Fantasmas e pôneis mágicos: o que você precisa saber sobre o novo livro de R. J. Palacio

Por incrível que pareça, sair do universo de “Extraordinário”, a sua série publicada em 55 países, não foi um desafio para a americana R. J. Palacio. Após quase dez anos dedicando-se a escrever histórias derivadas de seu antigo best-seller, a autora precisava de novos ares. Para compor o recém-lançado “Uma jornada sem fim” (Intrínseca), Palacio mergulhou em outra época: os Estados Unidos de 1860. O livro é uma espécie de faroeste espírita, assombrado por fotografias de época garimpadas pela própria escritora, que ilustram cada capítulo do livro.

— Eu já vivia no mundo de “Uma jornada sem fim” há muito tempo — conta em entrevista por email a autora, que passou anos pesquisando a história da fronteira americana no século XIX.

Travessia infinita

A vida de Palacio mudou em 2012, quando seu romance “Extraordinário” vendeu 15 milhões de cópias pelo mundo e gerou outros três títulos relacionados ao mesmo universo, além de um spin off. A história gira em torno de Auggie, um menino nascido com uma severa deformidade facial que busca convencer os colegas de escola de que é um menino igual a qualquer outro. Só aqui no Brasil, os livros venderam 1,5 milhão de exemplares. A série também rendeu um filme de 2017 com Julia Roberts e uma nova produção, “Pássaro branco”, com estreia prevista para outubro.

Há pelo menos uma semelhança entre “Extraordinário” e “Uma jornada sem fim”. Se o primeiro foi definido pela própria autora como “uma meditação sobre a gentileza”, o seu mais novo romance nos mostra que o amor é uma travessia infinita. Ambos partem de uma ideia muito cara a Palacio: a de que não estamos sozinhos.

A premissa é excêntrica na medida certa. O jovem Silas, herói do livro, tem nas costas uma cicatriz de árvore deixada por um raio. Ele também interage com pessoas mortas, que ninguém mais vê. Seu pai, um pioneiro da fotografia, acaba de ser sequestrado por uma gangue de falsificadores. Desobedecendo a ordem para esperá-lo em casa, o menino de 12 anos se aventura por um soturno e selvagem Velho Oeste na companhia de um fantasma (seu melhor amigo) e de um fantástico pônei que parece ter um GPS na cabeça.

— A escrita foi muito catártica para mim — diz Palacio. — Muitos leitores disseram que se sentiram reconfortados com o livro, não porque necessariamente fornece respostas para os mistérios da vida, mas porque nos faz sentir que podemos aceitar esses mistérios, o que por si só é um conforto. E nos lembra que essas conexões que estabelecemos em nossas vidas permanecem conosco, mesmo que nem sempre sejam óbvias. Andamos com milagres todos os dias e nem sabemos.

As fotos de rostos do século XIX presentes na edição dão uma estranheza a mais a essas páginas. São homens e mulheres anônimos (e um pônei) que passaram em algum momento por nosso mundo e que, mais de cem anos depois, ressurgem diante de nós, leitores. Quando Silas relembra sua mãe morta, por exemplo, vemos a foto de uma mulher real cuja fisionomia inspirou Palacio. De alguma forma, é como se essas pessoas nunca tivessem desaparecido.

— Nunca tive interação direta com fantasmas, mas acredito que nossos espíritos vivem de alguma forma — diz Palacio. —Então não descarto a ideia de que algumas pessoas interajam com eles.

As imagens do livro foram tiradas usando uma forma primitiva de fotografia, o daguerreótipo. É também a técnica usada pelo pai de Silas. Extremamente frágeis, essas relíquias fazem parte do acervo particular de Palacio, que as coleciona desde adolescente.

— Adoro câmeras e fotos antigas — diz ela. — Mas não sou uma colecionadora muito experiente. Nem sempre sei o que estou comprando ou se é valioso ou não. Consigo coisas porque me atraem esteticamente. Sempre fui fascinada pela arte da fotografia, que ainda me parece mágica.

Escrita em meio a sirenes

Palacio escreveu “Uma jornada sem fim” no auge da pandemia, em sua residência, no bairro do Brooklyn (NY), então um dos epicentros de Covid no mundo. Sirenes de ambulância lhe lembravam a morte a todo momento.

— Foram tempos assustadores e que nos tornaram mais humildes — lembra ela. — Mas também foi um tempo de conexão, porque o mundo todo o experimentou de uma forma ou outra. Estávamos conectados por nossa humanidade, nossa fragilidade e vulnerabilidade em relação a esse inimigo comum. “Uma jornada sem fim” é sobre como todos nós estamos conectados uns aos outros, mesmo que nem sempre vejamos essas conexões.

O conceito gráfico de “Uma jornada sem fim” é importante para a imersão na história. E não surpreende, já que R. J. Palacio também tem uma importante carreira como designer. Em 2005, ela teve uma ideia para um brinquedo: a Bobo Glove, uma luva com divertidos adereços nos dedos que vinha junto com um livro. O produto era destinado a bebês entre 3 e 12 meses. “É um chocalho. É um brinquedo de puxar. É um mordedor e um guincho. É um mundo de diversão para o bebê ao seu alcance e nunca precisa de uma bateria!”, dizia o anúncio.

— Na época, eu era diretora editorial da Workman, uma editora de livros infantis, e elaborei uma série de publicações que vinham com complementos — recorda a autora.

Antes da glória literária, Palacio foi responsável pelo design das capas de autores como Paul Auster e Thomas Pynchon. A experiência lhe ensinou muito sobre o trabalho de escritora, já que ela interagia com autores e editores o tempo todo.

— Aprendi lendo manuscritos que estavam em processo de edição e tendo uma visão privilegiada do processo de escrita — lembra a americana, cuja carreira como escritora decolou de verdade quando ela migrou de diretora de arte para editora. — Trabalhando em manuscritos de outras pessoas, aprendi a ser um pouco mais implacável com minha própria escrita.

Autocrítica

“Uma jornada sem fim”, aliás, foi vítima desse rigor e autocrítica. O livro poderia ser muito diferente, não fosse o perfeccionismo de sua autora. Ao perceber tardiamente que não estava escrevendo o livro que queria, Palacio jogou fora uma primeira versão da história que já acumulava 400 páginas e um trabalho de dois anos. Tudo foi, literalmente, para o lixo.

— Foi tão difícil, e eu me senti absolutamente infeliz por dias — lembra ela. —Teria sido um livro muito longo. O que eu tinha imaginado era um épico rápido. E percebi, depois de dar uma olhada fria no que eu havia escrito, que não havia como salvá-lo. Tinha saído do curso. E quando isso acontece, é difícil consertar.

A escritora trabalhou em outros projetos por um tempo. Mas personagens como Silas Bird ficaram com ela. O enredo volta e meia retornava à sua cabeça. Oito anos depois do bloqueio, veio o clique. Ela retomou tudo do zero — e, dessa vez, a escrita se desenrolou do jeito que queria.

— Felizmente, os personagens e o enrendo haviam ficado comigo — diz ela. — Toda aquela pesquisa que eu tinha feito oito anos antes voltou para mim, mas não de uma forma esmagadora. Agora, olhando para trás, percebo que não poderia ter escrito o livro se não tivesse passado esses dois anos trabalhando nele.

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