Fanáticos por aviões, spotters fazem tudo para garantir a melhor imagem

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Especializada em educação, a bióloga Gisele Almeida, 40, a Gisele Orquídea, saiu apressada da escola onde trabalha no centro de São Paulo, por volta das 23h do último dia 16 de novembro. Pegou equipamento fotográfico e seguiu para uma praça no Parque Industrial de Guarulhos, na região metropolitana.

Chegou com um amigo ao local em tempo de registrarem a passagem de um avião cargueiro Boeing 747 com trem de pouso abaixado, programado para descer as 2h no aeroporto ao lado.

Orquídea é desde a adolescência uma plane spotter, observadora de avião, na tradução literal. O termo é originário da Segunda Guerra Mundial, quando pessoas eram encarregadas de avistar aviões e dar o alerta de um possível bombardeio.

Com o tempo, fotografar e filmar aeronaves em locais próximos a aeroportos se tornou hobby ou forma de ganhar dinheiro, e que atrai cada vez mais apaixonados por aviação.

A preferência vai desde o melhor ângulo, aeronaves exóticas ou a coleção de prefixos de uma empresa área como se fosse um álbum de figurinhas. Material que é exposto em redes sociais e em inúmeros sites especializados.

Só o Aeroporto Internacional de Guarulhos tem cerca de 600 pessoas cadastradas à espera de convites para "spotter days", quando o local é aberto a esses fanáticos em pontos autorizados, com boa visualização —os eventos, que ficaram suspensos nos últimos dois anos por causa da pandemia, voltaram a ser realizados em 2022.

Mas não é preciso ser convidado para entrar em aeroporto e mirar a câmera para o céu. São morros, beiradas de rodovias, terraços ou quartos de hotéis, imóveis em andares altos, ou qualquer via pública perto de pistas de pouso e decolagens que fotógrafos e cinegrafistas transformam em lugar nobre que garantam o toque da roda na pista ou o spray de água formado em dias de chuva.

O lugar onde Orquídea foi esperar o cargueiro no mês passado, a praça Baquirivu, é um desses pontos de Guarulhos —não dá para ver a pista, mas os aviões passam muito baixo.

Antes de chegar à praça, a fotógrafa checou a direção do vento para saber se o 747 iria pousar na pista 10, que tem a cabeceira ali perto.

Para quem quer um pouco de conforto, por R$ 88, dá para passar o dia em um terraço no sexto andar do hotel Hampton, da rede Hilton, com vista privilegiada para o aeroporto.

Segundo o gerente de hospedagem Jackson Lima, no valor está incluído almoço e um kit com protetor solar. A taxa não é cobrada para hóspedes. "Devemos investir na estrutura do local em 2023."

"Antigamente, precisávamos dar bombons à mocinha da Infraero [estatal que administra aeroportos] para tentar a informação de que algum avião diferente iria pousar", diz Orquídea, fanática por aeronaves desde a infância e que tem como preferida uma foto do Antonov AN-225, clicada em 2016 em Guarulhos —o gigantesco cargueiro foi destruído em fevereiro passado no aeroporto de Hostomel, na Ucrânia, durante na guerra com a Rússia.

DESDE CEDO

No início da adolescência, o estudante de relações internacionais Erik Bueno Barbezan, 21, morava no Jabaquara, bairro da zona sul paulistana, e tinha o aeroporto de Congonhas como quintal de casa. Foi nessa época que viajou para os Estados Unidos, em um Boeing 777, e pegou gosto pelos ares. Na volta, não teve dúvidas: emprestou a câmera da mãe e começou a fotografar os aviões que passavam baixinho em cima da residência da família.

Oito anos depois, Barbezan tem curso de comissário de bordo e está esperando concluir o ensino superior para buscar emprego na área.

Hoje ele mantém uma página no Instagram, a CGHspotter (das iniciais de Congonhas), onde publica suas fotos.

Mas o aeroporto da zona sul não é exclusivo nos sobe e desce que registra. "Em 2016, peguei uma ponte aérea, passei a tarde fotografando em uma ruazinha perto da área militar do Santos Dumont [Rio de Janeiro] e voltei para São Paulo à noite."

