavam perto do município de Atalaia do Norte, no Amazonas.

“Imploramos às autoridades brasileiras que enviem a Força Nacional, a Polícia Federal e todos os poderes à sua disposição para encontrar nosso querido Dom”, escreveu Paul Sherwood, um cunhado de Phillips. “Ele ama o Brasil e dedicou sua carreira à cobertura da floresta amazônica. Entendemos que o tempo é essencial, então, por favor, encontre nosso Dom o mais rápido possível”.

A mensagem foi replicada pelo jornalista Jonathan Watts, colega de Phillips no jornal inglês The Guardian, que também foi correspondente no Brasil.

Procurada, a embaixada britânica em Brasília informou que acompanha as buscas e que está em contato com as autoridades brasileiras. Além disso, oferece apoio consular aos familiares do jornalista inglês.

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Ambos desapareceram enquanto faziam o trajeto entre a comunidade ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte. Bruno Araújo era alvo constante de ameaças pelo trabalho que vinha fazendo junto aos indígenas contra invasores na região, como pescadores, garimpeiros e madeireiros.

Força-tarefa

O governo federal monta uma força-tarefa no município de Tabatinga, no Amazonas, para se concentrar nas buscas do indigenista brasileiro Bruno Pereira, ex-coordenador de Índios Isolados da Fundação Nacional do Índio (Funai), e do jornalista inglês Dom Phillips, desaparecidos há mais de 24 horas na região do Vale do Javari, no Amazonas. A equipe será integrada por agentes da Polícia Federal, oficiais da Marinha e do Exército, por bombeiros, servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), Defesa Civil e Força Nacional de Segurança.

A informação foi confirmada ao GLOBO por fontes ligadas às buscas. Na noite de ontem, uma busca foi feita, sem sucesso, por integrantes da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). Nesta manhã, três servidores da Funai e dois agentes da Força Nacional de Segurança seguiram em nova operação para procurar os desaparecidos a partir da base de vigilância da Funai no rio Ituí.

— A equipe nossa da base Ituí iniciou outra busca hoje pela manhã. As buscas têm que ser por via fluvial, com embarcações — disse Leandro Amaral, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari — Ainda não encontramos resquícios dos desaparecidos.

Segundo o Ministério Público Federal no Amazonas, um procedimento administrativo foi instaurado hoje para apurar os desaparecimentos. O MPF informou em nota que acionou a Polícia Federal, a Polícia Civil, a Força Nacional, a Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, e a Marinha do Brasil. “Esta última já confirmou ao MPF que conduzirá as atividades de busca na região por meio do Comando de Operações Navais”, diz a nota.

“O MPF seguirá intermediando as ações de buscas e mobilizando as forças para assegurar a atuação integrada e articulada das autoridades, visando solucionar o caso o mais rápido possível”.

Registros de ameaças

Um servidor da Funai que pediu para não ser identificado para evitar retaliações afirmou que eles estavam em um acampamento na margem de um rio participando de uma vigilância na terra indígena. Segundo relatou o servidor, um grupo armado apareceu e os ameaçou. A suspeita de integrantes da Funai no local é de que os dois podem ter sido alvo de uma emboscada, uma vez que a ação do grupo armado foi registrada pelo jornalista inglês.

O Vale do Javari é a região com a maior concentração de povos isolados do mundo.

Os dois desaparecidos viajavam com uma embarcação nova, com motor de 40 HP e 70 litros de gasolina, o suficiente para a viagem.

Segundo a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), eles chegaram ao local de destino, o Lago do Jaburu, na sexta-feira passada, por volta das 19h25. No domingo, os dois retornaram logo cedo para a cidade de Atalaia do Norte. No entanto, pararam antes na comunidade São Rafael, em uma visita previamente agendada, para que o indigenista Bruno Pereira fizesse uma reunião com o comunitário apelidado de “Churrasco”, com o objetivo de consolidar trabalhos conjuntos entre ribeirinhos e indígenas na vigilância do território, bastante afetado pelas intensas invasões.

Bruno Pereira é considerado um dos indigenistas mais experientes da Funai e e profundo conhecedor da região, onde foi Coordenador Regional da Funai de Atalaia do Norte por cinco anos. É também membro do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente (Opi) e muito respeitado pelos indígenas.

Dom Phillips é um jornalista freelancer britânico que se mudou para o Brasil em 2007, com passagens por São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Além do The Guardian, Phillips já colaborou para o Financial Times, New York Times, Washington Post, Bloomberg, Daily Beast, revista de futebol Four Four Two e o jornal de energia Platts, entre outros. Phillips é atualmente bolsista da Alicia Patterson Foundation e 2021 Cissy Patterson Environmental Fellow.

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