Farmácias da cidade de São Paulo têm falta de antibióticos

***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 25-06-2010 - Caixas de remédios de amoxicilina (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 25-06-2010 - Caixas de remédios de amoxicilina (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No período de maior incidência de doenças respiratórias em crianças, farmácias da cidade de São Paulo têm registrado falta de antibióticos infantis. A situação tem levado médicos a buscar tratamentos alternativos, com medicamentos de versões mais antigas ou usados com adultos.

A reportagem consultou, por telefone ou pessoalmente, 26 farmácias da capital entre o último sábado (30) e segunda-feira (2). Em todas, houve relato de falta de antibióticos que são utilizados, por exemplo, para tratar pneumonia, otite e amigdalite. No site das principais redes de drogaria, os medicamentos também estão indisponíveis.

Médicos e atendentes das farmácias dizem que o estoque desse tipo de remédio já estava baixo nos últimos meses, mas a situação se agravou com a chegada do outono e o aumento de doenças respiratórias em crianças.

Eles, no entanto, ressaltam que a alta de doenças respiratórias já era esperada e que o número de casos está dentro do que era registrado em anos anteriores, antes da pandemia. Para os médicos, o problema está no abastecimento de medicação.

"O aumento de doenças ocorreu no último mês com a chegada do outono, mas isso é normal. O que é inusitado e nunca ocorreu é a falta de medicação", diz o pediatra Paulo Telles. Ele diz ter entrado em contato com laboratórios e fabricantes de remédios, mas não recebeu resposta sobre a falta de estoque.

O pediatra conta que tem sido recorrente as famílias retornarem ao consultório para pedir medicação alternativa depois de não encontrar o que foi prescrito. "Os pais ligam desesperados perguntando se é possível trocar o remédio, porque rodam dezenas de farmácias e não encontram."

Ele diz que em alguns casos têm prescrito antibióticos de versões mais antigas ou até mesmo ajustado dose de medicamentos usados com adultos para o tratamento de crianças.

"Infecções bacterianas se não tratadas rapidamente podem evoluir para quadros graves. Então, tenho recorrido a uma segunda ou terceira opção de medicamento", diz.

O pediatra José Martins Filho, professor da Faculdade de Medicina da Unicamp, diz nunca ter visto uma falta generalizada de medicamentos como a que está ocorrendo. "É inusitado que remédios tão comuns e com maior procura nessa época do ano estejam faltando", diz.

Na última semana, Martins Filho receitou Amoxicilina para uma criança com pneumonia. Os pais percorrem mais de dez farmácias e apenas na última encontraram o antibiótico, mas apenas uma caixa, o que só garantia o tratamento por cinco dias. A prescrição inicial era para dez dias.

"Eles me ligaram para pedir uma segunda receita para que pudessem comprar a segunda caixa. Só depois de alguns dias e percorrendo dezenas de farmácias, é que encontraram o remédio", conta.

Segundo os médicos, a maior dificuldade tem sido para encontrar os antibióticos, genéricos e similares, de Amoxicilina e Azitromicina.

A atendente de uma unidade da Drogasil na região de Vila Diva, na zona leste, disse à Folha que há três meses os antibióticos de uso infantil estão com fornecimento intermitente, mas há um mês a situação ficou crítica, com estoque zerado para genéricos e similares, inclusive.

O atendente de uma unidade da Drogaria São Paulo na região do Tatuapé, também na zona leste, afirmou que não há previsão da chegada de medicamentos e que está orientando os clientes a pedirem aos médicos que receitem outra classe de medicamentos, que ainda se encontram disponíveis em poucas unidades.

Thales Araújo de Oliveira, gerente médico do pronto-socorro do Hospital Infantil Sabará, diz que muitos pais têm retornado à emergência depois de não encontrar os antibióticos prescritos. Os médicos têm tentado medicações alternativas, mas, em alguns casos, recorrem à aplicação intravenosa ou intramuscular no próprio hospital.

"Tentamos trocar a receita até que a família encontre o medicamento para comprar, mas nem sempre tem sido possível. Ontem [segunda-feira, 2], prescrevemos quatro antibióticos diferentes para uma criança e não encontraram nenhum. Tivemos que interná-la para tratar no hospital", conta.

Fausto Carvalho, presidente do Departamento de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo, diz que a falta de remédios também afeta cidades do interior do estado e que também já há relatos de desabastecimento dentro de hospitais. "É uma situação muito grave. Os fabricantes precisam esclarecer por que isso está ocorrendo."

Procurada, a Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias) afirma não ter recebido nenhuma informação ou notificação das redes sobre falta generelizada de medicamentos.

Em nota, o grupo DPSP, responsável pelas drogarias Pacheco e Drogaria São Paulo, diz que a falta de remédios é uma "situação pontual decorrente de um aumento atípico na demanda". Também disse ter feito um reforço no abastecimento para normalizar a situação em breve.

A Folha procurou a Droga Raia e a Drogasil, mas as empresas disseram que não se manifestariam.

O Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos) disse, em nota, que a falta de remédios pode ser resultado de "eventuais desajustes de estoques em farmácias e distribuidores, provocados eventualmente pelo aumento de demanda de vários medicamentos nos últimos meses".

A entidade diz que não há relato das indústrias farmacêuticas sobre problemas de produção e distribuição de seus produtos.

Apesar de afirmar que não há problemas de produção, o Sindusfarma reclama do controle de preços dos medicamentos, que é feito pelo governo federal. Segundo a entidade, alguns remédios têm seu preço de venda autorizado em valor inferior aos custos de produção.

"A regulação de preços dos medicamentos precisa ser modernizada urgentemente, para evitar que, no futuro, novos e mais sérios problemas surjam, ameaçando a fabricação de outros medicamentos fundamentais à saúde da população", diz a nota.

Ainda segundo a entidade, as indústrias estão "se desdobrando para produzir e distribuir todos os medicamentos que a população precisa" e que eventuais problemas de abastecimento serão resolvidos o "mais rápido possível".

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