Famílias mudam hábitos e vão até a Justiça para salvar filhos da crise do clima

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*** FOTO DE ARQUIVO *** Sob chuva, manifestantes e população protesta contra a crise climática, durante a COP26, em Glasgow. (Foto: Ana Estela de Sousa Pinto/Folhapress)
*** FOTO DE ARQUIVO *** Sob chuva, manifestantes e população protesta contra a crise climática, durante a COP26, em Glasgow. (Foto: Ana Estela de Sousa Pinto/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pensar em inundações, temperaturas extremas e aumento de doenças respiratórias, entre outros cenários alarmantes da atual crise climática, não traz tranquilidade a ninguém. Muito menos a quem acabou de dar à luz um filho e precisa garantir que o mundo continue a ser um lugar minimamente habitável.

Diante das evidências cada vez mais contundentes da emergência dos problemas ambientais, famílias com crianças e adolescentes têm tomado medidas diversas para reagir à situação. Elas vão de ações individuais a coletivas.

Durante a COP26, a Conferência da ONU sobre mudanças climáticas realizada em novembro, pais e mães de 44 países, incluindo o Brasil, assinaram uma carta pedindo urgência ao fim do financiamento de todas as novas explorações de combustíveis fósseis.

"Ao abraçarmos nossos filhos com força, tememos por sua saúde e bem-estar e, agora também pelo futuro que enfrentarão", diz trecho do documento. "As crianças são o futuro, e elas merecem ter um."

Quem representou o Brasil na iniciativa foi o grupo Famílias pelo Clima, que surgiu em 2019 e hoje reúne cerca de 40 pais e mães.

Também na semana passada eles entraram com ação contra o Governo de São Paulo para barrar medida do Programa IncentivAuto, que oferece subsídios ao setor automotivo.

Ações como essas são importantes para os pais mostrarem aos filhos que, embora a crise climática seja grave, há o que fazer para enfrentá-la, diz JP Amaral, coordenador do programa Criança e Natureza, do Instituto Alana.

Ele ressalta que muitas crianças têm demonstrado muita apreensão e ansiedade diante das informações sobre a situação e que é preciso acolhê-las com conversas e ações.

"Pais são eleitores e tomam diariamente decisões sobre consumo, e ao fazerem isso de forma consciente, eles mostram que há uma saída", afirma.

É o que pensa a produtora Clara Ramos, 42, integrante e uma das fundadoras do Famílias pelo Clima.

"A crise traz uma angústia muito grande. Colocar-se de forma ativa te tira de um lugar paralisante", diz.

A postura ativa pode se dar tanto com a militância ambiental quanto com ações cotidianas.

Elas estão presentes em cada cômodo da casa da arquiteta Débora Diniz, 36, em Niterói (RJ).

Ela sempre foi atenta ao tema, por inspiração da mãe, mas a preocupação aumentou depois de ter uma bebê, hoje com um ano e sete meses.

A lembrancinha que Débora elaborou para o chá de fralda, uma sacola reutilizável, já trazia a mensagem de incentivo para que os adultos pudessem entregar um mundo melhor às crianças.

O móbile foi feito com cipó, e a primeira água dos banhos da recém-nascida era sempre reutilizada na máquina de lavar.

Quando a menina fez um ano, ganhou corpo um incômodo que Débora sentia com todas aquelas fraldas descartáveis. Trocou por reutilizáveis.

A medida se junta a uma série de adaptações que a arquiteta fez na casa para reduzir o desperdício: composteira, garrafa na caixa da descarga para reduzir o uso de água, balde no chuveiro para coletar a água do banho.

"Quando a gente tem filho, aumenta a preocupação [com o meio ambiente] porque a gente quer ser sempre um exemplo do melhor", diz. "Poder melhorar todo dia em razão de alguém que chegou é uma baita oportunidade."

Há quem veja de outra forma, é claro. Em todo o mundo, a crise do clima tem levado pessoas a desistir de ter filhos.

Pesquisa feita com jovens de dez países mostrou que os brasileiros entre 16 e 25 anos são os que mais hesitam em ter filhos por causa das mudanças climáticas —a proporção corresponde a 48% dos entrevistados.

Para Amaral, do Instituto Alana, é uma decisão individual que deve ser respeitada, mas ele avalia que seria uma pena um mundo sem crianças, muitas delas hoje protagonistas da luta pelo combate às mudanças climáticas —basta lembrar da sueca Greta Thumberg, símbolo do ativismo ambiental.

E se ter filhos aumenta a apreensão de muitos pais em relação ao futuro do planeta, foi o que trouxe maior tranquilidade à empresária Alice Satin, 39.

Ela era advogada e morava na capital paulista quando engravidou do primeiro filho, em 2014, e começou a se preparar para o parto.

Alice conta que foi uma certa surpresa para ela, que trabalhava rodeada de planilhas, entender que seu corpo já sabia parir e, depois, nutrir o filho com a amamentação. Era mais simples do que a vida que levava até então fazia parecer.

"Lembro de pensar: sei elaborar todo tipo de contrato, mas se precisar fazer minha roupa ou minha comida eu não vou conseguir."

Uma semana depois de Francisco nascer, ela e o marido se mudaram para o interior, onde começaram a cultivar plantas medicinais em uma propriedade rural da família.

Em sociedade com outra mãe, ela abriu a empresa Soovack, que faz cosméticos naturais.

Ela diz que sua maior proximidade da natureza lhe deu mais tranquilidade para enfrentar a situação.

"É possível que meus filhos não possam viajar para a Europa porque o combustível não vai ser tão acessível, é possível que tenham acesso a menos bens de consumo e que passem por uma crise hídrica", reconhece.

"Mas hoje tenho menos medo porque sei limpar um rio, sei fazer um ecossistema mínimo para ter uma cultura de subsistência. A maternidade te abre um processo de autoconhecimento enorme. Se você estiver disponível, é potencializador."

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