'Faraó dos bitcoins' planejava matricular a esposa em universidade americana para conseguir visto e deixar o Brasil, diz polícia

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Uma investigação da Polícia Civil indica que Glaidson Acácio dos Santos, o "faraó dos bitcoins", planejava matricular a esposa, a venezuelana Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, em uma universidade nos Estados Unidos. Segundo o relatório elaborado pela Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD), ao qual o EXTRA teve acesso, o objetivo do ex-garçom, preso sob a acusação de comandar um esquema de pirâmide financeira, era conseguir um visto americano para, assim, mudar-se em definitivo do Brasil para o exterior, escapando das autoridades.

A partir da quebra do sigilo telemático do telefone de Glaidson, realizada com autorização da Justiça, os policiais encontraram, armazenado em nuvem, o formulário de admissão de Mirelis na Atlantis Universits, uma instituição privada sediada em Miami. A esposa do empresário também teve a prisão decretada na Operação Kryptos, desencadeada pela Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF), deflagrada no dia 25 de agosto, mesma data em que Glaidson foi parar atrás das grades.

As investigações dos dois órgãos federais, contudo, indicam que ela já havia deixado o Brasil semanas antes da ação. A mulher viajou de Cabo Frio para o Rio de Janeiro no dia 23 de junho deste ano, sob forte esquema de segurança. Em seguida, foi para o México e, então, para os Estados Unidos, firmando domicílio justamente em Miami, com visto de estudante. O GLOBO entrou em contato com a Atlantis Universits, mas não obteve resposta sobre Mirelis estar ou não efetivamente matriculada em algum curso na instituição. O nome de Mirelis foi incluído na difusão vermelha da Interpol como foragida.

O relatório elaborado pela DCOC-LD encontrou outros indícios de que o "faraó dos bitcoins" pretendia, tal qual a esposa, fugir do Brasil. "Localizamos também alguns áudios, no aplicativo de mensagens de Glaidson, que corroboram a intenção do investigado de deixar o país e se homiziar nos EUA", afirma o texto, assinado pelos delegados Leonardo Borges Mendes, titular da especializada, e Gabriel Poiava Martins. Em uma das mensagens, de acordo com os policiais, o ex-garçom agradece a um indíviduo identificado como "Piloto", ainda não identificado, por "tudo que ele tem feito" para que o casal obtivesse o visto americano.

Os investigadores da Polícia Civil também acharam no aparelho de Glaidson vídeos enviados por um corretor em que é apresentado um imóvel provavelmente situado "em solo americano, pois é possível escutar, ao fundo, pessoas conversando no idioma inglês". O relatório destaca ainda que "o corretor faz questão de ressaltar que o píer da residência tem capacidade para uma lancha de 70 pés, além de mencionar que naquele condomínio só residem pessoas que ocupam a classe 'AAA' da sociedade". Procurada, a GAS Consultoria, empresa de Glaidson, afirmou que "desconhece o conteúdo das investigações, que seguem sob sigilo de Justiça".

A DCOC-LD concluiu a investigação indiciando Glaidson, a esposa e outras 14 pessoas que, segundo a Polícia Civil, estavam envolvidas no esquema. A quadrilha foi enquadrada nos crimes de lavagem de dinheiro, formação de organização criminosa, crime contra as relações de consumo e crime contra a economia popular. Além disso, os delegados pediram à Justiça que fossem bloqueadas contas bancárias, assim como o sequestro até mesmo de ativos em criptomoedas, dos 16 indiciados e também de 17 empresas ligadas ao grupo.

Na última terça-feira, dia 14 de setembro, o Ministério Público do Rio (MP-RJ) declinou a competência para dar prosseguimento ao caso por entender que os crimes cometidos pelo bando são de competência e atribuição dos órgãos federais. Assim, todas as informações da investigação foram remetidas pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-RJ, para a PF e o MPF, responsáveis pelas prisões já realizadas e que já vinham investigando Glaidson e os comparsas.

O ex-garçom e ex-pastor da Igreja Universal é acusado de simular transações com criptomoedas para mascarar um esquema fraudulento, no qual prometia lucros exorbitantes aos investidores. Segundo os investigadores federais, a GAS Consultoria não tinha registro junto aos órgãos regulatórios para fazer as operações prometidas. A principal suspeita das autoridades é a de que Glaidson sequer investia o dinheiro dos clientes em criptomoedas, conforme o pactuado em contrato. Para a PF e o MPF, ele pagava os valores prometidos com a entrada de aportes de novas vítimas da quadrilha, configurando-se assim uma pirâmide financeira.

Na Operação Kryptos, os agentes apreenderam 21 carros de luxo, R$ 13,8 milhões em espécie e 591 bitcoins, o equivalente a cerca de R$ 150 milhões na cotação atual. A Câmara Criminal do Ministério Público Federal, vinculada à Procuradoria-Geral da República (PGR), autorizou a liquidação imediata dos criptoativos apreendidos na ocasião, para evitar o risco de que os valores fossem movimentados pela organização criminosa.

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