Faroeste de Carla Zambelli eleva tensão em disputa marcada por violência e assédio

Brazilian Federal Deputy Carla Zambelli and Trucker's movement leaders attend a news conference after a meeting with Brazil's President Jair Bolsonaro at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, September 9, 2021.REUTERS/Adriano Machado
A deputada bolsonarista Carla Zambelli. Foto: Adriano Machado/Reuters

Uma deputada da base governista é verbalmente hostilizada por um eleitor de Lula (PT) em frente a um restaurante em um bairro nobre de São Paulo. A reação é característica desses tempos de irracionalidades e proporções: escoltada por um segurança, que atira no homem (e é preso pouco depois), ela saca a sua arma e corre em direção ao ofensor.

Não se sabe exatamente o que ela buscava. Sangue? Uma admissão de culpa? Ver o algoz ajoelhado com medo de morrer?

A um dia da eleição, a versão pistoleira de Carla Zambelli (PL-SP), mulher armada, cercada por capangas, ao encalço de um homem negro, praticamente monopolizou as atenções das redes sociais. Isso em um dia em que as últimas pesquisas de intenção de voto para presidente saíam do forno e duas equipes brasileiras disputavam a final da Copa Libertadores da América, torneio mais importante do futebol sul-americano.

Em poucos minutos, a cena dá a dimensão do que está em jogo neste domingo (30), quando o ex-presidente Lula (PT) chega em vantagem nos levantamentos sobre as preferências dos eleitores. No Ipec, o petista lidera a disputa com 54% dos votos válidos, contra 46% do atual presidente; no Datafolha, a margem é menor (de 52% a 48%).

Qualquer detalhe agora pode fazer a diferença.

Faltou combinar com Carla Zambelli.

O ataque a um eleitor desarmado se conecta a outra cena, produzida por outro aliado de Jair Bolsonaro (PL) há menos de uma semana: Roberto Jefferson (PTB), apoiador armado até os dentes do atual presidente, ofendeu uma ministra do Supremo Tribunal Federal, desobedeceu medidas cautelares e forçou uma prisão para poder resistir e se tornar o mártir da causa bolsonarista. Fez isso atirando 50 vezes contra os agentes escalados para cumprir o mandado de prisão.

Todo este caldo estava sedimentado nas bases da sociedade ao longo dos últimos anos. Como diz a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, Bolsonaro conseguiu aglutinar pulsões políticas que andavam dispersas. Coesas e fortalecidas, segue a especialista, essas pulsões se converteram em uma identidade e já não precisa de um líder para se manifestar: elas se auto-organizam por meio de soldados dispostos a matar ou morrer por uma causa.

Zambelli é um desses soldados. Jefferson também.

Há um debate intenso sobre se as manifestações ostensivas de apoio à causa é benéfica ao debate de ideias. Afinal, discursos de ódio e defesa da eliminação física de adversários já não se escondem nos subterrâneos; pelo contrário: facilmente identificáveis em símbolos e slogans sequestrados de movimentos autoritários do século passado, eles surgem diante de todos e permitem reações imediatas, de adesão ou rejeição.

Num mundo perfeito, suas contradições e dilemas seriam confrontados pela exposição de ideias: tese, antítese e síntese.

No mundo real, parte dos debatedores quer apenas sacar as armas quando chamados a voltar ao mundo.

Em menos de 24 horas, é possível ver cenas como as de Zambelli e de repente perceber o risco que estamos alimentando? Se uma deputada age como age, com as costas largas de quem sabe ter sido empoderada por um discurso violento e desonesto, o que esperar de quem promete ir às últimas consequências pelo país que julgam ideal?

As eleições de 2022 foram marcadas pela violência política e a violência do assédio eleitoral de patrões sobre empregados que ousam discordar de seus desejos confessos e inconfessos. Nunca o abismo social entre uns e outros ficou tão evidente.

A atual disputa praticamente teve início com a morte de um guarda civil em Foz do Iguaçu (PR) por celebrar sua festa de aniversário com decorações em homenagem ao ex-presidente Lula (PT). O assassino era um apoiador de Bolsonaro.

Bolsonaro e equipe passaram os últimos dias desviando desses corpos e fingindo que a conversa não era com eles.

A dissimulação é parte do jogo. Primeiro a turma se arma, depois atira, depois altera a cena do crime para chamar o crime de legítima defesa. (Nem Zambelli nem Jefferson ou mesmo a campanha de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo podem dizer que apenas reagiram com violência a uma ação violenta: eles eram a violência).

Era e é tudo isso que está em jogo neste dia de eleições.

Não deixa de chocar saber que parte dos eleitores ainda olhe para tudo isso e não perceba a gravidade.

Mas também não deixa de ser um alento que outra boa parte (a maioria? Saberemos em algumas horas) reagem a isso sem precisar dar nenhum tiro para o alto.

Atualizações ao vivo