Famoso contraventor é assassinado no Rio em guerra que já dura mais de 20 anos

JÚLIA BARBON
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Um dos mais conhecidos contraventores do Rio de Janeiro foi assassinado na tarde desta terça (10) em um heliporto no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste carioca. Fernando Iggnácio era genro de Castor de Andrade, um dos maiores bicheiros cariocas, que sofreu um infarto em 1997 enquanto cumpria prisão domiciliar. A morte é mais um capítulo da guerra pelo controle de pontos de bicho e caça-níqueis que acontece desde então na cidade, e agora pode desencadear uma nova onda de assassinatos. Iggnácio teria sido alvo de disparos após desembarcar de um helicóptero, voltando de Angra dos Reis. A perícia foi até o local, que fica ao lado de um terreno baldio de onde o criminoso pode ter atirado. Circulam em grupos de policiais fotos do corpo com disparos que parecem ter atingido o rosto e membros do contraventor, mas a Delegacia de Homicídios não confirmou informações sobre o caso. A disputa na família começou porque, antes de morrer, o capo Castor (chefe, em italiano) partilhou seu espólio do jogo do bicho entre o sobrinho Rogério de Andrade e o filho Paulinho, enquanto o genro Iggnácio ficou com as máquinas caça-níqueis. Paulinho acabou sendo morto junto com um segurança no ano seguinte, em 1998, na Barra da Tijuca, num caso que terminou com a prisão apenas do pistoleiro (um ex-PM) e sem a punição dos mandantes. Quem assumiu seu lugar foi, então, Iggnácio, gerando uma disputa com Rogério pela hegemonia da zona oeste. Ambos os inimigos chegaram a ser presos em 2006: Rogério usava cabelo comprido, cavanhaque e lentes azuis quando foi pego numa blitz da Polícia Federal, após ficar foragido por três anos; Iggnácio foi encontrado em um apartamento de luxo em São Conrado, na zona sul do Rio. Eles foram alvos de uma operação da PF que investigava policiais civis e militares que lhes garantiam proteção, com base em interceptações telefônicas. Gravações feitas na época também mostraram que eles obtinham privilégios e continuavam comandando as quadrilhas de dentro da cadeia. Mesmo assim, os dois foram soltos em 2009 após conseguirem habeas corpus do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Rogério, que é presidente de honra da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, chegou a ser preso de novo por dois meses em 2018 e depois ganhou liberdade condicional. O histórico de ataques entre eles é longo. O mais famoso aconteceu em 2010, quando o filho de Rogério de 17 anos morreu num atentado no Recreio dos Bandeirantes. Ele foi atingido por uma bomba colocada sob o banco do motorista e endereçada ao pai, que sobreviveu mas teve que passar por uma cirurgia de reconstituição da face. Iggnácio já sofria ameaças recentes antes de morrer. Em junho, a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio prenderam integrantes do apelidado Escritório do Crime, um grupo de matadores de aluguel. Eles pesquisaram na internet a compra de uma metralhadora .50 para assassinar Iggnácio, segundo as investigações. Foram presos Leonardo Gouvêa da Silva (Mad) e seu irmão Leandro (Tonhão), mas outros dois integrantes da quadrilha continuam foragidos: João Luiz da Silva (Gago) e Anderson de Souza Oliveira (Mugão). O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MP) suspeitava que eles haviam sido contratados por Rogério.