Fantasma do voto impresso acirra tensão e justifica temores de 'novo Capitólio'

BRASILIA, BRAZIL - AUGUST 25: Jair Bolsonaro President of Brazil and Commander of the Brazilian Army, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira talk during the commemoration of the Day of the Soldier at the military headquarters on August 25, 2021 in Brasilia, Brazil. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro e o atual ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, durante evento em Brasília. Foto: Andressa Anholete (via Getty Images)

Não são notícias desconexas.

No dia em que o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, foi ao Senado debater a segurança das urnas eletrônicas, na quinta-feira (14/7) parlamentares bolsonaristas transformaram a audiência com o convidado em uma oportunidade para ressuscitar o fantasma do voto impresso.

O ministro disse na audiência que as Forças Armadas não são revisoras das eleições, mas tem dado trela a cada dia à ladainha golpista de seu chefe, Jair Bolsonaro, segundo quem o sistema eletrônico de votação pode, sim, ser fraudado.

Uma das ideias de gênio apresentadas pelo general foi a adoção de um votação “paralela”, bem no dia da eleição, com cédulas de papel.

A proposta seria um campo aberto a quem quisesse bagunçar o processo –do aluno do colegial ao presidente da República indisposto a entregar o cargo. Bastaria apertar um número na urna eletrônica e escrever outro, em papel. Pronto. Estava armada a suspeita de que a urna está programada para inverter a vontade popular.

Bolsonaro nunca apresentou provas do que diz sobre as urnas. Ele e seus apoiadores preferem omitir que, não faz nem dois dias, o Tribunal de Contas da União atestou que o sistema atual é seguro e auditável, enquanto a adoção do voto impresso representaria um retrocesso por ser mais oneroso, mais moroso e mais vulnerável a fraudes.

A proposta do voto impresso, vale lembrar, foi rejeitada pela Câmara há cerca de um ano.

Na época, aliados do presidente garantiam que o assunto estava encerrado. Mas Bolsonaro, sempre que pode, visita o túmulo da sua obsessão levando flores e mandigas para resgatá-la do mundo dos mortos.

Sob o comando do presidente, a base mais inflamada do bolsonarismo, inclusive seus ministros, não tem poupado ataques aos ministros do Tribunal Superior Eleitoral. A ideia é colocar em dúvida o processo eleitoral e colher uma revolta, em outubro, caso as urnas confirmem as projeções das pesquisas de intenção de voto.

O cenário para uma versão local da invasão do Capitólio, o Parlamento norte-americano, está desenhado, e o próprio presidente já afirmou que cada um sabe o que precisa fazer para impedir a volta dos inimigos ao poder.

Não é por acaso que, em meio às notícias sobre as ameaças e teorias conspiratórias sobre as eleições, o TSE tenha ligado um alerta sobre a onda de violência que pode varrer o país até lá.

Os ataques a drones, bombas e tiros oferecidos por bolsonaristas contra militantes rivais são a antessala do caos organizado.

Alvo preferencial da turma, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, que presidirá a corte eleitoral durante o processo, já aventa a possibilidade de pedir a suspensão do porte de armas no dia da votação.

A própria Polícia Federal já demonstra preocupação e ao pedir ajuda das policias estatuais para reforçar a segurança dos candidatos. Todo cuidado é pouco.

As razões para o temor são, em si, um indício considerável da degradação do ambiente político no país. E há quem ainda tenha dúvidas se a democracia está mesmo em risco.

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