Família relata luta de três dias por transferência de paciente com Covid-19 para leito de UTI

Arthur Leal
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Na noite desta quarta-feira, 893 pessoas com coronavírus esperavam na fila pela chance de conseguir um leito em um hospital público no estado do Rio. Desses, 674 apresentavam um quadro grave e precisavam de uma vaga em UTI. Moradora da Mangueira, a vendedora Patrícia Paiva Leivas, de 50 anos, sabe bem o que essa estatística significa. Há dez dias, ela, o marido e o filho foram diagnosticados com Covid-19. Mas o estado do marido, o funcionário público Fernando Alves Prodanoff, de 54 anos, agravou-se, e, na sexta, ele foi levado às pressas para a Coordenadoria de Emergência Regional (CER) do Leblon, com saturação de oxigênio em 80% — nível bem abaixo do normal. Começava ali uma via-crúcis.

— Quando chegamos à CER, botaram ele no oxigênio. Dez horas depois, ele ainda não tinha feito exame de sangue, nem tomografia e só piorava. Então, o levei, com muito custo, para o Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca, onde detectaram que ele estava com 50% dos pulmões comprometidos e trombose. No dia seguinte, já estava em 60% — conta a vendedora.

O marido foi levado de volta para a CER, onde enfrentou a falta de leitos e de ambulância. A espera durou três dias: em dois, ela conseguiu vaga no Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz, mas ainda precisou aguardar 18 horas pelo transporte.

— Mesmo já com trombose, ele ficou aguardando sentado na ala amarela. Tamanho era o meu desespero que eu contratei uma ambulância por R$ 9 mil, mas eles acabaram conseguindo uma já no fim da noite de domingo — lembra Patrícia.

Procurada, a Secretaria municipal de Saúde afirmou que o paciente foi transferido tão logo houve disponibilidade de vaga. Acrescentou que o leito estava disponível na manhã de terça, mas que o paciente recusou, o que foi negado pela família. Fernando continua internado em estado grave na Fiocruz.

O número de doentes que não conseguem de imediato um leito de UTI começou a disparar no estado a partir do dia 13 de março, quando a fila tinha 64 pessoas. De lá para cá, o pico foi registrado em 28 de março (710 pacientes): um aumento acima de 1.000% em apenas duas semanas.

A taxa de ocupação de unidades de terapia intensiva para doentes com Covid-19 estava em 91,6% nesta quarta-feira. Na capital, a pressão também é grande, com lotação de 92% e 151 infectados à espera de vaga.