Fanatismo: O que move a obsessão de fãs pelos seus ídolos?

Emicida em show no Lollapalooza Brazil 2022 com fãs.
Emicida em show no Lollapalooza Brazil 2022 com fãs. Foto: Mauricio Santana/Getty Images

Resumo da notícia:

  • Fanatismo: O que move a obsessão extrema de fãs pelos seus ídolos?

  • Em conversa com a psicóloga Shana Wajntraub, refletimos sobre a devoção fanática

  • Analisamos o perfil de um fanático e o que move essa devoção pelos artistas

Depois de dois anos de pandemia, a experiência surreal de conferir os artistas ao vivo e a cores novamente finalmente pode ser sentida como nos velhos tempos. Com festivais e shows voltando com tudo no ano de 2022, a dedicação de fãs devotos e extremamente saudosistas da experiência de ver o ídolo de perto também está de volta - mesmo que com ingressos caríssimos em alguns eventos.

No entanto, há uma parte da população que leva o conceito de fanatismo ao limite e nos deixa curiosos sobre o que move uma obsessão tão grande por alguém que, muitas vezes, nunca saberá de sua existência. Uma prova disso é o esgotamento em minutos dos shows superfaturados de Justin Bieber e Coldplay em São Paulo com ingressos de pista premium no valor de mil reais.

Em conversa com psicóloga Shana Wajntraub, mestranda em comunicação e análise de comportamento pela Manchester Metropolitan University- UK, analisamos o perfil de um fanático, o que move essa devoção e o que define esses sentimentos de adoração.

Justin Bieber no palco do Coachella 2022.
Justin Bieber no palco do Coachella 2022. Foto: Kevin Winter/Getty Images

A Cultura da Celebridade

De acordo com a especialista, muitos estudos tem identificado uma "cultura da celebridade", iniciada a partir da segunda metade do século XX, com o surgimento e difusão dos meios de comunicação em massa em diversas culturas. "Em tais modos de comunicação, aprendemos a acompanhar e gostar de pessoas as quais somos expostos e com as quais criamos identificação e vínculo afetivo", declara.

"Importante frisar que tal fenômeno tem como base uma propensão natural que temos em criar vínculos de identificação e de afetividade com outras pessoas. Contudo, na comunicação em massa, acompanhamos a vida de pessoas e aprendemos a gostar delas, mesmo que, normalmente, nunca as conheceremos na vida real", completa ela, que explica que essa relação de ligação é chamada de parasocial, quando vem de um lado só.

Estágios do Fanatismo

Shana informa que autores descrevem o comportamento de fanatismo em três estágios. "Primeiro, os fãs tendem a se encontrar e formar grupos onde compartilham a sua experiência de devoção. Segundo, aparece um interesse em acompanhar a vida da celebridade mais intimamente e em detalhes", explica.

"Por fim, o fã pode criar uma identificação excessiva e e se tornar obsessivo. Tal comportamento é similar ao de vício, onde a pessoa necessita cada vez mais de níveis maiores e mais profundos de experiência com o estímulo de desejo (seja a droga ou o ídolo), e o comportamento devocional à celebridade pode se tornar cada vez maior para tentar satisfazer suas necessidades psicológicas", completa. Inclusive, em qual estágio você se identifica?

Chris Martin em show do Coldplya na final do
Chris Martin em show do Coldplya na final do "The X-Factor", em 2021. Foto: Marco Piraccini/Archivio Marco Piraccini/Mondadori Portfolio via Getty Images

O perfil do fanático

Apesar de não estabelecer uma personalidade definida no fanatismo, a psicóloga diz que existem características que tendem a ser identificadas e que têm sido apontado em estudos no tema. "Por exemplo, os estudos têm identificado que tal comportamento tende a ser mais comum em adolescentes", afirma.

"Além disso, há fatores de personalidade, como maior grau de neuroticismo (mais propensos a ter instabilidade emocional) e psicoticismo (mais propensos a ser hostil e agressivo), maior tendência à valores materiais, ou maior timidez", continua.

Os fatores comportamentais e cognitivos, como comportamento obsessivo, tendência à fantasia e rigidez de pensamento são outras características levantadas por Shana."Também é comum identificar problemas de autoestima e fanatismo entre pessoas com vínculo afetivo do tipo inseguro", informa.

"Entre adolescentes, estudos encontraram casos de abandono parental ou distanciamento entre o jovem e seus pais. Contudo, importante lembrar que tais características não vão surgir em todo caso de fanatismo, ou seja, tais achados são gerais entre tais pessoas, mas indicam possíveis padrões de personalidade", ressalta.

Tudo pelo show

Sobre o superfaturamento dos shows com um público que, em maioria, não tem condição financeira necessária e se endivida para conseguir comprar ingressos, a profissional destaca que o comportamento de endividamento é algo similar ao comportamento de vício em jogos ou substâncias. "Em todos esses casos, o sujeito cria uma necessidade de estar perto do estímulo desejado, mesmo que isto incorra em riscos ou perdas à longo prazo", analisa.

Figura Pública X Pessoa Física

Para Shana Wajntraub, a distância do fã com a realidade pessoal do artista acaba dificultando a divisão do que é a figura pública e do que a pessoa física fora dos palcos e gravações. "Dificilmente [há essa distinção], uma vez que o fã não tem uma experiência real com a celebridade, sendo a exposição associada à figura pública e aos valores e significados usualmente apresentados na mídia", conclui.

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