Fantasma da inflação paira sobre Olimpíada de Paris de 2024; orçamento já cresceu 19%

AP - Lewis Joly

Paris já está na contagem regressiva para receber a Olimpíada de 2024, que se inicia daqui a dois anos (26 de julho) na cidade. Mas num contexto de alta da inflação e de incertezas na economia mundial, o custo final do evento tira o sono do comitê organizador – o orçamento já subiu 19% desde a atribuição dos Jogos à capital francesa, em 2017.

Lúcia Müzell, da RFI

Que o gasto real de um grande evento esportivo sempre é maior do que as estimativas iniciais, não é novidade. Desta vez, porém, um componente inesperado entrou na equação: a inflação, “impossível de imaginar até poucos meses atrás”, como descreveu uma auditoria do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Paris (Cojop), revelada à instância internacional (COI) em maio.

O orçamento da Olimpíada em Paris disparou desde o começo do ano, um reflexo direto da escassez de matérias-primas no mundo e da guerra na Ucrânia. As obras que restam a finalizar já são impactadas, mas o economista do esporte Christophe Lepetit, Centro do Direito e da Economia dos Esportes da Universidade de Limoges, observa que Paris 2024 fez questão de impor cláusulas de revisão dos valores dos contratos para a maioria das construções para os Jogos.

“É uma forma de gerenciar os riscos e poderá ser interessante para evitar uma explosão preventiva do orçamento, ou pelo menos para limitar a alta ao real aumento da inflação”, afirma.

Efeito bola de neve nos custos

Não é só a subida dos valores do material de construção civil e do frete internacional que preocupam. A inflação pode resultar também em aumentos salariais, o que geraria um efeito de bola de neve sobre os custos da Olimpíada de Paris.

Uma revisão do orçamento deve ser apresentada no fim do ano. O presidente do Cojop, Tony Estanguet, antecipou, em entrevista ao jornal Le Monde, que “sim, a inflação vai impactar na Paris 2024 e precisaremos redobrar a vigilância”.

Do custo total do evento, estimado em € 8 bilhões até agora, 97,5% serão financiados por receitas privadas, como as do Comitê Olímpico Internacional (COI), dos patrocinadores e da bilheteria. Mesmo assim, a explosão dos preços preocupa a cúpula do governo francês, que realizou nesta segunda-feira (25) uma reunião extraordinária para avaliar as consequências da alta dos preços na finalização das obras. O objetivo de Jogos “sóbrios”, uma tendência das últimas Olimpíadas, se mostra ainda mais pertinente.

Mas embora 95% das competições ocorrerem em infraestruturas já existentes ou temporárias – para reduzir os custos e o impacto ambiental –, as falhas no orçamento inicial começam a aparecer. As provas de equitação, previstas para acontecerem no castelo de Versalhes, deverão custar entre € 60 milhões e € 70 milhões – quase o triplo do valor orçado.

“Maldição do vencedor”

A título de comparação, os Jogos Olímpicos não têm saído por menos do que €10 bilhões há várias décadas. “É um típico caso da maldição do vencedor do leilão, já modelizado na economia do esporte. As cidades-candidatas têm a tendência de minimizar os custos da realização dos Jogos, para conseguir vencer a disputa”, sublinha. “Uma vez que elas ganham, precisam fazer de tudo para cumprir as promessas da candidatura. As explosões do orçamento quase sempre são ligadas às infraestruturas necessárias. Isso aconteceu em Tóquio, mas também em Atenas, Rio, Pequim etc.”

Face a um orçamento que transborda, o Cojop tem duas alternativas: economizar e encontrar novas fontes de recursos. Para a primeira, resta a etapa da organização, uma vez que a fase de construções já foi lançada.

“Há margens de manobra, como em relação a certas exigências do COI, que poderiam cair, e na coordenação entre as diferentes entidades francesas, como as prefeituras de Paris e de outras cidades que receberão modalidades”, destaca o especialista. “Há um trabalho de racionalização possível e, se necessário, de diminuição da envergadura de alguns programas que estavam previstos, ou até o cancelamento deles, se quiserem mesmo manter o orçamento.”

Em busca de mais receitas

Além disso, o encanto da Cidade Luz vai ajudar a capital a calibrar as receitas. A cidade está perto de fechar um pacote de € 1,1 bilhão em parcerias de marketing “VIP”, com gigantes como Carrefour, que já assinou a participação, e a LVMH, que deve confirmar a entrada até o fim do ano.

Além disso, ainda é possível arrecadar mais com a venda de ingressos, em especial para as competições mais prestigiosas, e aumentando o índice de lotação dos estádios, previsto inicialmente em 85%.

Nesta semana, os organizadores revelaram que as entradas para os Jogos custarão entre € 24 e € 950. Os detalhes finais da tabela de preços só serão divulgados em dezembro.

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