FAO: número de pessoas com fome se reduziu a 868 milhões no mundo

Por Ljubomir Milasin
9 de outubro de 2012
Criança com desnutrição em campo de refugiados no Sudão do Sul, em agosto de 2012
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Criança com desnutrição em campo de refugiados no Sudão do Sul, em agosto de 2012

O número de pessoas que sofrem com a fome no mundo se reduziu nos últimos anos a 868 milhões, informou nesta terça-feira a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), que também advertiu que essa cifra continua sendo inaceitável e que os avanços na luta contra a desnutrição registraram uma desaceleração.

Esse número representa 12,5% da população mundial ou uma em cada oito pessoas, destaca o informe, que denuncia uma subnutrição inaceitavelmente alta.

"O relatório traz sem dúvidas boas notícias. Houve avanços na luta contra a fome, mas o número (de pessoas desnutridas) continua sendo muito elevado", afirmou o diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, em coletiva de imprensa em Roma, sede da entidade.

"O planeta dispõe de alimentos em quantidade suficiente para alimentar todo o mundo", afirmou Graziano, para quem ainda é possível reduzir pela metade o número de pessoas com fome até o ano 2015, um dos Objetivos do Milênio da ONU.

Mas, de todos os modos, "a única cifra aceitável é zero, e a alcançaremos", acrescentou o principal responsável pela aplicação do programa "Fome Zero" do governo brasileiro.

Em seu mais recente relatório sobre "O estado da insegurança alimentar no mundo", a FAO assinala que no período 2010-2012 foram registradas 868 milhões de pessoas atingidas pela "subnutrição crônica".

Dessa maneira, a cifra global marca uma diminuição em relação a 2010, quando a subnutrição afetava 925 milhões de seres humanos, e a 2009, quando a FAO anunciou que o número de pessoas com fome superou um bilhão.

"A maioria dos progressos foi obtido antes de 2007-08. Desde então, os avanços em nível mundial na redução da fome se desaceleraram e se estabilizaram", constata o estudo.

Essa desaceleração se deve a várias razões, como "a crise econômica mundial, a alta dos preços dos alimentos, a crescente demanda de biocombustíveis, a especulação sobre matérias-primas alimentares ou mudanças climáticas", enumerou o assistente do diretor-geral da FAO para desenvolvimento econômico e social, Jomo Sundaram.

Segundo o estudo, das 868 milhões de pessoas desnutridas no período 2010-2012, a enorme maioria - 852 milhões - vive em países em desenvolvimento, onde a subnutrição atinge atualmente 14,9% da população.

A geografia da fome se concentra em três regiões, que somam 705 milhões de afetados: sudeste asiático (304 milhões), África subsaariana (234 milhões) e Ásia oriental (167 milhões).

Na América Latina e Caribe, 49 milhões de pessoas padecem de subnutrição.

As tendências dos últimos 20 anos são contrastadas, segundo os continentes.

"No sudeste da Ásia e na Ásia oriental foi registrada a redução mais pronunciada da proporção de pessoas subnutridas nas regiões em desenvolvimento entre 1990-92 e 2010-12 (de 13,4% a 7,5 % e de 26,1% a 19,2%, respectivamente), enquanto que, na América Latina, também diminuiu, de 6,5% a 5,6%", indica a FAO.

"Mas, durante o mesmo período, a proporção aumentou de 32,7% a 35% na Ásia meridional, de 17% a 27% na África subsaariana e de 1,3% a 2,9% na Ásia ocidental e África do Norte".

O crescimento econômico não basta para reduzir a fome

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O crescimento econômico, afirma a agência da ONU, é necessário, mas não suficiente para acelerar a redução da fome e da má nutrição.

"Durante a última década, o crescimento da renda per capita foi positivo em todas as regiões em desenvolvimento, mas em muitos países não resultou numa redução significativa da fome, o que sugere que é pouco provável que o crescimento por si tenha um efeito considerável na redução da fome", destaca.

Para sair da fome, o crescimento "deve envolver e estender-se aos países pobres mediante o aumento do emprego e outras oportunidades de geração de renda" e deve ser apoiado por "medidas públicas para financiar a educação, o desenvolvimento das capacidades e uma ampla variedade de programas públicos de nutrição e saúde", prossegue o informe.

Outra resposta passa pelo "aumento da produtividade dos pequenos agricultores" nos países em desenvolvimento e por sua "integração aos mercados".

Além disso, a luta contra a fome supõe "melhorar a qualidade da alimentação, ou seja, a diversidade da dieta, a variedade, o conteúdo de nutrientes e a inocuidade dos alimentos", enfatiza o estudo.

A FAO usou uma nova metodologia para elaborar seu último relatório, e revisou a totalidade de seus dados das últimas duas décadas, o que provocou algumas modificações, indicou Sundaram.

Em seu relatório do ano passado, a FAO assinalava que havia 833 milhões de pessoas com fome no mundo no período 1990-92 e 866 milhões em 2009. Com os novos instrumentos de análise, essas cifras se modificam, elevando-se a 980 milhões em 1990-92 e caindo a 853 milhões em 2009.

Luca Chinotti, da ONG Oxfam, por sua vez, denunciou a falta de ação dos governos ante "o maior escândalo da nossa época", que condena à fome mais pessoas que toda "a população dos Estados Unidos, Europa e Canadá".