Familiares de jovens mortas na Rocinha não acreditam que briga entre elas tenha sido a causa da morte

A irmã mais velha de Analice Mendes, uma das jovens encontradas sem vida em uma casa na Rocinha na madrugada desta quinta-feira, Silmara Mendes, não acredita que as amigas de infância tenham brigado até a morte. A atendente contou ao GLOBO que a irmã era uma pessoa dócil, meiga e muito próxima à família. Em depoimento à polícia, Silmara afirmou desconfiar de que Analice e a amiga tenham sido assassinadas, já que dentro do imóvel não havia sinais de luta corporal, objetos quebrados e manchas de sangue no quarto.

Além disso, os celulares das duas vítimas (um Iphone e um Smartphone) e o RG da Estephany não estavam na cena do crime. O único local da casa com sangue, segundo ela, era o banheiro onde foi encontrado o corpo da irmã.

— Eu espero que a polícia encontre o responsável e faça justiça. Minha irmã não brigou com a amiga. Ela era uma pessoa calma, não era de se envolver em briga. Tudo indica haver uma terceira pessoa. Quero que isso se resolva logo e, se houver culpado, que ele seja preso— pontuou Silmara.

As duas amigas foram localizadas por familiares, já sem vida, dentro da casa onde Estephany morava com a tia, na comunidade da Rocinha, conhecida como "Raiz". Estephany estava na cama com um corte profundo no pescoço e sem muitas manchas de sangue.

Já Analice estava de bruços, deitada no chão do banheiro, com uma faca de serra na mão. A porta do imóvel estava trancada, sem sinal de arrombamento e com as luzes apagadas. Do lado de fora, vizinhos disseram não ter ouvido nenhum barulho.

Analice Mendes, 20, e Estephany Paiva, 19, se conheceram ainda criança no Ceará, na localidade de Caveira, terra natal delas, e estavam no Rio há poucos meses. Analice se mudou no início do ano e Estephany há dois meses. Segundo parentes, as jovens eram "inseparáveis".

Maria de Fátima, prima de Analice, contou que a jovem teria ido visitar Estephany na quinta-feira à noite, por volta de 19h30. Ela avisou ao marido que não demoraria, mas não voltou para casa. Cerca de 22h da noite, segundo a prima, o marido da jovem tentou contato pelo celular, porém não foi atendido. Maria relata que ele não desconfiou que algo pudesse ter acontecendo já que era comum Analice visitar a amiga que morava próximo à casa deles.

— A tia da Estephany, que mora com ela, chegou em casa e a encontrou morta em cima da cama. Depois viu a Analice no banheiro. Ninguém sabe o que aconteceu. Elas eram muito amigas. Ninguém entende. Ninguém ouviu nada. Nenhum vizinho ouviu barulho — diz Maria.

Carlos Ryan Paiva, de 22 anos, irmão mais velho de Estephany, trabalha como garçom em um estabelecimento em Ipanema, na Zona Sul do Rio. Na noite em que a irmã foi morta, disse que recebeu uma ligação da tia, por volta de 1h33 da manhã, avisando que "Estephany tinha feito besteira". No momento, ele não fazia ideia do que tinha ocorrido. Chegou em casa, deixou a mochila e foi até o encontro delas achando que a irmã estava machucada.

— Minha tia me ligou chorando, ela estava muito nervosa. Disse que minha irmã não estava bem e que tinha sangue. Eu já estava em casa essa hora e fui até a casa dela ver o que tinha acontecido. Quando cheguei lá, vi o corpo das duas — afirmou Ryan.

Estephany chegou ao Rio há duas semanas para morar com a tia, Helena Alves, na Rocinha, em uma localidade conhecida como "Raiz". Já foi casada e morava em São Paulo com o ex-marido. Segundo o irmão da vítima, ela não comentava muito sobre o término do relacionamento, mas dizia "estar bem e recomeçando com força no trabalho".

— A gente estava planejando passar o ano novo na praia, mas isso (as mortes) acabou com a família. Nesse momento não dá para saber nada. Minha irmã era uma pessoa de bem. No Natal, ela me disse que não estava se relacionando com ninguém. Ela queria trabalhar e batalhar para conseguir as coisas dela no futuro. Eu conheço as duas, nunca teve briga entre elas, sempre se deram muito bem. Acho que alguém matou elas — afirmou Ryan.

A Polícia Civil informou, em nota, que a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) foi acionada para a ocorrência e que diligências estão em andamento para apurar as circunstâncias do crime. Também por nota, a Polícia Militar informa que policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Rocinha foram acionados na madrugada desta quinta-feira para verificar ocorrência, onde encontraram duas pessoas já mortas.

Os corpos das jovens já foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML) onde vão passar por perícia para constatar a causa das mortes. A família de Analice disse que ela será enterrada no Ceará numa cerimônia restrita aos parentese e amigos. Já os familiares da Estephany pretendem abrir uma vaquinha online para conseguir dinheiro e também enviar o corpo da jovem para o Nordeste.