No caso do franco-brasileiro Rafael Barretto Cruz, 55, o o barulho dos motores parece literalmente estar dentro de casa. Ele costumava subir em um muro próximo ao Aeroporto Internacional do Recife com um grupo de amigos para fotografar aviões, até que em fevereiro passado, a turma resolveu alugar um imóvel vazio na comunidade Parque da Aeronáutica, em que há uma laje a 100 metros da pista de pouso e decolagens. "A vista é perfeita."

O aluguel mensal da casa, de R$ 300, é dividido por dez amigos, que ainda dão mais R$ 10 cada como uma espécie de condomínio para pagamento de despesas e melhorias no imóvel, segundo explica Cruz, que trabalhou como recepcionista da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) só para ficar dentro de um aeroporto, e que tem no portfólio a foto de um Concorde, da Air France, em Brasília.

O grupo interage com a comunidade. No último Dia da Criança, levou meninos e meninas do bairro para observarem aviões na laje, com direito a doces e refrigerantes.

AO VIVO

Foi da sacada de uma sala comercial no décimo andar de um prédio vizinho a Congonhas que uma das câmeras do engenheiro de informação Eduardo Gorio, 39, filmou, ao vivo, em outubro, a passagem descontrolada de um jatinho, soltando fumaça na pista por causa do estouro de um pneu que iria provocar o fechamento do aeroporto e o cancelamento de mais de 230 voos.

O vídeo, que tem mais de 2,1 milhões de visualizações, foi filmado por uma das dez câmeras que Gorio tem apontadas para os aeroportos de Congonhas, Guarulhos, Campo de Marte, na zona norte paulistana, e Viracopos, em Campinas (a 93 km de SP).

Elas transmitem 24 horas por dia no YouTube a movimentação nesses aeroportos, no canal Golf Oscar Romeo.

As câmeras são comuns de monitoramento, mas o engenheiro pretende investir na compra de equipamentos mais modernos. Atualmente, diz, o canal, que é sustentável, tem um gasto mensal de aproximadamente R$ 2.500 com aluguel de espaço, como a varanda do prédio vizinho a Congonhas, internet nos pontos de instalação e energia elétrica.

"Em agosto, tive autorização para fazer a transmissão do Domingo Aéreo da Força Aérea em Pirassununga [SP]", afirma Gorio, que começou a registrar aviões como um spotter comum. "Ainda acordo cedo e passo o domingo no morrinho [de Guarulhos]."

Foi neste mesmo evento promovido pela Aeronáutica que o designer e fotógrafo Osvaldo Furiatto, 50, realizou o sonho de congelar o voo rasante de um caça A-4 Skyhawk, da Marinha.

"O caça é um avião pequeno e muito rápido, por isso é preciso técnica e bom equipamento para conseguir as melhores imagens", afirma.

O fotógrafo de Campinas, apesar de ser especializado em fotografias de aviação militar, é figurinha carimbada em morros no entorno da rodovia Santos Dumont, ao lado de Viracopos, de onde registra a chegada de cargueiros, como os que trazem carros de Fórmula 1 para o Grande Prêmio Brasil.

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LOCAIS PARA 'SPOTTEAR' EM SÃO PAULO

GUARULHOS

Morrinho de Guarulhos

R. Benfica, Jardim São João

Spotting point praça Baquirivu

Av. Lauro de Gusmão Silveira, parque industrial

Hotel Hampton by Hilton Guarulhos Airport

R. Pedro de Toledo, 1.000, Jardim Guarulhos

R$ 88, das 8h às 18h, com direito a almoço e kit com protetor solar. Hóspeda não paga a taxa

CONGONHAS

Memorial 17 de julho

R. Baronesa de Bela Vista, 203, Vila Congonhas

Morrinho de Congonhas

R. Correia de Almeida, 185, Jabaquara

Hotéis com vista para o aeroporto para se hospedar

Ibis: R. Baronesa de Bela Vista, 801, Vila Congonhas

Eslaviero R: Baronesa de Bela Vista, 499, Vila Congonhas

VIRACOPOS

Spotter point Azul

Ao lado do hangar de manutenção da companhia

Morrinho da Santos Dumont

Junto à rodovia, em frente ao hangar da Azul

Pedreira

Ao lado do aeroporto

NO INTERIOR

A concessionária Rede Voa abriu círculos nas cercas dos aeroportos de Jundiaí, Sorocaba e Interior para facilitar a visão dos fotógrafos