Fantasia de Putin leva bate-bolas às ruas para 'segundo Carnaval' no Rio

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RIO DE JANEIRO, RJ, 22.04.2022: CARNAVAL-RIO - Bloco de rua
RIO DE JANEIRO, RJ, 22.04.2022: CARNAVAL-RIO - Bloco de rua

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Com presidente da Rússia, Vladimir Putin, com uma mira sniper na testa como ilustração da camiseta, grupo carnavalesco Descontrole saiu às ruas nesta quinta-feira (21) no Rio de Janeiro.

O grupo faz parte da tradição dos bate-bolas ou clóvis, adaptação de "clown" (palhaço em inglês), fantasias carnavalescas características do subúrbio do Rio.

Os primeiros grupos de clóvis surgiram no começo do século 20 na então capital do país. Sua origem não é certa, mas tem influência dos portugueses e da Folia de Reis.

Com 20 Carnavais na região de Irajá, zona norte da capital fluminense, o grupo Descontrole desta vez se juntou a um irmão mais novo de brincadeira, o Constelação, que movimenta a comunidade de Vila Aliança, na zona oeste, há sete anos.

Neste ano, o grupo escolheu uma iconografia que remete à guerra, posicionando-se a favor da Ucrânia e contra o presidente russo.

"O bate-bola se pauta pelo que tem de mais atual acontecendo", diz Fábio de Araújo 32, um dos donos do grupo Descontrole.

Esta é a segunda vez que o grupo vai às ruas neste ano, já que já haviam desfilado em fevereiro. Os organizadores destacam o esforço hercúleo para pôr o bloco na rua: tiveram que resolver em dois meses o que normalmente demora um ano para organizar.

Em fevereiro, o grupo desfilou com o tema Jesus Cristo, buscando uma pauta mais universal para abordar o primeiro bate-bola desde o começo da pandemia. Desta vez, a ideia foi fazer, por meio da indumentária branca, um apelo à paz na Europa.

"A gente vê eles matando geral, até criança, isso incomoda. A ideia veio e só fizemos", complementa Fábio, que integra o grupo desde a concepção e trabalha há uma década no Detran.

Por se tratar de uma união de grupos amigos oriundos de bairros distantes, eles se dividiram em dois dias.

No primeiro, 21 de abril, em torno de 30 dos 50 integrantes do Constelação se deslocaram da zona oeste para o subúrbio do norte carioca para brincar nas ruas com a centena de pessoas que compõem o grupo mais velho. Nesta sexta (22), uma parcela do Descontrole foi para a zona oeste.

Apesar de grupos de clóvis andarem lado a lado, formando aliança até por proteção contra os de bairros inimigos, juntar-se em prol de um mesmo conceito e fantasia é algo tido como raro, fruto da confluência de ideias.

No começo da tarde de quinta, a Polícia Militar, segundo relatam os membros do Descontrole, pediu que a festa não ocorresse como de costume, pois alguns moradores se incomodavam com o barulho do carro de som.

Membro do grupo Descontrole desde a fundação, o ajudante de caminhão João Ricardo Júnior, 28, contemporiza. "Até tem vizinhos que não gostam, porque o barulho das nossas músicas é alto e a rua fica trancada, mas não é comum terminar em denúncia com a polícia, não."

No desenrolar do dia, a fim de contornar uma possível fiscalização, os donos do grupo mudaram o local de concentração três vezes.

A brincadeira que começaria no meio da tarde acabou desfilando apenas após o anoitecer. Crianças, adolescentes e adultos se juntaram para ver o desfile.

Fábio de Araújo relata lidar com preconceito contra os bate-bolas por parte de amigos das zonas nobres da cidade. Mas diz que esta percepção muda no momento em que conhecem a festa.

"Já trouxe vários amigos para cá e provei que não era o que pensavam. Agora, eles vêm direto", afirma Araújo, destacando a importância de descentralizar os desfiles no Carnaval.

"Bloco tem no centro, na zona sul aos montes. A gente não pode porque a gente é pobre. Eles querem levar todo mundo para o centro, onde está o dinheiro."

Uma fantasia de bate-bola custa em média R$ 1.000. A arrecadação começa nos primeiros meses do ano, a partir do pagamento de uma mensalidade de R$ 100 por participante.

Por se tratar do segundo desfile no ano, os bate-bolas de Irajá desta vez vestiram roupas com o mínimo de tintura e enfeites possível, cortando o custo de R$ 1.000 para R$ 500 por pessoa.

O dinheiro é aplicado em tecido, tinta, buá, glitter e no tênis definido como oficial daquele ano.

Além disso, os recursos vão para o carro de som, as costureiras das fantasias e as bexigas -nome dado paras bolas amarradas em cano, usadas normalmente para bater no chão e emitir sons de aviso da chegada do grupo.

Parte da confecção é feita num barracão de bairro, tal qual nas escolas de samba. Oito a dez pessoas se dedicam à produção da roupa. Em troca, ganham descontos na mensalidade.

Ao final, quando acaba a brincadeira, a roupa do ano é vendida para quem tiver interesse ou doada às crianças do bairro.

"Essas daí tão andando fantasiadas com as roupas do ano passado o dia todo", explicou João Ricardo Júnior, apontando para um grupo de dez crianças e adolescentes adornados de clóvis.

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