Família de jovem negra de Nova Friburgo se revolta com abordagem policial: ‘De quem você roubou esse telefone?’

A jovem Amanda Ferreira, de 21 anos, foi acusada de estar com celular roubado
A jovem Amanda Ferreira, de 21 anos, foi acusada de estar com celular roubado
Gilberto Porcidonio

Uma jovem de 21 anos foi vítima de uma abordagem de viés racista praticada por policiais militares perto do Morro da Cordoeira, em Nova Friburgo, na última quarta-feira. A missionária Amanda Ferreira estava a caminho de um estudo bíblico na comunidade quando foi abordada por dois agentes. De forma truculenta, eles a acusaram de roubo por ela estar com um celular novo. Apesar do aparelho ser dela, a abordagem abusiva continuou.

Em um devido momento, um dos PMs chegou a perguntar: "De quem você roubou esse telefone?". Depois que a jovem mostrou as conversas que tinha no aparelho, a nota, o recibo e até o código de rastreio do telefone, um dos policiais perguntou, ironicamente: "Com que dinheiro você vai pagar isso?". Neste momento, Amanda retira um cachepô (cesto confeccionado em malha) da bolsa para mostrar que está fazendo eles para vender, mas mesmo assim as dúvidas continuaram por parte dos policiais. Ela só foi liberada, sem retratações ou pedido de desculpa, quando as pessoas começaram a se aglomerar para ver o que ocorria.

O caso ganhou notoriedade quando o pai de Amanda, Matheus Barros, postou um vídeo que já teve mais de 49 mil visualizações onde, muito emocionado e revoltado, relata o ocorrido. No dia seguinte, Matheus foi procurado por representantes do Batalhão de Nova Friburgo que pediram desculpas pela abordagem. Por enquanto, Amanda prefere não se manifestar sobre o acontecido.

— Ela está muito bem e, na verdade, isso foi o que, no primeiro momento, nos assustou muito porque isso reflete que ela se portou com normalidade. Ela me falou que "isso é normal, pai" e que não é a primeira vez que acontece. É o oprimido se acostumando a ser oprimido e, como ela morava literalmente dentro da comunidade, então isso era mais habitual ainda — disse Matheus, que tem outros dois filhos com sua esposa e convive com Amanda há três anos desde que o pai biológico dela morreu:

—  Eu trabalho com projetos sociais e ela começou a ser atendida nossa lá, fazendo jiu-jítsu, aula de História, e fomos criando um vínculo muito forte ao longo desses 7 anos, com ela passando os fins de semana com a gente. Só não chega a ser uma adoção formal porque, quando assumimos ela como filha, já era maior de idade.

Na próxima quinta-feira, a jovem e o seu pai devem prestar depoimento em um procedimento que foi aberto pela corporação.

"A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar esclarece que a Corporação, como tem demonstrado ao longo de sua história, não compactua e pune com o máximo rigor desvios de conduta cometidos por seus membros.

Sobre o referido episódio, o comando do 11º BPM (Friburgo), assim que tomou conhecimento dos vídeos, determinou imediatamente a instauração de um procedimento para apurar as circunstâncias do fato."